[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 14



Desespero


“O desespero é uma dor da alma, que não se cura com remédios, mas com o desabafo, com a confissão”.

Jogado ao chão o homem deixou que as tão aprisionadas lágrimas fossem libertas e corressem pelo seu rosto, saber que o filho pelo qual chorou a morte estava vivo causava uma enorme dor naquele injustiçado, dor de desespero.
— Ninguém pode dizer que sou completamente má, também proporciono momentos de alegria às pessoas — com um sorriso doentio Verônica levantou-se, olhando com desprezo para o seu prisioneiro —. Morrerá feliz, estou certa?
— Não consigo entender como consegue ser tão desprezível... Faz idéia da dor que sente por todos esses anos?! — ainda com dificuldade na fala Raul indagou.
— O que podemos esperar de uma mulher que matou a família toda? — tal revelação assustou ainda mais Letícia, que ainda ouvida toda a conversa —. A propósito, Jonas está muito bem, um belo homem, bem resolvido na vida. Tudo isso graças a mim, que ao invés de matá-lo resolvi amá-lo...
— Tenho certeza de que nem mesmo isso foi capaz de compensá-la pelas frustrações — o homem riu irônico —. Nunca conseguiria o que tanto almejava.
— Será mesmo? — a estilista levantou Raul puxando seus cabelos —. Talvez eu precisasse me esforçar um pouco mais, porém a facilidade do crime me fascinou. Ao menos uma coisa eu consegui — a mulher deu um forte tapa no rosto do seu cativo —, arruinei a sua história!
Perdendo a coragem em permanecer tão próxima  a alguém tão cruel, Letícia saiu o mais depressa que pôde dali, guardando segredos que a deixavam desesperada. Seu coração se dividia entre contar o que soube e colocar em risco a sua carreira ou até mesmo sua vida, ou não contar e contribuir para que a maldade daquela mulher machucasse muitas pessoas ainda.

*

Logo ao amanhecer Jonas se dirigiu ao hospital no qual sua amada estava, ansioso por receber boas notícias. Como dizia ser o namorado da paciente sua entrada no quarto da mesma foi permitida e ali ele encontrou também Jéssica.
— Ainda desacordada? — o rapaz indagou desconsolado.
— Infelizmente sim — a modelo respondeu no mesmo tom —. Passei a noite toda ao seu lado sem  receber nem um sinal de melhora.
— Será que ainda ouvirei sua voz? — o peito do homem estava sufocado, a dor não era simplesmente física, penetrava na alma —. Posso alimentar esperanças em ver os seus olhos encararem os meus por muitas vezes ainda?
— Mas é claro que sim... Acredite!
Com o sentimento de culpa que o afligia Jonas pegou  a mão de Renata e, levando-a ao seu peito, libertou as palavras de sua garganta, observando cada detalhe daquele rosto que para ele era angelical, mas sem vida alguma.
— Quero muito que perdoe... Eu deveria estar mais atento, imaginar que a aproximação daquela garota nunca seria com boas intenções... Mas quando é que eu poderia pensar que uma coisa dessas aconteceria? Tudo ia tão bem, eu estava tão feliz em saber que verdadeiramente amava alguém e que essa pessoa também me amava... As únicas coisas que conseguia fantasiar em minha mente era um futuro só nosso, exclusivo para as nossas vidas — beijando a delicada mão o rapaz concluiu com uma súplica: — Volte para mim, não me abandone assim, tão de repente...
Enxugando as lágrimas que escorriam de seu rosto Jéssica declarou o que sentiu:
— Agora tenho certeza de que o que existe entre vocês é verdadeiro... Sorte a sua que gravei esse momento, ela precisa saber quais foram as suas palavras de desespero.
Naquele mesmo momento os olhos da estilista se abriram como em um passe de mágica e seus dedos ganharam movimento. Movido por uma enorme felicidade o jovem consultor enchia o rosto da amada de beijos até que ela afastou-se rispidamente.
— O que está acontecendo? — o olhar de descrença de Renata já denunciava a sua situação —. Por que estou aqui? — olhou ao redor sem nada entender —. Por que está me beijando?
— Amiga! Finalmente! — Jéssica decidiu agir em busca de certezas —. Como se sente?
— Quem é você? Alguém pode me explicar o que aconteceu?
— Renata, sou eu, Jonas — o rapaz fez sua tentativa —. Seu namorado.
— Eu não faço idéia do que está me dizendo — sua memória era vaga, inexistente.
Ao ouvir aquilo Jonas se desesperou ainda mais, Renata não era mais a mesma.

*

Demasiadamente apreensiva Letícia se dirigiu à sala de Verônica na luxuosa Morgan Modas, em sua mente imagens do que viu pela noite passavam como um tenebroso filme.
— Precisa da minha ajuda?
— Sim, preciso — ao encarar com mais atenção sua modelo a mulher notou algo estranho —. Aconteceu alguma coisa? Parece assustada ou... com medo...
— Estou ótima — a garota respondeu simplesmente —. O que deseja?
— Enfim, preciso manter as aparências e farei uma visita à Renata, tome conta do lugar.
— Vai matá-la? — Letícia não conseguira se controlar, as palavras saíram por conta própria.
Surpresa com a pergunta Verônica se levantou de seu assento, pegando sua bolsa aproximou-se da modelo e respondeu com os olhares fixos:
— Não seria uma má idéia...
Rindo maliciosamente a estilista saiu dali deixando a moça ainda mais apreensiva.

