[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 06



Brincando com Fogo


“Brincar com fogo não é tão perigoso assim, afinal de contas ele apenas queima dos desavisados”.

Sem alarmar a imprensa Renata, junto de Jéssica, desembarcou em Fortaleza. Depois de vinte anos finalmente a renomada estilista poderia cumprir a promessa que havia feito ao homem que a ajudara no passado,
Ansiosa ela andava pela orla da praia que havia marcado o início de sua nova vida, de sua nova história. Passando por diversos quiosques perguntava por Raul, mas nunca o encontrava. Logo a mulher avistou um quiosque especial, o que ela passara um tempo, o que lhe deu passagem para o sucesso.
Ao entrar no local um cheiro nostálgico tocou suas narinas, a saudade pelos pais biológicos apertou em seu peito, a falta que o seu amigo lhe causava a incomodava. Atrás do balcão um garoto moreno a observava, atento.
— Como vai? — Renata perguntou.
— Bem — o olhar do jovem escondia alguma tristeza —. O que vai querer?
— Apenas conversar.
— Pelo seu sotaque percebo que não é daqui. Precisa de alguma informação?
— Na verdade sim, preciso saber se conhece uma pessoa.
— E quem seria?
— O Raul, era dono daqui. Ele ainda se encontra?
O garoto abaixou sua cabeça e, antes de responder, deu um suspiro.
— O meu pai está desaparecido.
A estilista sentiu o seu coração quebrantar-se. Durante todos aqueles anos não teve um dia se quer que ela não se lembrasse daquele homem e sonhasse com o dia em que se encontrariam. Saber do que havia acontecido era como uma tempestade que ofuscava suas esperanças.
— Como isso aconteceu? — a mulher tinha os olhos lacrimejantes.
— Eu era pequeno ainda, alguns homens apareceram aqui invadindo o quiosque e a nossa casa. Deixaram o meu pai na mira da arma e o mandaram se render. Antes de levarem-no deixaram um bilhete para alguém desconhecido, um alguém que poderá trazê-lo de volta. Aquela foi a pior noite da minha vida.
— Eu poderia ler o bilhete?
Um pouco receoso o garoto permitiu, estranhando o modo emotivo de Renata.




 Eu te conheço e sei que se apega às pessoas ao ponto de fazer qualquer coisa por elas. Pensaram que iriam fugir tão facilmente sem que eu descobrisse? Sou Verônica Morgan, a onipresente! Se você realmente gosta dessa inútil virá atrás de mim a fim de salvá-lo, espero que não seja tarde demais... Mas tenha cuidado, estará brincando com fogo!


A mulher sentiu a culpa em seu peito: se ela tivesse voltando antes talvez aquilo não acontecesse, ela deveria ter cumprido a promessa enquanto tinha tempo.
— Você sabe de alguma coisa? — o garoto questionou —. Sabe onde posso encontrar o meu pai?
— Na verdade, sim — as lágrimas caíram —. Sou eu a pessoa que pode ajudá-lo, sou a culpada por tudo isso.
— Isso é verdade? — ele tomou o bilhete das mãos da estilista —. Faz idéia da dor que me causou?
— Claro que faço. Se eu pudesse fazer alguma coisa para mudar isso já teria feito... Preciso da sua ajuda, preciso que venha comigo para São Paulo.
— A culpada pela separação mais dolorosa da minha vida vem me pedir ajuda? Não preciso de você, agora que tenho uma pista de onde ele pode estar irei sozinho.
— Não é tão fácil quanto parece, é perigoso! Até a noite estarei nesse hotel — Renata lhe entregou um cartão —, caso mude de idéia me procure, amanhã estarei de partida. Juntos podemos trazer o seu pai de volta.

