[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 24



Possessão


“Desejar possuir alguém inteiramente ao ponto de prendê-lo a nós mesmos é a pior virtude que podemos ter, ela priva a vida e atrai a morte em suas diversas formas”.

Durante todo aquele dia Verônica ficou pensativa sobre o que o filho poderia estar desconfiando quando ao grito de socorro que escutara na noite passada. Conhecendo bem aquele que verdadeiramente criou da melhor maneira que pôde a mulher poderia ter certeza de que aquela história ainda tomava a mente do rapaz e que ele faria qualquer coisa a fim de desvendar o mistério.
Depois de tanto trabalhar a veterana estilista voltou à mansão. Sua primeira atitude foi visitar o porão, queria pistas que declarassem ali a visita de alguém. Se não fosse o modo como Verônica arrumava tão bem as coisas não veria que o tapete de grama responsável pela camuflagem da secreta porta estava torto, deixando a mostra o dourado da fechadura. Ela já sabia o que poderia ter acontecido.
Ansiosa por confirmar suas suspeitas a mulher entrou em seu escritório, um lugar que era mantido frio pelo ar condicionado, sem janelas abertas e luzes que não clareavam tanto, o lugar perfeito para que seus pensamentos fluíssem. Pegando o seu computador a estilista acessou a central de segurança da casa, por ali tinha acesso a todas as imagens captadas pelas diversas câmeras espalhadas pela mansão de forma oculta. Atenta a entrada do porão viu o momento em que Jonas fez a sua descoberta.
— Droga! — a raiva se manifestava em seu corpo —. Não posso perder a confiança da única pessoa que amo, não posso deixar que suspeitas sejam levantadas... Jonas... Jonas... A mamãe precisará castigá-lo! — a loucura crescia em sua mente.

