[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 03



Decepções


“A decepção é algo que nos machuca tanto, pois vem daqueles que tanto admiramos. Cada um reage a sua maneira. Uns se deixam vencer, mas outros encontram forças onde não tem e mostram que coisas ruins vão embora para que melhores possam chegar”.

[17 de maio de 2011]
Jéssica estava no auge dos seus vinte anos e já se destacava como top model na Morgan Modas. Dona de um talento ímpar havia conquistado os olhares de Verônica, que logo a contratou com exclusividade. Porém a vida é como um sopro: podemos no agora estarmos bem e, no futuro, que pode ser de apenas um segundo, nem existirmos mais.
Há algumas semanas a modelo vinha se sentido mal, uma fraqueza repentina a dominava e manchas apareciam em seu corpo, o que logo a preocupou. Angustiada, a garota dos olhos verdes procurou algum médico, queria certificar-se de que estava tudo bem.
— Minha jovem, creio que os próximos dias em sua vida serão cheios de luta, você precisará ser forte para vencer a batalha.
— O que quer dizer com isso? — a modelo se preocupou ainda mais —. Tem algo sério acontecendo comigo?
— Não vou esconder nada de você, infelizmente os exames detectaram uma leucemia.
A garota não conteve as lágrimas, para ela aquilo foi como dizer que a sua vida havia terminado.
— Eu não posso acreditar nisso, tem certeza? — ela perguntou em meio às lágrimas.
— Sim, tenho absoluta certeza — o médico pegou nas mãos da paciente —. Jéssica, você é uma pessoa forte, fonte de inspiração a tantos jovens. Em tão pouco tempo tem conseguido reconhecimento nacional e até mesmo internacional! Eu tenho certeza de que sairá dessa da melhor maneira possível, estaremos aqui para ajudá-la.
— Quer dizer que há chances de cura?
— Felizmente, sim. Descobrimos o problema precocemente, algumas sessões de quimioterapia deverão ser suficientes.
— Quimioterapia? — a loura entrou em pranto —. Meus cabelos vão cair? Eu vou ficar pálida? Fraca? — ela já pensava nas consequências que aquilo poderia gerar à sua carreira.
— Muito provavelmente, porém são efeitos de pouca duração, logo ficará melhor.
— E o meu trabalho? Como fica tudo aquilo que conquistei?
— Você precisará dar uma pausa, mas acredito que em pouco tempo estará apta a retomá-lo.
— Não é bem assim que funciona, faz idéia da competição que existe? Faz idéia do tanto de pessoas que tentam me derrubar?
— Você precisa se cuidar se quiser continuar viva.
Aquilo foi um choque de realidade na vida da jovem modelo que precisaria abrir mão de algumas coisas a fim de sobreviver.
Logo que saiu do consultório Jéssica foi até a Morgan Modas. Ao entrar na cobiçada empresa a garota teve a sensação de que sua história naquele lugar já tinha um ponto final decretado.
— Por favor, minha fonte de riqueza, sente-se. Sobre o que vamos conversar? Ideias para o próximo desfile? — Verônica recebeu a jovem.
— Lamento, mas não trago boas notícias — o semblante de Jéssica denunciava que algo dentro dela a machucava.
— Percebe-se... É aumento? Fique tranquila, hoje mesmo resolvo esse assunto, só não quero vê-la tão cabisbaixa.
— Também não é isso, estou muito contente com os benefícios que ganho desse lugar. É algo mais sério.
— Pois então diga, confie em mim, com certeza irei ajudá-la se for possível.
— Eu vou precisar me afastar dos trabalhos — espontaneamente uma lágrima brotou nos olhos da garota.
Surpresa, Verônica fez sua pergunta:
— Mas por quê? Algum problema familiar?
— Eu estou com... — a palavra parecia não querer sair —. Eu estou com leucemia.
Susto define o que a estilista mais conceituada do país sentiu naquele momento. Aquela era sua melhor modelo,  a que mais atraia patrocinadores e que se acontecesse algo de errado em seu desempenho seria também a responsável pelo afastamento dos mesmos.
Sem dizer palavra alguma a respeitada senhora Morgan se levantou de sua cadeira e foi até a enorme janela de vidro que tinha em seu escritório e dava uma bela vista da cidade de São Paulo. Ela sabia que o problema poderia ser solucionado dentro de pouco tempo, mas também sabia que o tratamento poderia ser longo. Ainda de costas para a sua funcionária Verônica perguntou:
— Terá que fazer quimioterapia?
— Sim — a garota tinha a voz embargada.
— Jéssica, espero que me entenda no que vou dizer — a mulher se voltou à modelo —. Sabemos que esse tipo de coisa transforma a aparência das pessoas e no seu caso, que trabalha com a própria imagem, as consequências podem ser graves. Você sabe o tamanho do prestígio que temos no mercado, tudo o que oferecemos deve estar impecável e não podemos atrasar nossos produtos, não podemos esperar pela sua recuperação.
