[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 07



À procura de um Amor


“Segundo o dicionário ‘amor’ é definido como afeição acentuada de uma pessoa por outra, definição muito simplória. ‘Amor’, como diriam os poetas, é o caos que se arruma em sua frágil arquitetura”.

Renata já estava a dois dias na capital paulista. Depois de muitos anos ela voltara à cidade que havia marcado o começo da sua dor.
Muitas coisas que foram escritas no passado causam dores e medos no presente de alguém, seu coração se fecha, seus sentimentos humanos parecem esfriar pouco a pouco. Decepções, desilusões, injustiças, coisas que transformam qualquer um, coisas que transformaram Renata.
A dona da Button Modas com os seus já vinte e oito anos nunca havia se permitido ao amor, não acreditava nessa palavra, possuía medo de se machucar. Mas tal decisão sempre causou um vazio em seu coração, a dor da vida ainda mais difícil de se enfrentar sozinha, mas para ela era melhor assim.
Como sempre gostara de fazer a estilista procurou algum parque em São Paulo onde pudesse assistir ao pôr-do-sol sem que ninguém a incomodasse, era um momento só dela, um momento de paz. Muito observadora a mulher analisava cada pessoa que ali estava: encontrou jovens amigos irradiando a alegria de estarem juntos, viu famílias apreciando ao espetáculo que só a natureza proporciona e notou a presença de casais apaixonados que se olhavam maravilhados, como se fosse a melhor coisa que viam. Voltando em si Renata sentiu a falta de ter alguém ao seu lado, alguém para amá-la da maneira como desejava.

*

Focado em assuntos da empresa, Jonas analisava em seu escritório diversas formas de combater a concorrência. Embora contrariado o filho de Verônica já se preparava para o combate, sabia que ele iria começar cedo ou tarde.
Sem ao menos bater na porta Letícia entrou na sala do namorado, tagarelando incansavelmente.
— Será que elas não veem que eu sou a melhor modelo? Será que não percebem o meu envolvimento com Verônica? Podem puxar o meu tapete o quanto quiserem, mas o farão em vão. Nunca vou cair! Mal posso esperar pelo nosso casamento, quero calar a boca da inveja — incomodando-se com o silêncio de Jonas a modelo bateu na mesa do rapaz chamando sua atenção —. Vamos nos casar, lembra-se? A maior parte do seu tempo deve ser dada a mim... Aposto que não ouviu sequer uma palavra do que falei.
O jovem consultor se manteve calado por alguns instantes, seus pensamentos o perturbavam. Ele estava próximo de dar um importante passo em sua vida, um passo que não poderia ser dado em falso como muitos precipitados fazem. O rapaz casar-se-ia com aquela garota, mas não a amava.
— Confesso que está certa, não ouvi. Não posso mais enganá-la, estou enganando a mim mesmo com isso. Letícia, lamento, mas não podemos mais continuar com essa história. Não a amo da forma como queira, não vamos mais nos casar.
— Está terminando comigo? — a jovem desacreditou-se no que ouvira —. Depois de tanto tempo me diz um absurdo desses? É de um tempo que precisa? Dou o quanto quiser — a modelo se jogou nos braços daquele que, verdadeiramente, amava —. Você não pode me abandonar.
— Não somos mais adolescentes para vivermos ilusões — Jonas a afastou cautelosamente, não queria transformar o que deveria ser um tranquilo diálogo em uma grande discussão —. Você não merece ter a mim ao seu lado, não serei capaz de amá-la o suficiente. É melhor assim, não quero que se machuque futuramente por minha causa. A decisão já está tomada.
Poupando palavras Letícia saiu dali, segurando as lágrimas que tentavam ferozmente saltarem de seus olhos.