*

[1º de novembro de 2016]
Verônica Morgan nunca precisou enfrentar crises em sua vida. Sempre tudo aconteceu como o planejando, tudo saiu conforme o desejado. Porém, desde a chegada de Renata em sua vida as coisas começaram a balançar, a se desestabilizarem; primeiro era ter que dividir o filho, coisa que nunca foi aceitável para a poderosa mulher e, segundo, talvez o pior, ter uma concorrente a altura que já causava estragos.
A Morgan Modas vinha sofrendo desfalques tanto de funcionários quando de público, o lucro já não era mais o mesmo, o prestígio nas vitrines do Brasil vinha diminuindo, o reconhecimento como a melhor empresa de moda do país não era mais dela. Todos esses problemas eram encarados por Verônica de forma indiferente, sua última tacada antes de começar seus ataques mais rigorosos era organizar um evento no qual lançaria os seus produtos para o verão, ele serviria como um termômetro que indicaria o quão quente a marca ainda estava.
Poucos críticos, pouco público, imprensa discreta. Essa foi a visão da senhora Morgan e de toda a sua diretoria instantes antes do desfile começar, não era para menos, as pessoas esperavam mais do mesmo e a empresa já não tinha uma top model popular, era o início de um naufrágio.
Subindo à passarela para começar o evento a ardilosa mulher sentiu o seu coração pulsar mais forte, seu sangue correr mais rápido pelas veias de seu corpo e a temperatura que subia lhe causava um calor de ódio, de raiva, de sentimentos resultantes da inesperada aparição de Renata Button e suas duas top models, todas com o deboche e a ironia estampados no rosto.
Concentrando-se no que diria Verônica deu início ao discurso:
— Agradeço a presença de todos que aqui estão para nos prestigiar. Preparamos o que sempre fizemos de melhor: aquilo que o povo gosta! Aproveitem!
Dentre as críticas que já começavam a aparecer na mídia a falta de palavras em uma mulher tão admirada por sua importante autoconfiança foi o que mais chamou a atenção. Estaria Verônica Morgan se deixando abalar pelas adversidades?
Comparações já eram feitas: “A Button Modas em poucos dias de funcionamento já presenteou o povo brasileiro com as novidades que o mundo adora, como pode uma empresa tão experiente no Brasil, já no sangue das pessoas, continuar na zona de conforto? Falta criatividade? A Morgan Modas vem colocando sua popularidade em questionamento”, escreveu um dos críticos em seu blog.
O pior comentário da noite estava vindo a passos largos, o crítico mais ácido do país logo fez sua manifestação em uma breve entrevista individual:
— É difícil definir o que vi hoje. Em todos os desfiles da Morgan Modas que tive o prazer de comparecer teci elogios a uma empresa brasileira cheia de talento, tentei encorajar os seus acionistas a encarem o mercado internacional, motivo de arrependimento. A empresa mostrou que não sabe competir, resolveu usar o conhecido para enfrentar o desconhecido, manteve a mesmice para barrar o inovador. A Morgan Modas vem a público provar sua incapacidade!
Verônica começou a se desesperar perante tudo o que via e ouvia, nem sequer um dos presentes se mostrou entusiasmado com o que fora apresentado, afinal nada foi diferente do que todos já sabiam;
— O que eu vou fazer? — a mulher questionou o filho de canto —. Como vou mudar a nossa imagem?
— Eu avisei que seria um erro apresentar as peças, são praticamente as mesas do verão passado, que foram as mesas de sempre — Jonas respondeu friamente —. Também avisei que precisávamos inovar, ampliar o nosso horizonte, mas ninguém me ouviu, agora vejo que já é tarde.
— Vamos inovar, filho, vamos seguir o seu pensamento! — o desespero assolava a estilista —. Ajude-me a salvar a nossa empresa!
Observando com atenção aquela a mulher por alguns segundos o rapaz quebrou o seu silêncio:
— Talvez seja tarde demais...
A vontade de todos que ali estavam era de voltarem às suas casas, mas seriam deselegantes se recusassem ao lanche que os aguardava. Embora tentasse se comunicar com todos a veterana estilista sentia indiferença em cada um, ser admirada era algo que já não lhe pertencia.
— Parece que a justiça começa a ser feita — Jéssica cumprimentou sua antiga patroa —. Terei a honra de assistir a queda do império?
— Ingrata — a mulher retrucou cerrando os dentes —. Depois de tudo o que fiz por você...
— Você me deu as costas quando mais precisei e ainda prejudicou a minha carreira... Acha mesmo que sentiria muito pelo que vem acontecendo? Vocês jogaram o meu nome fora e agora vejo os seus serem lançados ao lamaçal!
— Concordo em cada palavra — Letícia se juntou à conversa —. Cada um recebe aquilo que merece, o presente é reflexo do passado.
— Vai mesmo me provocar? Tem certeza do que está fazendo? — Verônica possuía ameaças no olhar —. Sabe muito bem do que sou capaz, do segredo que guardo.
— Aqui, com todas nós ao seu lado, ela não tem nada com o que se preocupar — Renata surgiu por entre as mulheres, seu ar era autoritário —. Que segredo seria esse, querida? Por acaso a imagem de mulher perfeita não passa de uma miragem?
— O que faz aqui? Esqueceu que a odeio? Que não a suporto?
— O Jonas me convidou — a estilista menos experiente respondeu com a provocação estampada no rosto —. Esqueceu que ele é o meu noivo? Que é comigo que passará o resto dos dias? Que é a mim que ele ama?
Em um momento de descontrole a veterana estilista deu um tapa no rosto de Renata, o que a fez cair. Ao ver sua rival ao pó da terra sentiu vontade de continuar sua violência, fruto do seu rancor, mas ao notar todos os olhos atentos sobre ela sua única saída foi correr, o escândalo já estava armado.
— Está tudo bem? — Jonas ajudou aquela que tanto amava a se levantar —. Vou agora mesmo falar com ela!
— Não! Fique — Renata o segurou pelo braço —. Defenda a sua empresa, tente manter o que ainda resta.
— Essa já não é mais a minha empresa.
Desentendida a mulher fez sua pergunta com o olhar, o rapaz a surpreendeu:
— Aquela proposta para trabalhar ao seu lado ainda está em pé?
O largo sorriso da estilista denunciava sua resposta, seu beijo repentino a confirmou, aquele era um dos seus maiores desejos.

*

Voltando para casa Jonas encontrou a mãe na luxuosa sala da mansão, ela o olhava com desconfianças.
— Como tudo terminou?
— Ainda pior para o seu lado.
— Para o nosso lado! Somos uma equipe, trabalhamos juntos e, além disso, somos uma família, sofremos juntos também!
— Não, não mais — o rapaz disse firme —. Acabou tudo. A partir da próxima semana faço parte da Button Modas e a partir de hoje moro em outro lugar... Aquele tapa no amor da minha vida doeu em mim também, foi a pior coisa que poderia ter feito em sua vida.
— Você não pode me abandonar — o desespero de Verônica em perder o filho a fez cair de joelhos perante o rapaz e a fazer sua súplica entre lágrimas: — Eu preciso da sua companhia, eu não quero distanciamento, eu necessito do seu carinho...
— Não posso dar tudo isso a alguém que machuca quem eu amo. Infelizmente a minha decisão já está tomada e não será tida como ingratidão, mas como precaução...
Vendo o filho lhe das às costas a estilista, ainda que o amasse, sacou o revólver e deu seu disparo certeiro. Vendo o rapaz sangrar em seus braços aquela perturbada alma gargalhava e lançava suas palavras:
— Você é só meu! Meu e de mais ninguém!


Continua...

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No próximo capítulo:

— Não vão não! — a mulher tirou da bolsa o seu revólver —. Vocês vão continuar aqui!

De segunda à sexta, às 19h30!

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