— Eu entendo — a jovem abaixou a cabeça —. Será que minha vaga poderia ao menos ser assegurada pelos próximos meses?
— Existem muitas outras garotas talentosas esperando por apenas uma oportunidade. Acha justo?
Aquilo era um “não” dado de uma forma diferente, Jéssica entendeu.
— Só me resta agradecer por tudo o que me ofereceu.
— Apenas fizemos o nosso trabalho. Tenho certeza de que todo o seu sucesso ainda a sustentará por um bom tempo, então se cuide e quem sabe um dia voltemos a conversar?
— Espero que sim.
Sentindo-se desolada Jéssica pegou o seu carro e resolveu ir para casa na esperança de encontrar conforto. Aos dezoito anos a jovem se casara com Eduardo, um talentoso jogador de futebol, ela o amava incondicionalmente e via nele seu porto seguro.
Chegando em casa visivelmente abatida a modelo se jogou aos braços do marido e deixou que as lágrimas caíssem com maior intensidade em meio as palavras:
— Já não trabalho mais na Morgan Modas.
Eduardo questionou surpreso:
— O que houve? Sempre foi o seu sonho trabalhar com Verônica Morgan e até onde eu sei vinham tendo um ótimo relacionamento nos últimos meses.
— Relacionamento de negócios, não de afinidades. Na hora do aperto vemos o que realmente significamos para os outros...
— O que quer dizer?
— Eduardo, preciso lhe contar uma coisa séria, mas antes me prometa que estará ao meu lado, não posso continuar sem você.
— Desde que nos casamos já lhe fiz essa promessa, pode confiar em mim, ou melhor, naquilo que me une a você.
— Eu estou com leucemia — ela foi direta, já estava cansada de enrolar.
Aquele homem não sabia o significado da palavra “amor”, apenas da “atração”. Amor é quando não importa o que aconteça duas pessoas lutam para continuarem juntas até o último instante, atração é um laço muito sensível que une os atraídos, mas o simples abalo é capaz de rompê-lo.
— Você está doente? — ele se afastou da mulher, visivelmente surpreso —. Sabe disso desde quando?
— Descobri hoje — ela percebeu o espanto —. Por que se assustou tanto?
— Entre os meus amigos você era muito desejada, sua beleza fascinava a todos nós. Casei-me com você por ser uma garota perfeita, ajudar-me-ia a causar inveja, mas essa doença vai lhe transformar — ele não controlava as palavras e muito menos as feições, que as comprovavam —. Sabia que vai ficar feia? — aquilo já era demais.
— Eu não posso acreditar no que me disse, você me usou? — Jéssica sentiu seu coração se quebrar, a dor era terrível —. Durante todo esse tempo eu o amei em vão? Vivi mentiras?
— Eu nunca disse que a amava — cada palavra dita pelo jogador de futebol era como tiro que perfurava o peito daquela que ouvia.
— Como não? Sempre falou que existi algo em mim que o fascinava, que o mantinha preso e que nunca me abandonaria.
— Enquanto você fosse bonita e saudável.
— Mas eu te amo. Não pode fazer isso — a garota se jogou aos pés do marido, suplicando em meio ao choro, de toda a alma que ele não a desamparasse.
— Amor não existe!
Agindo de forma rude Eduardo se afastou da modelo e começou a arrumar suas coisas. Enquanto preparava algumas malas foi agarrado por Jéssica, que tentava impedi-lo de continuar. Irritado, o homem jogou a jovem ao chão e disse as que seriam suas últimas palavras antes da partida:
— Feia? Para mim não dá... Amor? Coisa fantasiosa!
Vendo o seu amor partir a garota sentia uma dor que corroía o seu interior, algo nunca sentido antes, algo chamado de decepção, a pior dor que a alma pode sentir.
Não achando sentido para continuar a sua vida Jéssica se viu em um dos viadutos da capital paulista, pronta para se jogar e, assim, ceifar a própria existência.

— Acha que deixar que pisem em você é justo? Acha que se deixando vencer pelas adversidades mostrará ser forte? — uma voz soprou em seu ouvido como se estivesse muito próxima, era uma voz tranquila, suave —. Dê a volta por cima, mostre a quem não quis ajudá-la o que tem dentro de você, que é uma força descomunal, um sucesso incrível. Faça valer a pena viver...

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No próximo capítulo:

— Nossa empresa entrará no Brasil em poucos dias, farei com que sejamos ainda mais reconhecidos.
— Está certa disso, minha querida? — com sua fraca voz Mary indagou.
— Claro que sim, afinal de contas esse era o maior sonho do papai e seu.
— Não é por vingança? — ela sabia dos verdadeiros motivos da filha.
Respirando fundo e com os olhos encharcados a estilista respondeu:
— Isso será uma consequência.

De segunda à sexta, às 19h30!

Comentários

  1. Gente, que situação, mas é realmente na hora da necessidade que vemos com quem podemos contar!

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