Perder algo que tanto se amou é mesmo um desafio a ser vencido. Culpamo-nos a todo instante, queremos saber onde é que erramos, ao passo que aquilo que perdemos foi embora por vontade própria. Usando nosso lado egoísta não entendemos o porquê de tal atitude, mas às vezes ela é necessária para que fiquemos bem, às vezes perdemos para que possamos ganhar.
Letícia não via isso, não conseguia ver isso. Desde o dia em que vira Jonas pela primeira vez se apaixonou perdidamente e sempre deixou claro que o seu amor era sincero. Desolada, angustiada, sentindo uma dor que crescia em seu peito a cada minuto por não conseguir entender aquilo, a modelo estava prestes a tomar uma atitude desesperada: tiraria sua própria vida com uma afiada faca.
— Enlouqueceu? — Verônica a encontrou em sua sala justo na hora do ato —. O que pensa que está fazendo? — a estilista logo tirou o objeto fatal das mãos entristecidas.
— Já não tenho razão para viver — as palavras saíram enfrentando as lágrimas —. Aquilo que mais amei simplesmente dispensou-me, jogou fora todos os nossos sonhos e anseios.
— Não me diga que...
— Seu filho terminou tudo, não quer mais nada comigo...
— Acha mesmo que é chorando ou se matando que mudará as coisas?! Que espécie de amor é o seu que nem ao menos luta para mantê-lo? Levante-se agora mesmo e venha comigo!

Seus problemas poderiam ter acabado, mas estavam apenas começando. Jonas se viu perante a mãe e Letícia, cercado de indagações.
— Acha certo dispensar o amor verdadeiro que uma garota sente por você? Acha certo jogar fora os últimos anos que passaram juntos? Acha certo iludir alguém?
— Estaria iludindo se continuasse a dizer que a amo! Durante esses anos vivemos uma mentira, aceitei namorar com ela para que não me perturbasse mais, já que todas as minhas namoradas não lhe serviam. Porém cresci, sei que a vida é feita de escolhas e um erro pode ser fatal para um futuro inteiro. Ela merece alguém que a ame de uma forma que eu nunca amarei.
— O que ela tem que eu não tenho? — Letícia pensou que existisse outra pessoa na história.
— Você é única, todos somos únicos, não existe essa filosofia do que um tem que o outro não tenha. Por favor, siga a sua vida, assim como seguirei a minha.
— Então é essa a sua decisão? — Verônica perguntou pela última vez.
— Sim — o rapaz foi firme ao responder, sempre possuiu certeza em suas escolhas.
— O arrependimento poderá lhe custar caro. Tão caro quanto perder uma vida. Temo que seja tarde demais quando os seus olhos se abrirem, essa garota que o amou incondicionalmente poderá não estar disponível mais.

A partir de escolhas surgem dúvidas vagueando por nossas mentes. Fizemos a coisa certa? Não estamos equivocados? Agimos precipitadamente? Um tempo a mais para decidir não seria o ideal? Dúvidas que colocam o nosso coração em cima do muro. Normalmente as respostas vêm de nós mesmos, felizes são aqueles que sabem se ouvir.
Jonas precisava de respostas, talvez a melhor forma de consegui-las fosse consultando a natureza, a que Deus deixou para confortar os homens. Saindo mais cedo do expediente o rapaz foi até um dos parques de São Paulo, procuraria no pôr-do-sol as respostas que procurava, certo de que as encontraria.
Os bancos estavam cheios, mas um em especial tinha a presença de apenas uma mulher. Ela era aparentemente alta, sua pele clara contrastava com os cabelos castanho-escuros, cortados até o ombro. Nunca o jovem consultor havia reparado tanto em alguém.
— Seria incômodo eu me sentar aqui? — ao fazer sua pergunta ele encontrou os olhos castanhos daquela mulher, seu coração pulsou mais forte, seu sangue fluiu mais energicamente pelas veias.
— Claro que não.

*

O sol aos poucos se escondia, maravilhando Renata cada vez mais que, repentinamente, se viu tirada de seu encanto com uma doce voz que lhe perguntou:
— Seria incômodo eu me sentar aqui? — ao erguer os seus olhos ela viu um rapaz alto, loiro, que tinha olhos verdes, olhos que a encantaram tanto quanto o pôr-do-sol e que fizeram seu coração pulsar de uma forma diferente, uma forma nunca sentida antes.
— Claro que não — sua resposta foi espontânea.


Continua...

~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

Mãos suavam, pernas tremiam, o coração ardia, a mente imaginava finais felizes, a voz precisava enfrentar alguns obstáculos para soar e sua alma clamava dentro de si por um pouco de afeto, um pouco de carinho, um pouco de amor. Renata nunca se permitiu a tal sentimento, pelo menos não daquela forma como estava prestes a se entregar, o motivo era o medo: o medo da dor.

De segunda à sexta, às 19h30!

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