*

Durante todo o dia Renata esteve pensativa, imaginando o que possivelmente havia acontecido com Raul, um homem que sofreu com as injustiças da vida, mas teve a chance de se redimir. Talvez aquele homem já nem estivesse mais vivo, talvez ela tivesse voltado tarde demais, mas fato é que ela faria o que fosse possível para ter as respostas queridas.
A noite caiu e um momento tão aguardado chegou. Usando algumas de suas redes sociais a estilista Button fez uma transmissão aos brasileiros, oficializando sua chegada:
— Em primeiro lugar quero que saibam que é uma honra ter uma de nossas empresas aqui, minha equipe e eu faremos o possível para impressioná-los, para mostrarmos o que nunca foi visto. No próximo dia três teremos a inauguração da sede brasileira em São Paulo, mostraremos alguns de nossos modelos, por enquanto femininos, e em breve as distribuições começarão pelas lojas conveniadas. Preparem-se, irão se surpreender! Eu sou Renata Button e você um cliente especial.
— Arrasou — Jéssica parabenizou a amiga —. Quando a Verônica vir isso vai surtar.
— Essa é a intenção. Em uma guerra você precisa invadir a mente do inimigo, assim ele não consegue pensar em estratégias.
De repente a porta do quarto onde as mulheres estavam hospedadas foi tocada. Certa de quem seria Renata mesmo atendeu.
— Sabia que viria — recebeu a visita sorridente.
— Posso conversar? — o garoto da praia tinha consigo uma mala.
— E então? Pronto para encontrar o seu pai?
— Como se conheceram? Quem fez isso com ele? Por que tem haver com você? — eram muitas as perguntas.
— Antes preciso saber o seu nome e a sua idade.
— Meu nome é Pedro e já tenho dezenove, desde os oito vivo sem o meu pai e preciso saber quem o tirou de mim.
— Bom... Seu pai foi um herói na minha vida, que me salvou das garras de Verônica Morgan, uma mulher calculista, responsável pelo sumiço de Raul. Ela queria me matar, então o seu pai fugiu comigo para cá. Nunca poderíamos imaginar que ela descobriria alguma coisa, mas o inimaginável às vezes acontece.
— Você acredita que ele esteja vivo?
— Quero acreditar nisso, ele é muito importante para mim... E quanto a você? Tem certeza de que quer fazer isso? A brincadeira será com fogo.
— O fogo apenas queima os desavisados. É claro que vou com você — a vontade de abraçar aquele que tanto amava era maior que o medo da guerra.

*

Deitada em sua cama Verônica assistiu ao que Renata havia falado. Com seu olhar gélido e voz fria a mulher observava a concorrente com atenção, tinha uma vaga sensação de conhecer aquela mulher, mas sua mente não a levava a conclusão alguma.
— Pobre jovem, esqueceu-se de que sou mais velha e capaz de muitas coisas. O que não me conformo é esse nome ridículo continuar me infernizando! Mais uma Renata que farei evaporar.
Certificando-se de que seu filho já estava dormindo a experiente estilista desceu até o porão do casarão, um lugar que somente ela tinha acesso. Abrindo a porta a partir de um código ela entrou no lugar frio e escuro, cheio de bagunças. Acendendo a luz fez com que um homem gritasse, a luz agredira os olhos daquele que vivia na escuridão.
— Raul, ainda vivo? Pensei que deixaria de comer e beber a fim de morrer.
— Por que não acaba logo com isso? — ela tinha as mãos e os pés presos por correntes.
— Vê-lo viver como um cachorro é gratificante. Até hoje tento entender o porquê da traição, sabe que eu pagaria o suficiente para tirá-lo daquela miséria caso exterminasse a garota. Mas você preferiu se juntar a ela e veja só no que deu: acabou em minhas mãos e continuará assim por muito tempo.
— Estou há anos aqui e nada aconteceu. Nada vai acontecer. Se a sua vontade é me ver morto realize-se.

— Já viu um pescador? Ele coloca a isca no anzol e espera um tempo até que venha o peixe. Ele não se desespera, porque sabe que pode afastá-lo. Raul, você é a minha isca!

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No próximo capítulo:

Letícia não via isso, não conseguia ver isso. Desde o dia em que vira Jonas pela primeira vez se apaixonou perdidamente e sempre deixou claro que o seu amor era sincero. Desolada, angustiada, sentindo uma dor que crescia em seu peito a cada minuto por não conseguir entender aquilo, a modelo estava prestes a tomar uma atitude desesperada: tiraria sua própria vida com uma afiada faca.

De segunda à sexta, às 19h30!

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