[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 15



Convencer


“Convencer é simplesmente a pior tarefa que existe. Ela necessita de palavras certeiras, fatos concretos, atitudes persuasivas, porém mesmo assim corre o risco de não estar certa”.

— E, então, já nos conhecemos? — Verônica insistiu em sua pergunta.
— Não está vendo que ela não tem condições para conversar? — Jéssica tentou interferir.
— Nos conhecemos sim — Reata fitou diretamente os olhos da rival —. Você é a senhora Morgan, minha concorrente.
Desapontada com a resposta por achar que aquela mulher fosse sua sobrinha a estilista gesticulou com a cabeça um “tudo bem” inaudível, indo embora sem declarar coisa alguma.
— Graças a Deus sua memória voltou — a modelo comemorou o feito —. Pensei que nunca mais se lembraria de mim.
— Como poderia me esquecer de alguém tão querida? — a mulher sorriu —. E também não me esqueci da enorme decepção que sofri, uma pessoa que eu nunca imaginei que poderia me machucar causou uma enorme dor em meu peito...
— Está falando de Jonas?
— Como sabe? Não me lembro de ter contado...
— Nem daria tempo — a modelo se jogou na confortável poltrona, suspirando pelo pior já ter passado —. Aconteceu tudo tão depressa. Não acho que deva guardar rancor desse rapaz, ele o ama de verdade.
— Se me amasse não teria feito o que fez — a estilista suspirou cansada, retornado sua cabeça ao travesseiro —. Nunca o perdoarei.
— Esteve ao seu lado o máximo que pôde. Hoje, pela manhã, correu um busca de informações suas. Você precisa escutá-lo, dar uma chance para que ele se explique e tente esclarecer o que realmente aconteceu. Não jogue a sua felicidade no lixo, permita-se ao perdão.
— Queria ver se fosse com você...
— Ele não fez o que está pensando.
— Não foi o que eu vi.
— Acordada e ninguém me avisa? — o médico encerrou o diálogo —. Esses pacientes de hoje em dia...

[15 de outubro de 2016]
Desde que acordara Renata precisou ficou mais alguns dias no hospital em observação, quando os médicos se convenceram de que já estava tudo bem permitiram que ela voltasse para casa.
Aquele sábado ensolarado de primavera convidou a estilista a aventurar-se no litoral com a amiga, mas não era isso o que dia reservava. Já pronta para pegar as malas a mulher escutou o tilintar da campainha e se surpreendeu com a visita.
— No hospital pôde barrar a minha entrada, mas aqui não. Nós precisamos conversar — era Jonas que levara consigo Letícia.
Sem dizer palavra alguma a estilista gesticulou para que a dupla entrasse, em seu rosto estava claro o desconforto que sentia.
— Pode ser que ache um desaforo eu vir até sua casa e ainda trazer a garota que beijou, mas é para que tudo se esclareça.
— Sabe que sua tentativa pode ser frustrada, não sabe? — a mulher se mantinha ríspida.
— Ao menos tentei, nunca poderá dizer que desisti de você, apenas desisto quando vejo que não tem mais jeito.
— Então acabe logo com isso, o que quer me dizer?
Percebendo que não seria tão fácil Jonas de um profundo suspiro, passou as mãos na cabeça e deu início ao seu discurso, mesmo vendo o desprezo no semblante da amada ele insistiu na tentativa de convencê-la.
— Sou sincero com as pessoas, ou gosto ou não gosto, ou quero ou não quero. Quando digo que a amo é porque a amo. Não sou mais nenhum moleque indeciso, confuso por tantos sentimentos, já sou um homem certo do que quero, decidido em minhas escolhas — seus olhos insistiam em prender os de Renata —. Uma das minhas decisões é passar o resto dos meus dias ao seu lado, por isso lhe peço perdão por tudo o que houve e que volte para mim... Não imagina a falta que sua ausência já me causa.
— Pensasse nisso antes de sair por aí beijando outra pessoa...
— Ele não quis beijar ninguém — Letícia, que até então se manteve calada, comoveu-se pelas palavras ouvidas e começou sua declaração, não queria ser o motivo da infelicidade de um casal que se amava, queria uni-los —, roubei um beijo seu. Certo é que já fomos namorados, vivemos bons anos juntos, mas nada do que existiu entre nós foi verdadeiro, tudo não passou de ilusão.
— Acha mesmo que vou acreditar nessa historinha? — Renata revirou os olhos. No fundo ela queria acreditar, mas tinha medo, medo de se entregar realmente, medo de viver —. Não percam o tempo de vocês.
— Dá para ser um pouco mais razoável? Será que não percebe o tanto que esse homem a deseja? Só a maneira como ele a olha diz o que todos sabemos e eu sei que tudo o que você mais quer agora são os beijos dele — Jéssica foi enérgica em seu tom de voz, precisava fazer a amiga acordar, mas além disso a fez corar, ela desejava mesmo pelos beijos tão amáveis, inesquecíveis —. Letícia, explique de uma vez o porquê daquele beijo.
— Verônica tem uma enorme possessão por Jonas, sente muito ciúme — a modelo da Morgan Modas prosseguiu —. Desde que trabalho com ela fui tornando-me cada vez mais dependente de si, acato todas as suas ordens para manter minha carreira ao seu lado... Ela me possui... Sendo assim, seu maior desejo é me ver casada com o filho, na sua cabeça apenas assim ela não perderá o que tanto ama. Sabendo da sua visita à Morgan Modas ela me obrigou a beijar o seu namorado na intenção de terminar com o namoro — prestando atenção em tudo a estilista Button dava créditos ao que ouvia, conhecia Verônica, sabia de suas capacidades atrozes —. Foi um beijo sem sentimento algum, a não ser o de querer o mal a alguém. Quando a vi sair correndo e soube da tragédia um enorme peso caiu em minha consciência, foi o pior erro que cometi em toda a minha vida, desde aquele momento o meu maior desejo era vir esclarecer tudo pessoalmente, a história que existe entre vocês não pode acabar, não desse jeito, ela é verdadeira!
— Eu não sei se acredito... — uma confusão tomou a mente da mulher —. Eu vi aquele beijo...
— Um beijo falso, sem um pingo de vontade, de desejo — Jonas já sentia seu coração se desesperar —. A única mulher pela qual agora sinto a necessidade em demonstrar minha paixão é você!
Renata não sabia o que dizer e nem o que fazer. Procurando em seus pensamentos a decisão certa a tomar se sentou no sofá da sala do apartamento, apoiando o rosto nas mãos.
— Amiga, ouça isso — Jéssica entregou o celular à estilista —. Gravei a declaração sem que ele soubesse, pode acreditar em mim, ela é cheia de sinceridade.
“— Quero muito que perdoe... Eu deveria estar mais atento, imaginar que a aproximação daquela garota nunca seria com boas intenções... Mas quando é que eu poderia pensar que uma coisa dessas aconteceria? Tudo ia tão bem, eu estava tão feliz em saber que verdadeiramente amava alguém e que essa pessoa também me amava... As únicas coisas que conseguia fantasiar em minha mente era um futuro só nosso, exclusivo para as nossas vidas — beijando a delicada mão o rapaz concluiu com uma súplica: — Volte para mim, não me abandone assim, tão de repente...”
Escutar tudo aquilo mexeu com a mulher que aproximou-se daquele que tanto amava, tanto desejava e selou os lábios em um beijo há muito esperado.

