[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 22



Descoberta


“Segredos revelados, descobertas que são feitas, visões que mudam, sentimentos que se transformam”.

As desconfianças de Jonas tomavam cada vez mais força de acordo o tempo passava, em seu peito batia o arrependimento por não ter dado crédito à Letícia, o que escutara na noite passada fora mais que o suficiente para que toda a história se confirmasse.
Quando viu a mãe adentrar a sala da diretoria com irritabilidade e exigir que Egídio a acompanhasse, o rapaz se sentiu tentado a descobrir o que poderia estar acontecendo. Por trás da porta ele ouviu tudo o que precisava e agora sabia que existiam muitos segredos guardados naquela que tanto admirava.
Certo de que Verônica não iria embora tão cedo Jonas voltou à mansão sem dar satisfação a ninguém, queria agir em oculto e descobrir tudo o que fosse necessário. Apreensivos seus pés pisavam pela casa, a sensação que o dominava era a de estar sendo seguido, mesmo sabendo que apenas os empregados ali estavam.
De volta aos fundos da cozinha seus olhos procuravam por todo o jardim alguma pista que lhe indicasse o que queria, mas nada parecia ser anormal. Pisando para sentir a grama em cada canto do local o rapaz se esforçava em notar alguma irregularidade. Após minutos de muita observação finalmente encontrou uma área em que a suavidade da grama não era a mesma que ao seu redor, algo resistente tornava a sensação estranha.
Passeando com a mão por aquele espaço suas desconfianças se confirmavam, percebeu que ali existia uma grama artificial. Insistindo na percepção encontrou o encaixe, colocando a mão por baixo sentiu o que não queria sentir, o que ainda pensava que poderia ser ilusão, mas que não era. Levantando o tapete se espantou com a porta secreta trancada por um sistema de código.
— Não é possível.
“[...]
— Sua mãe mantém um prisioneiro no porão dessa casa, o pior é que não se trata de um homem qualquer, é o seu pai!”
Lágrimas passaram a correr pelo seu rosto. Sentimento de culpa o tomava. Devia ter sido mais atento as atitudes da mulher com quem dividia o mesmo teto, devia ter sido mais razoável dando ouvidos a quem o alertara, devia ter sido menos ignorante. A culpa era ainda maior ao se lembrar de que quem ali estava poderia ser o seu verdadeiro pai. A raiva começava a nascer por saber que tudo o que viveu durante a vida inteira foi uma mentira.

Tal descoberta, além de todo o misto de sentimentos, também causou aflição no coração de Jonas. Dirigindo seu carro pelas ruas da agitada São Paulo o rapaz não sabia qual rumo tomar, o que fazer, como agir dali por diante. Ao voltar em si se viu à frente da Button Modas, seria ali que teria as respostas para as tantas dúvidas que o cercavam.
— Jonas? O que houve? — Renata se assustou ao se deparar com o namorado em sua sala coberto de pranto —. Por que está tão tenso?
— A minha mãe... Se é que posso chamá-la assim — a decepção era grande —. Ela não é tudo aquilo que sempre pensei, que sempre me mostrou ser... Descobri seu real faceta.
O desabafo não era nenhuma novidade para a estilista, que embora tivesse muito o que falar preferiu o silêncio, ainda não era o momento de revelar as reais atrocidades de alguém que todos pensavam conhecer.
— Do que está falando? Como descobriu?
— A ouvi conversar com Egídio, descobri que guarda drogas em casa, ela é perigosa... Ontem pela noite quando via o seu cartão escutei gritos de socorro e hoje descobri de onde eles veem. Existe um porão na mansão, aquela mulher mantém alguém preso ali... A Letícia já havia me alertado, mas não dei ouvidos e agora convivo com o pesadelo de saber que alguém está sofrendo dentro da minha própria casa!
— Podemos resolver isso juntos e vamos!
— Como? Essa mulher agora me dá medo! — a visão de boa mãe agora se convertia na visão de uma criatura perversa —. Não posso enfrentar alguém capaz de manter um ser humano preso. Pelo pavor do grito o que ele vive é um verdadeiro inferno.
Vendo que finalmente a oportunidade de desmascarar aquela que lhe causou tanto sofrimento estava chegando Renata fez sua jogada:
— Não demonstre o seu medo perante Verônica e nem que sabe de alguma coisa, continue a tratando como sempre fez. Na hora certa atacaremos e a verdade será revelada!

