[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 21



Falsa Parceria


“Firmar parceria com alguém precisa ser uma atitude precavida, nunca se sabe as reais intenções dos envolvidos. Até mesmo entre pessoas perigosas a parceria é muito bem pensada antes de acontecer”.

Por mais que procurasse de onde vinha aquele clamor Jonas nada encontrou, nem sequer uma pista, a não ser sua percepção que apontou uma voz abafada.

“[...]
— Porão? — Jonas não pôde conter a gargalhada —. Desde quando nessa casa temos um porão? Minha mãe sempre foi desapegada as coisas, quando não lhe servem mais ela simplesmente as joga fora... Não temos um porão.
— Ele está no fundo da cozinha, camuflado pelas gramas do jardim. Vamos, vou provar que o que digo é verdade.
[...]”

Ao se lembrar daquela conversa com Letícia o rapaz voltou os seus olhos para o chão, talvez a modelo estivesse realmente certa e a sua ignorância não lhe permitira notar isso, era esse o seu pensamento.
— Filho? A que horas chegou? — Verônica assustou o rapaz ao aparecer repentinamente.
Começando a ter motivos para desconfiar da verdadeira índole de tal mulher que o salvara do esquecimento do mundo, Jonas se dirigiu a ela apreensivo, notoriamente apreensivo.
— Não estava com dor de cabeça?
— Um pouco — a estilista respondeu perceptiva a cada gesto do filho —. O que faz aqui?
— Apreciava esse céu estrelado — levou os olhos à negritude —. Acho que vou entrar, já está tarde...
— Faça isso, meu querido, o dia foi cheio!
Atenta a cada passo do rapaz Verônica voltou ao porão tendo certeza de que Jonas já dormia. Enraivecida, a senhora Morgan adentrou o sombrio lugar com um revólver apontado para a cabeça do seu prisioneiro, seus olhos denunciavam as reais intenções daquela alma perturbada.
— O que foi tudo isso? — sua voz demonstrava sua ira —. Está achando que tem peito para me enfrentar? Será que ainda não percebeu sua vulnerabilidade a mim? Eu mato, sem dó e nem piedade, como se mata um verme!
— Só quero me ver livre desse inferno — o homem tinha a apreensão no rosto, seu medo divertia aquela que tanto o afligia.
— Um dia estará... Deixando bem claro que esse lugar é vigiado por câmeras que capturam cada movimento seu, até mesmo no escuro! — a estilista se aproximou de Raul a cada palavra dita —. Mais uma graça e aquele rapaz que estava no jardim, o seu próprio filho, morrerá perante os seus olhos — dando uma forte coronhada na cabeça de seu cativo a mulher provocou o seu desmaio, chutando-o concluiu: — Nunca me desafie!

Assustado Jonas se despertou de um pesadelo no meio da madrugada, em sua mente confusões tomavam forças. Com certa tensão o jovem consultor se levantou e a passos cuidados caminhava pelo corredor escuro.
Em dado momento o rapaz se encontrava diante o quarto da mãe, o fato de a porta estar entreaberta chamou sua atenção, já que a mulher nunca dormia naquela condição.
Curioso, Jonas abriu vagarosamente a porta, ouvindo os seus fracos estalos. Observando com atenção notou a cama vazia, suas pernas sentiram toda aquela adrenalina quando uma mão pousou sobre o seu ombro.
— Ainda acordado, filho? — a voz era gélida.
Engolindo seco o rapaz se virou para a mãe e respondeu com um sorriso temeroso:
— Acho que sim...
— Precisando de alguma coisa? O que queria no meu quarto? Necessitando de uma conversa? Sabe que em somente a mim pode ter total confiança — o olhar de possessividade da mulher tomava ainda mais forma a cada vírgula.
— Eu estou bem... Apenas com sede.
— Vá se deitar. Levo a sua água.
— Não precisa, eu...
— Vá. Se. Deitar — Verônica o interrompeu tendo no rosto um sorriso medonho, um sorriso estranho, apavorante.
Sem dizer palavra alguma Jonas apenas obedeceu, um receio começava a tomar sua alma.