*

A cada segundo que passava Letícia sentia-se cada vez mais tensa por ainda guardar um segredo tão sombrio: o homem que era mantido cativo por Verônica. A única solução para que todo aquele pavor acabasse era contando a alguém.
No meio da madrugada a modelo se cansou de tentar inutilmente dormir e foi até o quarto de Jonas decidida a revelar aquilo que sabia.
— O que faz aqui? — o rapaz se assustou ao ser acordado —. Já poderia ir embora, sabe que as coisas se resolveram...
— Pensei que ao menos seríamos amigos... — ela se ofendeu.
— Tudo bem, peguei pesado... Mas o que você quer a essa hora?
— Preciso desabafar sobre a sua mãe, ela não é essa mulher maravilhosa que todos acreditam.
— O fato de ela tê-la obrigado a me beijar não quer dizer que seja um monstro... Será que posso dormir?
— É algo muito pior que a ordem de um beijo e eu preciso que me ouça.
Sentando-se na cama o jovem consultor defendeu a mãe antes que qualquer acusação fosse feita:
— Eu não posso odiá-la simplesmente por seu ciúme possessivo... Devo muito a essa mulher que me tirou das limitações de um orfanato e me deu a oportunidade de ser alguém, de ter um nome, o que eu não conseguiria tão facilmente. Não vou deixar que manche a imagem da mulher que quando meus próprios pais me abandonaram me acolheu de um bom coração...
 — Isso é o que ela diz e você acredita.
— O que quer dizer? Veja bem antes de falar da minha mãe!
— Não tenho motivos para mentir, até porque o que está acontecendo não influencia em nada a minha vida, mas sim a sua... Como somos amigos preciso alertá-lo.
— O que é? Eu queria tanto dormir...
— Sua mãe mantém um prisioneiro no porão dessa casa, o pior é que não se trata de um homem qualquer, é o seu pai!


Continua...
~~~~~~
No próximo capítulo:

Todos os domingos Verônica costumava caminhar pela manhã, esticar o corpo pelas tantas horas que se mantinha sentada desenhando ou resolvendo as papeladas de sua empresa. Naquela manhã o seu roteiro a levou ao mesmo parque no qual o filho aproveitava ao lado da namorada, ao avistá-lo a estilista se encheu de ira, não podia acreditar no que via.

De segunda à sexta, às 19h30!

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