*

Enquanto tirava fotos para o próximo lançamento da Button Modas, Jéssica recebeu um discreto bilhete. Ao lê-lo um sorriso se formou em seu rosto e perante as câmeras seus olhos brilharam ainda mais. O desempenho da moça fora ainda melhor.
Terminado o seu compromisso a modelo se dirigiu ao tão movimentando parque, no qual casais apaixonados sempre se encontravam a fim de aproveitar a presença um do outro. Sentando-se em um dos bancos privilegiados pela sombra de uma perfumada e refrescante árvore, a mulher deu um suspiro, estava ao mesmo tempo que contente cheia de dúvidas, estaria fazendo a coisa certa?
— Consegue adivinhar quem tanto a admira? — Jéssica teve os olhos fechados pelas mãos de alguém que a questionou.
— Eduardo... — o sorriso da moça demonstrava sua satisfação.
— Não sabe como fico feliz ao vê-la aqui, mostra que está aberta a me escutar.
Vendo o rosto daquele que um dia tanto amou e encontrá-lo sem mais a maltratada barba a modelo foi levada de volta ao passado, aos primeiros encontros, ás primeiras trocas de olhar, às primeiras palavras de amor, aos primeiros sonhos compartilhados. Quando tudo parecia ser verdadeiro e consistente, enquanto era uma verdadeira ilusão.
— Está diferente...  — a mulher comentou.
— Só de conversar contigo aquela noite me senti diferente. Voltei a me arrumar como antes — Eduardo se sentou ao lado daquela quer era o seu desejo reconquistar, o que tarefa fácil não seria.
— O que queria comigo?
— Pedir perdão.
Jéssica não esperava por aquilo. Ela o conhecia muito bem e sabia que pedir perdão não era uma de suas qualidades, nem ao menos “desculpa”, começou a acreditar que as mudanças teriam acontecido, mas ainda assim seu coração questionava até onde tudo seria verdade.
— A história de que as pessoas precisam perder para dar valor é verdadeira, faz todo sentido possível... — os olhos do homem eram fixos nos da que a ouvia, suas palavras não eram ditas pelos lábios, brotavam do coração —. Eu era amado e não valorizei, eu era cuidado e não percebi, eu tinha atenção e não me importei... Sempre pude contar com a sua compreensão, com as suas palavras, com o seu ombro amigo, mas sem merecer, tamanha foi a minha babaquice. Apenas vi isso quando a perdi, quando dei as costas para a pessoa que sempre esteve ao meu lado  e que me ajudou a construir minha vida, minha carreira.
— Não acha tarde para dizer tudo isso? — ela queria testá-lo.
— Nunca é tarde para se arrepender e provar isso... Quando a abandonei decretei o fim da minha própria vida, joguei fora tudo o que havia conquistado, todo o prestígio, toda a fama, todo aquele sucesso... Por algum tempo senti a falta dessas coisas, mas senti ainda mais falta de alguém que gostasse de mim da forma como você me amou — uma tosse o interrompeu, algo de errado acontecia com aquele arrependido homem —. Senti a falta de ter alguém com quem conversar, desabafar, procurar ajuda para os momentos de tristeza... Eu percebi que não foi apenas a sua beleza que me encantou, foi a sua alma que confortou a minha. Você é muito mais que uma mulher bonita, é o amor da minha vida, é a minha alma gêmea.
Tais palavras comoveriam um coração cheio de amor para dar, mas não um coração quebrado, marcado pelo passado, sofrido com a desilusão de uma mentira.
— Eu te amei como nunca amei ninguém, fiz por você o que não faria por nenhuma outra pessoa, o coloquei como prioridade em minha vida — Jéssica tinha os olhos encharcados —. O que me deu em troca? Desprezo. Amargura. Palavras duras. Deixou claro que me usou para os próprios interesses. Fez com que eu desacreditasse na veracidade que é o amor, já não acredito mais em tal sentimento, para mim é uma ilusão confundida por corações apaixonados.
Não conseguindo mais controlar o que tanto segurava Eduardo começou a tossir de forma ainda mais preocupante, assustando a modelo, que, como sempre foi, mostrou-se pronta a ajudar:
— O que foi? Precisa de alguma coisa?
Retomando o fôlego o rapaz respondeu ofegante:
— Nada com que precise se preocupar...
Na verdade a mulher se preocupava sim, sempre se preocupou com aqueles que amava, e isso incluía Eduardo, o qual nunca deixou o seu coração.
— Eu preciso ir, mas quero muito voltar a conversar com você, quero que veja o quanto mudei, mudei por você.

Um doce beijo no rosto daquela que dominava os seus pensamentos foi a forma como Eduardo encontrou para a despedida. Vendo aquele que ainda balançava o seu coração partir fez com que Jéssica derramasse uma lágrima, seu real desejo era tê-lo ao seu lado para sempre.

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No próximo capítulo:

Ambos necessitavam da presença um do outro, eram seus corações clamando por isso, só assim poderiam se aquietar. Naquela noite de primavera marcada pela suave brisa que soprava sobre a terra, o casal apaixonado estava de volta ao parque que dividiu águas em suas vidas, o parque que nunca poderia, e nem seria, esquecido.

De segunda à sexta, às 19h30!

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