[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 09



Revelação


“Segredos não são tão bons. Alguns são capazes de causarem sustos, decepções ou até mesmo o fim de grandes histórias.”

Raul não era como os homens perversos que praticavam a maldade a fim de satisfazerem seu próprio egoísmo, precisou firmar uma aliança com Verônica por amor a própria vida. Porém, na atual situação em que se encontrava, o homem começava a concluir que a morte poderia ter sido sua melhor opção.
A dona da Morgan Modas guardava um segredo impensável, um segredo que apenas Raul sabia, um segredo ameaçado por Renata. Segredo esse que, conforme temia o prisioneiro, poderia mudar os rumos de tudo, os rumos do mundo.
Tratado como bicho Raul era alimentado somente ao anoitecer, a humilhação era tanta que ele precisava ajoelhar-se ao chão e comer como um cachorro, tudo por causa da escolha certa: ajudar quem precisou.
Dentre tanto sofrimento o que mais lhe machucava era a lembrança do passado: a forma como sua família havia sido aniquilada por Verônica, o motivo era poder, era domínio. Raul, ao estar prestes a acompanhar o nascimento do seu primeiro filho, assistiu a morte daquela que tanto amava. Nada poderia ser feito. Ninguém poderia saber, ou ele morreria.
Preso naquela cadeira há anos o homem continuava com o seu passatempo: a conversa com o além.
— Nome poderoso, nome de prestígio, nome reconhecido. Nome que poderia salvar a tanta gente, mas que despertou a perversidade em um coração tão potente. Poderá esse nome salvar a mim? Poderá esse nome salvar a todos nós? Morgan, o nome do bem corrompido, o nome da destruição!

*

Renata não queria que a vissem como uma mulher fácil, desesperada por algum companheiro, então esperou ao menos dois dias para entrar e contato com aquele que transformou o seu interior.
— Quem é? — Jonas atendeu ao número desconhecido.
— Renata... Ainda lembra de mim?
— Poderia ter me esquecido?
— Vejo que não — se o rapaz visse o sorriso da moça iria derreter-se ainda mais —. Aceita jantar comigo?
— Mas é claro. Aonde vamos?
— Não conheço essa cidade, sei que posso confiar em você.
— Garanto que não irá se decepcionar. Envie-me seu endereço, faço questão de levá-la.
Até então a dona da Button Modas não havia adicionado o número do consultor, mas ao ver a foto de perfil no WhatsApp não conteve o sorriso, achava-o cada vez mais atraente.
— Posso saber o motivo de tanto brilho? — Jéssica a surpreendeu.
— Não sei do que está falando — Renata fez-se de desentendida.
— Garanto que tem uma pessoa no meio. Não precisa se envergonhar, amar não pode ser motivo de vergonha.
— Acho que está certa, tem sim uma pessoa — a mulher se entregou com a timidez nos olhos —. Só não sei se estou agindo da maneira certa.
— Mas é claro que está — a modelo ajudou Renata a ajustar seu vestido —. Pelo que me contou a vida já foi muito dura com você, talvez agora esteja disposta a recompensá-la por tudo. Permita-se à paixão, com cautela, claro, descubra até onde esse amor pode ir.
— Amor? Talvez seja cedo para usar essa palavra...
— Não é o que seus olhos dizem, siga o seu coração. Boa sorte, estarei torcendo por você.

A campainha tocou fazendo a ansiedade da mulher aumentar ainda mais. Abrindo a porta seus olhos se encantaram pelo rapaz que vestia algo mais social, sem deixar a descontração de lado.
— Podemos ir? — Jonas estendeu sua mão.
— Agora mesmo — Renata não via, mas seus olhos irradiavam.
O casal adentrou o elevador já que a moça morava no último andar do prédio. A fim de quebrar o silêncio da tensão o rapaz arriscou um elogio:
— Se produziu tanto apenas para jantar comigo?
— Sabe como é, uma estilista precisa sempre se produzir independente da ocasião — os olhos da mulher encaravam os do homem —, mas confesso que pensei em você — seu sorriso era acanhado.
Se não fosse a porta abrir o casal daria seu primeiro beijo, oficializaria assim a união que seus corações já conheciam a existência.
Atenta a cada detalhe a jovem estilista se maravilhou quando Jonas lhe abriu a porta do carro, a cada gesto como aquele seu encantamento aumentava.
— Posso dizer uma coisa? — o rapaz perguntou antes de dar a partida.
— Pode dizer o que quiser.
— Sua companhia não é como as outras, é especial. Por que não nos conhecemos antes?
— Ironias do destino, o mesmo que afasta e aproxima. Também gosto da sua presença, mas não entendo o porquê. Como você disse certas coisas não foram feitas para a compreensão, mas simplesmente para serem vivenciadas.

