[Conto] Eu Sempre Te Amarei



L
ogo após um momento de amor com sua mulher Rodolfo se colocou em pé perante a janela de seu quarto e, com um copo de vinho em mãos e o roupão cobrindo seu corpo, ele observava as gotas da chuva que desenhavam na vidraça enquanto sua mente viajava.
- O que houve, meu amor, parece-me tão pensativo - a mulher se colocou ao seu lado.
- Sabe que a amo, não sabe? - ele perguntou sem tirar os olhos da janela, que dava vista para o jardim.
- Mas é claro que sei. Por que a pergunta?
- Sabe que amo nossa família, não sabe?
- Rodolfo, o que está acontecendo?
- Nada. Apenas quero que saiba o quanto a amo e o quanto amo nossa família.
- Eu o amo mais que tudo - a mulher abraçou o marido por trás e lhe deu um beijo tranquilo, um beijo acolhedor -, sabe que pode confiar em mim para tudo, estou aqui para ajudar-lhe.
- Lembra-se do nosso primeiro encontro? Éramos dois adolescentes tímidos, que mal conversavam entre si.
- E como não me lembraria? - riu divertida -. Foi quando com o rosto queimando me pediste em namoro, nunca me esquecerei daquele sorriso envergonhado e daquele olhar profundo.
- Também nunca me esqueço do nosso primeiro beijo, foi um acaso da vida - seus lábios desenharam um discreto sorriso -. Andávamos de bicicleta quando de repente pensei que a veria caída no chão.
- Seguraste-me em seus braços...
- Nos olhamos intensamente...
- E nos beijamos - a mulher concluiu com um brilho no olhar.
- Não consigo imaginar como seria a minha vida sem essa mulher maravilhosa que está sempre ao meu lado - Rodolfo segurou firme a mão de sua esposa -. Obrigado por tudo que me tem feito.
- Por que está me dizendo estas coisas? Parece até uma despedida.
- Nunca sabemos quando daremos nosso último suspiro - seu olhar tornou a se perder no vazio da janela -, nunca sabemos quando teremos a última oportunidade de dizer "eu te amo". Durante esses anos todos me sinto tão ligado a você, mas me culpo por não ter sido o que merecia.
- Foi suficientemente bom para mim - a mulher fez com que Rodolfo retornasse os olhos aos seus -. Nossos filhos orgulham-se do pai que têm, nossa família é bem estruturada, fizeste e faz um bom trabalho.
- Ainda assim não acho que foi suficiente - Rodolfo repousou a mão sobre o rosto de sua mulher -. Poderia ter feito mais, mas não fiz.
- Mas pode fazer... Temos uma vida pela frente.
- Talvez não dê tempo.
- Talvez tempo não seja a questão.
Por um instante Rodolfo fez silêncio, analisou a resposta de sua mulher. Abriu um sorriso tímido, o mesmo de quando adolescente, colocou o copo de vinho sobre o criado mudo e disse:
- Eu sempre te amarei.
- Como sempre me amou.
Ambos deitaram-se, aquela noite fria convidava para um sono perfeito.
*
Logo cedo Ana acordou, viu o marido ainda deitado ao seu lado e pensou que ele não fosse trabalhar aquele dia. Resolveu, então, preparar um café especial, mas ao adentrar a cozinha avistou um papel sobre o fogão, dobrado ao meio, que tinha seu nome. Abriu-o e começou sua leitura:
"Ana, meu tesouro.
Por você aprendi a viver, aprendi a amar, aprendi a lutar. Cresci. Tornei-me forte. Venci.
Juntos chegamos até aqui, conseguimos sustentar o nosso amor em meio a tantos obstáculos, os quais serviram para fortalecer nossa união.
Deste-me os melhores presentes dessa vida: seu amor e nossos filhos. Sinto-me realizado por saber que fizemos um bom trabalho. Penso que poderia ter feito mais, mas não consegui, não deu tempo.
Como disseste ontem, talvez tempo não seja a questão, até porque ele já não existe para mim, a questão é meu sentimento por vocês, o qual atitude nenhuma conseguiria demonstrar. Juro que aonde quer que eu vá estarei olhando pela nossa família, protegendo-os.
Deve estar achando tudo isso estranho, mas a verdade é que eu não tinha muito tempo de vida, fui acometido por uma doença a qual foi descoberta em sua fase terminal, segundo o cálculo dos médicos essa noite eu partiria. Não te disse nada para evitar preocupações desnecessárias, não haveria nada que poderíamos ter feito. Quero que tenha em sua mente os bons momentos que passamos juntos, guarde em sua memória o quanto te amei... O quanto ainda a amo."

Com os olhos cheios d'água, Ana correu ao quarto, descobriu Rodolfo e o encontrou de barriga para cima, com as mãos sobre o peito e entre elas uma rosa com um cartão, onde estava escrito: "Eu sempre te amarei".
A mulher segurou a rosa, ergueu a cabeça de seu marido e a repousou em seu colo. Abriu um sorriso enquanto as lágrimas caíam... triste pela perda, feliz por saber que amou a pessoa certa.

Fim

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