#WEBCONTO: O Poder do Amor


T
udo começou no auge da adolescência, quando os hormônios estão aflorados e os sentimentos totalmente confusos, quando a vida passa ser vista com maturidade, quando os desejos são trocados e se tornam ainda mais intensos.
Ana e Arthur cresceram juntos, eram melhores amigos, compartilhavam segredos que ninguém poderia imaginar, na verdade possuíam uma linguagem própria que apenas eles entendiam, tamanha era a cumplicidade. Foi em uma tarde de domingo ensolarado, no bosque da pacata Vale da Luz, que a garota encarou os olhos do velho amigo de uma maneira diferente, eram verdes como esmeralda e brilhantes como metal; seu sorriso dado tantos vezes parecia ainda mais encantador, algo nunca notado antes; seus cabelos desgrenhados e loiros lhe davam um aspecto maroto, o que fez seu peito acelerar.
O mesmo aconteceu com Arthur, naquela tarde o adolescente descobriu na amiga de infância olhos castanhos que lembravam o mel puro das colméias; os cabelos pretos que contrastavam com a pele branca o remetiam de volta ao passado, quando na escola ouvia os contos da Branca de Neve e sua beleza; os lábios formavam um sorriso acanhado, porém convidativo a um beijo. Viu que era significativamente maior que a garota e isso lhe dava o desejo em ser seu protetor, encarar a moça daquela forma provocava um borbulhar em seu estômago, um frio na barriga.
— Você está linda hoje — elogiou exibindo os claros e alinhados dentes, a voz ainda um tanto desafinada pelas recentes transformações, mas que mesmo assim soaram como sendo o melhor som que a menina já ouvira.
— Obrigada — agradeceu envergonhada, abaixando a face corada, querendo esconder o acanhamento.
— Não precisa agradecer — em um gesto tranquilo Arthur colocou seu indicador no queixo de Ana e ergueu o rosto ruborizado —, é apenas a verdade.
Os olhares se fixaram.
— Também te acho lindo — o que apenas era dito ao secreto diário agora já não era um segredo, fora revelado com a timidez exposta.
Observando o sol que tocava a delicada pele da garota, o rapaz se encheu de coragem para declarar um segredo que nunca descobriu, o único que jamais compartilhou:
— Eu gosto de você.
Ana sorriu. É claro que gostava dela, eram amigos há tanto tempo! Embora no fundo ela almejasse ser gostada de outra forma por aquele que tirava de seus pensamentos frases dóceis e cenas românticas, ela preferia não se arriscar ao criar expectativas sem razão e acabar com uma amizade que acalentava sua alma.
— Eu também gosto de você — deu um soquinho no ombro do maior.
— Você não entendeu — segurou as mãos da menor e as levou ao peito, bem onde bate o coração —. Eu amo você.
A adolescente ficou sem palavras diante ao que sempre desejou ouvir, sentiu uma descarga percorrer o seu corpo e atingir sua garganta formando um nó, que na verdade era um emaranhado de sentimentos provocados pela paixão.
— Você aceita ser a minha namorada?
Diante daquilo as lágrimas se acumularam nos olhos radiantes e o rosto ficou ainda mais iluminado com o sorriso exuberante que conquistara seu admirador, encarando os olhos verdes e se deixando encantar pelos mesmos deu a sua resposta por meio da união dos lábios, uma união há tanto sonhada, há tanto projetada, que agora era real.