Para ambos o jantar era o melhor de suas vidas, afinal o amor também tempera, mas é um tempero da alma, que passa a sensação de tudo estar maravilhoso.
— Pensei que não me ligaria, já perdia as esperanças de um encontro tão ímpar quanto esse — Jonas disse em meio aos goles do vinho.
— Sou das antigas, gosto de fazer um charminho — Renata deu uma piscadela.
— Acho que já perdemos tempo demais e eu preciso abrir o meu coração a você, dizer o que sinto de verdade.
Apreensiva a estilista questionou:
— E o que seria?
— Antes devo ser sincero e não lhe esconder nada.
— Não gosto de suspenses...
— Se vamos mesmo nos falar você tem que saber que profissionalmente seremos concorrentes, mas não vejo que seja um empecilho na nossa vida pessoal.
— O que quer dizer?
Ficando alguns segundos em silêncio o rapaz respondeu:
— Trabalho na Morgan Modas... Na verdade eu sou filho de Verônica.
Renata estava mesmo achando que tudo era fácil demais para ser verdade, aquela revelação endureceu o seu coração, ela não poderia se entregar aquele homem.
— Preciso ir ao banheiro — a estilista levantou-se rispidamente.
— Eu quero que seja minha namorada, encontrei nos seus olhos o que há muito procuro, encontrei a minha metade — Jonas também se levantou segurando firme a mão da mulher —. Não fuja de mim, não por isso, eu sei que preciso de você.
Surpresa com aquelas palavras a estilista respondeu confusa:
— Eu prometo que volto, mas preciso ir ao banheiro.
Não podia ser verdade. Ele não podia ser o filho da sua inimiga, da causadora de sua dor. Renata não queria acreditar que ele era o Jonas que ela conhecera há anos, o bebê que ela cuidou enquanto seus pais eram assassinados.

— Jéssica, foi tudo ilusão, isso não pode dar certo — a mulher ligou à amiga precisando de conselhos —. Ele é filho da Verônica, como poderei amá-lo sabendo que quero o mal de sua própria mãe?
— Talvez seja a hora de repensar as escolhas. Não é justo você se privar de uma linda história por causa das sombras do passado. O aceite, corra atrás do que lhe faz feliz, deixe o resto para depois — aquelas palavras foram certeiras, saídas de uma amiga sincera.
Ainda confusa Renata deixou o banheiro, a cada passo aproximava-se mais de Jonas e enxergava nos olhos daquele homem o que sua alma ansiava.
— Podemos ir embora? — ela pediu.
— Como quiser — o rapaz se desesperançou.
Já pronta para descer do carro a estilista não conteve mais seus desejos e selou os seus lábios com os do consultor em um beijo doce, suave, tranquilo, que fez os corações balançarem, o desejo por mais nascer. Aquela era a sua resposta diante da incógnita que existia na mente de Jonas: aceitaria seu pedido de namoro?

*

Uma casa abandonada no meio do mato tem tudo para repelir pessoas de altas posições sociais, mas era o que atraía Verônica para as suas reuniões particulares com Egídio, seu braço-direito nos crimes que planejava.
— Alguma novidade? Encontraram minha sobrinha?
— Infelizmente não. Talvez as buscas sejam desnecessárias, ela pode nem estar viva.
— Discordo, eu sinto a sua presença desprezível nesse mundo.
— Se pode senti-la por que não a encontra?
— Não consigo, pelo menos não sem ajuda.
— Até hoje não entendo sua obsessão em tê-la nas mãos. Sua sobrinha não pode mais ser uma ameaça, com certeza as ruas a destruíram. Se continua viva não está em seu juízo perfeito.
— De qualquer forma eu preciso eliminá-la, é a que resta.
— A que resta? Ao quê?

— Eu devo ser a única, a excepcional, a admirada e respeitada. Eu preciso ser a única Morgan!

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No próximo capítulo:

— Caladinha ou arrebento os seus rins — um criminoso prensou o revólver, escondido por baixo da camisa, contra a cintura de Jéssica —. Sem fazer gracinha entre no carro, ou disparo.
Nunca em toda a sua vida a modelo se viu naquela situação, nem mesmo quando sua fama era ainda maior. Receosa em perder a vida a mulher obedeceu ao mandato, sua mente aflita tentava imaginar o que poderia acontecer.

De segunda à sexta, às 19h30!

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