[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 16



Flagrante


“Ser pego de surpresa nunca é uma boa coisa, ainda mais quando o que se planeja fazer precisa de total sigilo para que aconteça”.

Por alguns instantes o olhar de Jonas ficou paralisado, o rapaz tentava entender as palavras que ouvira, as quais lhe soavam como um enorme absurdo.
— Ficou com raiva da minha mãe e agora quer me colocar contra ela? — o jovem perguntou —. Eu até entendo, afinal ela tem dominado a sua vida, mas não tente criar discórdias.
— Você precisa acreditar em mim — Letícia suplicou por um voto de confiança —. Se quiser vamos agora mesmo ao porão e lhe mostro tudo.
— Porão? — Jonas não pôde conter a gargalhada —. Desde quando nessa casa temos um porão? Minha mãe sempre foi desapegada as coisas, quando não lhe servem mais ela simplesmente as joga fora... Não temos um porão.
— Ele está no fundo da cozinha, camuflado pelas gramas do jardim. Vamos, vou provar que o que digo é verdade.
Por poucos segundos o rapaz se viu tentado a certificar-se de que aquilo não passava da imaginação de uma mente perturbada, mas a gratidão que ele julgava sua obrigação ter com aquela que mudou a sua vida falar mais alto, não podia alimentar desconfianças.
— Você deve ter sonhado e agora pensa que é verdade ou está delirando de febre... Volte para a sua cama e descanse, deve ser isso o que lhe falta.
— Não vai mesmo confiar em mim? — a modelo se frustrou.
— Óbvio que não. Tudo isso não passa de loucura.
— Não estou louca, temo que seja tarde demais quando seus olhos se abrirem e toda a verdade for revelada.

*

Era uma manhã de domingo ensolarada. Buscando a paz da natureza em uma metrópole tão agitada, Jonas e Renata resolveram passar o dia no mesmo parque que se viram pela primeira vez, onde uma nova fase na história da estilista teve início.
Pela primeira vez em sua vida a mulher parou para observar as nuvens no céu ao lado de alguém que lhe fazia tão bem, ela nunca havia experimentado tal ato.
— Não sabia que era tão bom assim se perder nesses variados formatos — Renata comentou deitada sobre a grama.
— Seus desenhos ficarão ainda melhores com essa inspiração — o rapaz concluiu também deitado, ao seu lado.
— Você é a minha inspiração — a mulher virou o rosto para encontrar os olhos de Jonas —. Nunca me senti tão bem para continuar com o meu trabalho.
— E eu nunca me senti tão feliz por estar ao lado de alguém — o consultor passeou com os dedos pelos cabelos da estilista.
— Não se incomoda por saber que somos concorrentes de certo modo?
— Sei que a sua concorrência para conosco será de forma limpa, honesta, sem trapaças. A sua empresa aposta em inovação, algo que sempre sonhei para a Morgan Modas, mas ninguém me dá oportunidades. Então, que vença o melhor!
— Por que não vem trabalhar comigo? — a estilista sugeriu animada —. Pode ter certeza que estarei aberta as suas ideias.
— Eu não posso simplesmente abandonar o lugar onde cresci, devo muito à minha mãe.
— O que quer dizer?
— Na verdade eu sou adotado, Verônica fez a minha vida acontecer, não posso simplesmente lhe dar as costas, preciso ser grato.
— Entendo... — ela se perdia nos olhos que a encaravam —. Mas, se algum dia precisar, saiba que poderá contar comigo sempre.
— Eu sei — dando um sorriso o rapaz acariciava o rosto meigo —. Mas e quanto a você? Nunca fala sobre família, tem algum parente por aqui?
Antes de responder Renata voltou os olhos ao céu azul, procurou em seus pensamentos se compartilhar sua história com aquele homem seria o certo a se fazer, seu coração a convenceu de que sim, ela precisava confiar naquele que amava.
— A minha vida é um pouco diferente das muitas que você conhece, ela não começou muito bem, mas não poderia estar melhor... — voltou o olhar para o rosto acolhedor —. Quando eu tinha cinco anos vi meus pais serem mortos na minha frente por alguém que eu confiava. Essa pessoa resolveu que esse segredo não poderia continuar vivo e mandou que ceifasse a minha vida, mas aquele homem que deveria cumprir o mandato tinha um bom coração e me ajudou a fugir — suspirou desconsolado, aquilo doía em seu peito —. Meu destino foi o Ceará, onde uma estilista internacional me encontrou e descobriu os meus desenhos, viu que em mim existia algum talento, o qual herdei de meus pais. Então aquela mulher me levou aos Estados Unidos e a minha história mudou.
Um pouco surpreso com o que ouvira Jonas perguntou:
— Quanto a má mulher, ela ainda vive?
— Sim... — uma lágrima rolou dos olhos da estilista, sendo recolhida pelos dedos cálidos do namorado —. Meu desejo é por vingança, mas meu coração parece se transformar a cada momento — sentando-se a mulher continuou —. Conhecê-lo fez as sombras do passado se dissipar, conheci um sentimento nunca despertado em mim.
— Estarei sempre aqui ao seu lado para o que for preciso — sentando-se o rapaz abraçou Renata, um abraço reconfortante, seguro, protetor —. Posso ajudá-la a cicatrizar essa ferida que eu sei que ainda dói.
— Talvez essa dor jamais se cure — a estilista sentiu a necessidade de apertar aquele abraço e deixar as lágrimas caírem com maior intensidade, era a angústia sendo colocada para fora —. Todos os dias acordo me lembrando daquela cena de anos atrás, todo o momento sinto a falta deles, não faz ideia de como a minha alma arde.
— Fico ainda mais admirado por você. Tem provado ser uma mulher forte que não se deixou abater pelos tantos desafios e se transformou nessa pessoa tão bem sucedida, talentosa, cheia de admiradores.
— Não faz ideia de quantas lágrimas derramadas foram necessárias para essa força toda... — o ombro do amado era confortável ao repouso da sua cabeça —. Ao menos agora a vida me presenteou com o que eu poderia ter de melhor, a sua existência.
Sentindo-se amado o rapaz exibiu um largo sorriso com a mulher que transformou a sua vida ainda em seus braços.