~

“Os opostos se atraem”. Para o amor nem sempre isso é regra, por vezes os iguais se completam. Ana e Arthur tinham desejos semelhantes, pensamentos que caminhavam juntos ao ponto de escolherem a mesma faculdade. Um pouco a escolha se deveu ao fato de se amarem, mas o outro pouco também se deveu ao fato de se amarem...
Alguns dias após a formatura em Engenharia Química o casal marcou uma viagem para a formosa Paris, precisava descansar um pouco e aproveitar um tempo junto. Do alto da Torre Eiffel, observando a cidade iluminada tendo ao seu lado a mulher que amava, Arthur, agora um verdadeiro homem, com a voz mais firme e um tanto mais alto, declarou o que aquele momento o fazia pensar:
— Nunca poderia imaginar que um dia estaria nesse lugar ao lado da pessoa que mais amo nesse mundo.
Tendo os cabelos agitados pelo vento frio que soprava no inverno de Paris, Ana, agora ainda mais elegante, capaz de conquistar a quem quisesse, também revelou os seus sentimentos:
— Quando é que poderíamos imaginar que fôssemos viver uma história de amor? Sempre tão amigos, tão cúmplices, mas nunca amantes... Abençoado seja o bosque da pacata Vale da Luz — sorriu nostálgica.
— Algumas coisas não têm explicação — abraçou a namorada se aconchegando no calor que dela emanava —, mas fazem todo sentido...
— São as ironias da vida — afirmou pensativa — e o trabalho do tempo.
— Escritos de Deus — completou com ternura.
Ficaram ali por mais alguns minutos, abraçados, protegidos do mundo e de sua brutalidade, envolvidos pelo amor e por sua suavidade. Perto de irem embora Arthur pediu que a mulher fechasse os olhos, tinha uma surpresa a fazer, algo especial.
— Já pode abrir.
Ana viu o homem que amava ajoelhado sobre os seus pés, tendo em mãos uma caixinha preta por fora e vermelha por dentro, com uma almofadinha em seu centro que sustentava o brilhante anel dourado. As mãos foram à boca, o semblante era de espanto e as lágrimas de contentamento; já sabia qual o porvir pedido.
— Aceita ser a minha esposa?
— Sim! Sim! Sim! — era tudo o que mais queria, mas nunca revelou, deixou o amor agir no seu tempo.
Anéis trocados.
O maior uniu as mãos e encarando ternamente os olhos cor-de-mel proferiu as palavras que brotavam de uma fonte especial: do seu coração:
— Eu prometo que a amarei incondicionalmente, que serei além de um esposo um amigo sincero, um companheiro de toda a vida, o seu querido diário, aquele que a acolherá nos dias frios e a consolará nos dias sombrios... Eu prometo que te amarei.
As pequeninas mãos envolveram a nuca do maior, os pés ficaram na pontinha enquanto um beijo cheio de ternura sob o luar de Paris marcava mais aquele capítulo na história de amor do apaixonado casal.

~

Mas todo romance tem a sua má fase, nem sempre as coisas são troca de palavras melosas, as divergências acontecem, cabe ao casal usar a espada do amor e cortar os laços do ódio.
Arthur era um homem atraente, sedutor e, embora apenas tivesse olhos para a esposa que antes de qualquer coisa sempre foi sua amiga, causava a cobiça de outras mulheres dentre elas Débora, sua colega de trabalho.
— O que significa essa mancha de batom? — Ana não pôde deixar de notar o colorido no paletó do marido, sempre foi ciumenta e criativa em muitas de suas paranóias, aquilo fora a gota.
— Eu não sei! — a resposta era sincera. Ela não vira que sua colega, a invejosa Débora, aproveitou um momento de distração para manchá-lo na intenção de destruir o seu romance, e assim, quem sabe, abrir caminho na conquista de Arthur, um plano clichê, no entanto fatal.
— Mas eu sei! — ela não poupou forças ao agredir o rosto daquele que tanto amava e por isso tanto se enciumava —. Traição! — as lágrimas eram intensas.
Ser acusado de traição era demais para um homem que prezava, sobretudo, pela honestidade. Perdeu a cabeça, disse o que não deveria:
— Pense o que quiser, estou farto de tantas insinuações! Só não reclame quando eu sair da sua vida! — bufando deu as costas, precisava de um tempo sozinho, refugiou-se no próprio quarto.
“... só não reclame quando eu sair da sua vida!”. Embora ditas sem sentimento as palavras foram escutadas com sentimento, Ana imaginou que suas suspeitas fossem verdade, caso contrário o marido insistiria em provar sua inocência, talvez não a amasse mais. Entrou no carro e saiu em disparada, sem rumo nem direção.
A velocidade estava acima do limite permitido, as lágrimas dificultavam a visão. Um estrondo. Uma trombada em um caminhão. Três capotamentos seguidos. A mulher grávida sangrava pelo corpo, desacordada.