Obedecendo ao mandato Letícia supervisionava cada funcionário do local, certificando-se de que tudo corria como a senhora Morgan exigia. Em certo momento a modelo avistou Jonas dirigindo-se ao seu escritório perceptivelmente abalado. Com tantas opressões afligindo seu coração ela decidiu revelar parte do que sabia ao rapaz, por certo apenas assim sua alma seria aliviada.
— Jonas, podemos conversar? — entrou na sala, cautelosa.
— Não me obrigue a ser ignorante e use o bom senso... Por sua causa minha vida está arruinada.
— Eu imploro que me escute, apenas você pode tirar um enorme peso da minha consciência — a modelo se ajoelhou aos pés do rapaz.
Sentindo-se indigno por ter alguém ajoelhado a sua frente o consultor decidiu ouvir aquela mulher.
— Espero que seja breve.
— A verdade é que eu não gosto mais de você... A sua sinceridade me mostrou que o que vínhamos vivendo não passava de ilusões, de mentiras.
— Então por que fez aquilo? Faz idéia da gravidade?
— Eu sei que o preço foi caro, mas eu juro que me arrependi, juro que perdi o sossego.
— Nada disso resolverá os problemas que a sua atitude infantil causou. Só quero entender o porquê,  qual o propósito...
— Sua mãe foi quem ordenou, ou eu a obedecia ou ela arruinaria a minha carreira, não tive escolha — Letícia não sabia se o que estava fazendo era ou não certo, era ou não arriscado, mas fato é que ela precisava desabafar.
— Como posso saber que não está mentindo? — o rapaz possuía desconfianças.
— Quando foi que me humilhei tanto ao ponto de me ajoelhar perante alguém?
— Por que ela ordenou isso? — Jonas acabou convencido.
— Ela me domina, unindo-me a você é o jeito que encontrou para continuar com sua possessão. O que eu fiz foi por medo!
— Deveria ter dito antes, evitaria muita coisa.
— Eu sei... Sei também que se aquela mulher morresse a culpa seria toda minha — a modelo segurou a mão do rapaz —. Não tenho interesse algum por você, talvez apenas amizade, então peço que me perdoe.
Encontrando sinceridade nos olhos da garota o consultor respondeu:
— Tudo bem, apenas me prometa que não se venderá mais, viu que as consequências podem ser graves.
— Ainda assim não é suficiente — ela havia arquitetado um plano para ajudar aquele que um dia amou —. Faço questão de falar com a sua namorada, quero esclarecer tudo e prometo que farei o impossível para lhes ajudar no relacionamento. Conheço-o há tanto tempo, o suficiente para dizer que a sua felicidade é a minha também.
Sentindo-se um pouco mais confortável Jonas colocou um discreto sorriso no rosto, agora precisava acreditar que Renata voltaria ao que era antes.

*

Tietada por muitos de seus fãs Verônica chegou ao hospital para o horário de visitas. Como sempre, a estilista mostrava autoconfiança em seu caminhar, no rosto um semblante tranquilo, sereno, escondendo perfeitamente a sombria alma que seu corpo abrigava.
Ao entrar no quarto de sua concorrente e perceber a presença de Jéssica a mulher tirou de sua lista a criação de mais uma vítima, iria simplesmente enganar a todos se fazendo de boa moça.
— O que faz aqui? — a modelo indagou severa.
— Apenas uma visitinha — Verônica tinha um sorriso perverso —. Ela me parece não ter ninguém por aqui, acho que sou a única visita — ela queria arrancar alguma coisa de Jéssica, descobrir, se possível, se a paciente tinha familiares por perto.
— Ela tem a mim, já é o suficiente.
— Ainda pensando que é sua amiga? — a senhora Morgan riu divertida —. Depois não me diga que não avisei.
Ouvindo vozes Renata despertou do sono e ao encarar quem estava a sua frente disse espontâneamente:
— É você?!
— Como? — a estilista se espantou.
— Ela perdeu a memória — Jéssica se colocou a dianteira da amiga —. Por certo está tendo alucinações.
— É ela! — Renata insistiu.
— Alucinações? — Verônica estranhou, não era ingênua —. Ela me parece bem lúcida — era o momento perfeito para descobrir o que queria —. Já me conhece, querida?
Flashes de lembranças causavam agonia em Renata, quanto mais focava em sua rival mais se recordava do pássaro. Em uma fração de segundo toda a sua memória fora recuperada.


Continua...
~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

— Não tenho motivos para mentir, até porque o que está acontecendo não influencia em nada a minha vida, mas sim a sua... Como somos amigos preciso alertá-lo.
— O que é? Eu queria tanto dormir...
— Sua mãe mantém um prisioneiro no porão dessa casa, o pior é que não se trata de um homem qualquer, é o seu pai!

De segunda à sexta, às 19h30!

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