Todos os domingos Verônica costumava caminhar pela manhã, esticar o corpo pelas tantas horas que se mantinha sentada desenhando ou resolvendo as papeladas de sua empresa. Naquela manhã o seu roteiro a levou ao mesmo parque no qual o filho aproveitava ao lado da namorada, ao avistá-lo a estilista se encheu de ira, não podia acreditar no que via.
— Jonas? O que faz aqui? — sua voz separou o casal abraçado.
Arqueando a sobrancelha o rapaz respondeu indiferente:
— Namorando...
— Renata? Estou surpresa com a sua atitude. Não sabia que se conformaria tão facilmente com um par de chifres — seu comentário, como de praxe, era ácido.
— Mãe! — o jovem consultor se irritou —. Vai mesmo começar suas provocações?
— Apenas não entendo como ela se conformou...
— Não há com o que se conformar — Renata encarou a rival —. Sabemos que foi tudo armação. Mas eu a entendo, não quer perder o filho... — a ironia tomou sua feição —. Porém quero deixar claro uma coisa: não vou roubá-lo das suas mãos, apenas dividi-lo, o amo tanto quanto você.
— Acho que um pedido de desculpas cairia bem, ela quase perdeu a vida por causa da infantilidade do seu ciúme — Jonas foi direto em sugerir aquilo.
Mordendo0-se de raiva a senhora Morgan fez o seu forçado pedido:
— Desculpe-me, foi muito infantil mesmo...
— É claro que eu desculpo, quero que fique tudo bem entre a gente — nos olhos de Renata o deboche estava estampado.

*

Decidida a provar que estava falando a verdade Letícia esperou até o anoitecer para voltar ao porão, desta vez acompanhada de seu celular a fim de registrar tudo o que visse. Retirando o tapete de grama que escondia a porta, a modelo se deparou com um sistema de código, precisava digitar a senha para que conseguisse entrar.
— Droga! O que eu faço?
— EAB 5639 — uma mão pousou sobre o seu ombro e uma voz feminina soou —. Só digitar...
Levantando-se cautelosamente e se virando para trás a garota se deparou com Verônica, que tinha no rosto frio um sorriso ameaçador.
— D-Dona Verônica — o modelo fraquejou ao falar —, eu posso explicar...
— Eu que vou explicar a estilista agarrou o braço de Letícia —. O que tem lá embaixo eu sei que você viu, as câmeras registraram tudo e eu apenas esperei o momento certo para lhe revelar... Sabia que não aguentaria de curiosidade e voltaria a procura de informações, sabia que gosta de correr perigo...
— Juro que não conto nada a ninguém — a garota estava sendo tomada por um pavor descomunal que apenas a presença de sua patroa lhe causava —. Eu juro!
— Eu sei que não vai — o semblante de Verônica irradiava mistério, revelava a quem o visse que seus pensamentos eram os mais perversos.
— Vai me matar? — a modelo já derramava lágrimas.
Aproximando-se do ouvido de Letícia a mulher sussurrou:

— Não seria uma má ideia — gargalhando, a estilista tomou distância —. Já sei que contou toda a verdade à Renata, fez de mim uma grande vilã... Sua atitude me decepcionou e agora preciso ser recompensada — passando as afiadas unhas pelo rosto da garota Verônica prosseguiu: — Tem uma semana para engravidar do meu filho e assim, mantê-lo preso a você, ou a levo para esse porão e sua cabeça será servida no jantar!

~~~~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

Pensando antes de responder Letícia se encheu de coragem, precisava ser forte, destemida.
— Vim pedir demissão.
Ainda mais surpresa Verônica levantou-se de sua cadeira lentamente, em seu rosto um sorriso doentio tomou forma, seu costumeiro olhar ameaçador logo surgiu.
— Repete — com extrema calma a senhora Morgan pediu.

De segunda à sexta, às 19h30!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Amar é mudar a alma de casa"

A Brevidade da Vida

Aflições na Alma

Flores aos mortos

[Conto] Eternizados Pelo Amor