[19 de outubro de 2016]
Naquela manhã de quarta-feira ao se dirigir à mesa do café da manhã Verônica sentiu a ausência do filho, já que havia se tornado praxe ambos passarem aquele momento juntos. O que a mulher encontrou foi um bilhete do mesmo no qual explicava sua ausência: “Bom dia. Fui tomar café na empresa, preciso adiantar algumas coisas... Nos vemos lá”.
— Desculpa esfarrapada — a estilista amassou o papel —. Escutar aquele verme gritar por socorro apenas criou desconfianças em sua mente. Preciso dar um jeito nessa situação, nem que para isso tenha que dopá-lo!
Sentindo-se estressada pelo que supostamente acontecia Verônica nem ao menos notou o tilintar da campainha na mansão, apenas se assustou com a presença de dois policiais à sua frente.
— O que fazem aqui? — a estilista de súbito se levantou —. Como entraram?
— Primeiramente bom dia – um dos homens estendeu a mão para um cumprimento, mas foi ignorado.
— Seus empregados autorizaram nossa entrada — o segundo, que tinha uma aparência mais séria, tomou a dianteira da conversa —. Recebemos uma denúncia de que a senhora lidera um grupo de traficantes na cidade e em outros lugares, nessa mesma denúncia recebemos a informação de que boa parte da droga é escondida na casa... Realizaremos o nosso trabalho de investigação e, caso a recrimine, iremos todos à delegacia.
— Isso não passa de um enorme absurdo, acham mesmo que uma mulher tão poderosa quanto eu se envolveria com pessoas tão baixas?
— Muitos estão onde estão por se sustentarem sobre lixo. Temos ordens para vasculharmos a casa, quem não deve não teme.
— Façam o trabalho, sei que de nada valerá.
Com atenção impecável os policiais passearam pelos tantos cômodos da mansão, enquanto Verônica tentava controlar seu nervosismo, por fim nada foi encontrado. Vasculhando pelo lado de fora acabaram frustrados, nada comprovava a veracidade da denúncia.
— Acharam alguma coisa?
— Pelo jeito fomos enganados, tudo está em ordem.
— Não falei? Sou defensora da paz, como contribuiria com essa guerra entre policias e traficantes? Pesquisem um pouco sobre mim e verão o quão suado foi a escrita de minha humilde história.
— Não há nada de suado em ganhar a empresa dos irmãos... — o sério policial sabia com quem estava lidando.
— Passou pela dor que eu passei? Claro que não, por isso evite dizer besteiras.
Dispensando aqueles homens em um clima nem um pouco bom a estilista logo criou suspeitos em sua mente, porém um em especial lhe chamou mais a atenção.

Deixando bem claro o mau humor que a perseguia Verônica adentrou a Morgan Modas em passos pesados, passando pela diretoria requisitou a presença de Egídio com urgência, o qual logo obedeceu.
— No que posso ajudar?
— O que pensa que vai conseguir me denunciando? – a mulher jogou sua bolsa contra a mesa, totalmente irritada —. Sabe que se eu for para o buraco o carrego junto, não sabe?
— Claro que eu sei, mas lá acabo com a sua vidinha de madame — recostando-se no encosto da cadeira o homem debochou: — Está reclamando a toa, sabe que nunca encontrariam aquele porão...
— Você é burro! Se eles estivessem com alguma tecnologia mais avançada é claro que descobririam. A sorte foi que não estavam tão certos do que suspeitavam... Apenas quero entender o porquê disso, pensei que tivéssemos uma parceria.
— E temo — Egídio apoiou seus braços na mesa —. Mas odeio ser passado para trás.
— Do que está falando?
— Quando mandou que sequestrasse o Raul me prometeu dar como pagamento metade das ações dessa empresa, o que recebi foi parte do lucro naquela época e uma vaga na diretoria, nada mais... Estou cansado de esperar, passou da hora de suas palavras serem cumpridas!
— Ainda não é o momento...
— Nunca é o momento! — Egídio bateu forte contra a mesa assustando sua ouvinte –. Já me cansei de ouvir essa desculpa, é sempre o que ouço! Eu quero metade das ações desse lugar e pronto!
— Não é tão fácil quanto parece, não é assim que jogamos o jogo...

— Agora quem dita as regras do jogo sou eu. Denunciei você apenas para dar um sustinho, mas da próxima vez eu conto toda a verdade e me faço de mais uma das suas tantas vítimas. Não sou como esses capangas de novela que apenas atendem os desejos de covardes, juntei-me a você visando o que poderia obter. Meu único interesse ao seu lado se chama riqueza! Ou facilita as coisas ou comerá pão seco atrás das grades!

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No próximo capítulo:

— O que queria comigo?
— Pedir perdão.
Jéssica não esperava por aquilo. Ela o conhecia muito bem e sabia que pedir perdão não era uma de suas qualidades, nem ao menos “desculpa”, começou a acreditar que as mudanças teriam acontecido, mas ainda assim seu coração questionava até onde tudo seria verdade.

De segunda à sexta, às 19h30!

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