Logo que recebeu a notícia Arthur correu ao hospital, aflito, angustiado, com as esperanças abaladas e o medo o sufocando. Precisava falar com o médico, mas temia as notícias que poderiam ser dadas.
— Seu Arthur, acompanhe-me — a enfermeira pediu.
O homem chorava feito um menino desesperado, não podia acreditar naquela situação, uma história tão bem escrita até aquele ponto não poderia terminar daquele jeito.
— Conseguimos salvar o bebê — o médico apareceu com um menino que dormia tranquilo em seus braços, a pele lembrava a mãe enquanto os cabelos, ainda que poucos, remetiam ao pai; uma perfeita mistura.
O engenheiro pegou em seu colo cheio de ternura a indefesa criatura pronta para ser amada. Abraçando aquele que era sangue do seu sangue sentiu o doce perfume, o qual trouxe à sua memória o que Ana sempre usava.
— E a minha mulher? Como ela está? — perguntou emotivo, apreensivo.
O médico abaixou a cabeça, não disse palavra alguma, nem precisava, apenas sugeriu que Arthur o seguisse.
Aquele homem que um dia foi criança e desde aquele tempo amava uma garota especial que hoje era mulher, mas sem vida, chorava pelos corredores do hospital amargamente, seu coração despedaçado não sabia o que fazer. Entrou na UTI e encontrou o corpo que aguardava os agentes da funerária.
A bela Ana não tinha cor, os machucados eram visíveis, a pele já não estava tão quente como de praxe. Encarar aquele rosto inanimado, fechado para a vida, quebrantou todo o ser do homem que a amava e caindo de joelhos sobre o chão segurava as mãos pequeninas daquele que adorava, enquanto fazia súplicas e lamentações.
Ele passou a imaginar como seria dali por diante, como seria deitar para dormir sem receber o beijo de boa noite, levantar ao amanhecer e não encontrar sua amável companhia para o café da manhã; como seria encarar os tantos retratos espalhados pela casa que exibiam o tal rosto angelical sem poder tocá-lo, senti-lo; como seria andar pelo bosque da pacata Vale da Luz sem a menor provocando os seus muitos risos; como seria descrever a linda mãe que o filho tinha sem poder abraçá-la mostrando todo o seu amor.
— Eu não posso viver sem você — levou as imóveis mãos ao peito, bem onde bate o coração e deu o seu último beijo naquela que um dia tanto amou.
Olhos cor-de-mel se abriram, um sorriso discreto foi desenhado, a fraca voz soou com ternura:
— Eu sabia que você viria.
O beijo antes dado como despedia agora tinha como razão boas vindas.

Aquele fora o poder do amor, aquele que dá vida mesmo onde impera a morte.

Fim



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Um abraço,
E até quinta com o terceiro capítulo de A Delegada!

Comentários

  1. Oiee!!

    Gostei desse conto, apesar de nunca ter lido. É você que escreve?

    Beijos

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  2. Muito legal o seu conto, gostei bastante dos personagens!
    Beijos
    Mari
    www.pequenosretalhos.com

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  3. Que conto mais lindo *-* eu adoro ler textos assim, com detalhe que contribuem para a construção da história. Que amor mais encantador o deles!

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  4. Amei o seu conto, adoro textos que começamos a ler e não conseguimos parar ❤️ Parabéns 👏

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  5. Amei a história da Ana e do Arthur. É incrível como eles combinam e como se declaram um pro outro.

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  6. Conto lindo e emocionante, você escreve super bem!

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  7. Genteee, que lindo ! Até fiquei emocionada. Os personagens me envolveram. Continue você vai longe, viu !

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  8. Oi, tudo bem? Acho que estou muito emotiva hoje... o texto me fez sentir uma dorzinha no coração, uma saudade sem tamanho. Me fez pensar se todas as pessoas na vida encontram um amor assim, alguém que esteja tão presente, tão do nosso lado quando precisamos, e que pese tanto ela não estar mais junto de nós. Acordar sem ter aquela pessoa ali, seu carinho, seu abraço quente, suas palavras de afeto, seu olhar, seria muito triste seguir os dias só. Texto incrível. Beijos, Érika =^.^=

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  9. Nossa! Esse seu texto está lindo demais.. Com certeza me tocou e tocou muitas pessoas, além de tocar você, pq estava mega inspirada para escrever. Parabéns pelo belo texto.. Me fez repensar um pouco mais sobre o amor

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  10. Amei esse conto, ele foi muito envolvente. Gosto de quando me perco na leitura. Bateu um pouco de inveja, pois nem sempre é assim. Tenho um super amigo de infância e nunca senti isso (ele até tentou) na maioria das vezes melhores amigos de infância não dão certo (nossa como eu sou chata hahaha) acho que pela convivência que fazem se tornar como irmãos. Mas queria alguém assim que esteja tão presente no nosso lado quando mais precisamos.
    Sério eu amei seu conto e você tem muito talento :)

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  11. Oi Amilton! Que lindas palavras! Acho que é o primeiro conto que leio aqui no seu blog e amei, tão sensível e emocionante! <3
    Parabéns!

    Beijos!

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  12. Que coisa mais gostosa de ler! Que escrita envolvente, sensível.. vocabulário rico e cheio de amor. Nossa, amei ler..

    Esse fechamento "O beijo antes dado como despedia agora tinha como razão boas vindas." foi maravilhoso!!!!!
    Beeeijos, By Morgana PZK

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  13. Achei muito bom e muito bem escrito! Adorei e quero continuação <3
    Abraço :)

    Red Behavior

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