[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 25



Ruína


“O maior erro de alguém é se acomodar onde está e deixar as coisas fluírem. Até mesmo a melhor fortaleza, se não passar por manutenções ao longo do tempo, pode desmoronar”.

Ciúme. Um sentimento traiçoeiro.
Tem quem acredite que o ciúme é apenas mais uma prova de amor, que quando ele não existe é porque os outros sentimentos também não existem, mas é de se questionar.
Às vezes o ciúme é bonito de se ver, aquela cara de bravinha que a menina faz quando vê o seu garoto falando com outras meninas pode até ser mais uma forma de conquista, mas e quando ele se torna uma prisão?
Não é apenas entre casais que existe tal sentimento, ele também pode fazer parte do convívio entre pais e filhos, muitas vezes confundido com a “super proteção”, é o desejo de ter aquela pessoa vivendo somente para você.

Verônica Morgan nunca foi mulher ciumenta, pelo menos não com o seu marido, porém quando o assunto era Jonas a história mudava de curso. Ela sentia possessão sobre o filho, desejava tê-lo ao seu lado para sempre, pensar em dividi-lo com alguém era um pesadelo que a perturbava. Seu ciúme não era bonito de se ver, era doentio.
Jonas não estava morto, o tiro lhe acertara o braço, porém a estilista conhecia de perto os macetes dos muitos armamentos, usava o que sabia para as suas noites criminosas, para comandar sua trupe de marginais; sendo assim, infectou a munição com substância sonífera, capaz de derrubar automaticamente qualquer homem.
Voltando do profundo sono o rapaz despertou vendo a prepotente mulher o observar com um sorriso irônico. Forçando as mãos viu que estava algemado, acorrentado na cama de seu quarto, vulnerável a qualquer mal.
— Bom dia, querido.
— O que está fazendo? Eu quero sair daqui! — Jonas tinha a voz sonolenta.
— Infelizmente não poderei atender ao seu pedido como sempre fiz, agora preciso ser uma mãe enérgica, uma mãe que castiga.
— Por que isso? — sua cabeça latejava.
— Depois de tudo o que fiz por você ao longo desses anos a sua retribuição e me dar às costas, correr para a concorrente e se juntar aqueles que querem o meu fracasso. Está jogando no lixo anos de dedicação, de carinho e de amor... Minha única escolha é o prender a mim, literalmente — sua risada era debochada.
— Você não passa de uma criminosa! — o rapaz se esforçava para se soltar, mas em vão —. É assim que prova gostar de mim?
— Gosto tanto que o amarro, assim sempre estaremos juntos —Verônica gargalhava enquanto abraçava o filho —. Além disso, você se tornou uma ameaça na minha vida, sabe de coisas que não deveria saber...
— Não faço ideia do que está dizendo — tentou fingir.
Focando seu olhar em Jonas a estilista pegou na bala que estava pela metade dentro do braço do mesmo, puxando-a com total força a sangue frio sentiu prazer ao escutar o grito de dor do rapaz.
— Você faz... Quer saber? É uma pessoa de sorte. Além de ter uma mãe super amiga ela ainda tem conhecimentos médicos — pegando uma agulha que tinha linha transpassada por ela a mulher continuou sua maldade, possuía no semblante certa satisfação: — Vai arder só um pouquinho...
— Pelo amor de Deus, não faça isso — Jonas derramava lágrimas de angústia.
Dando ponto por ponto na ferida do rapaz Verônica falou:
— Devia ter pensado antes de decidir me desprezar, simplesmente me abandonar... Agora sabe do que sou capaz, agora vai me respeitar! Para que fique bem informado saiba que mantenho um homem trancafiado naquele porão — dando tapas no peito descoberto do jovem a mulher se distanciou —. Tenha um excelente dia. Se tentar chamar a atenção dos empregados eu juro que mato a sua namoradinha de forma lenta e dolorosa...

*

Embora fosse o feriado de dois de novembro a Morgan Modas funcionaria normalmente, a atual situação forçava seus diretores  a tomarem rápidas providências que mudassem as coisas.
Ao pisar em sua empresa Verônica notou preocupação no rosto de cada funcionário, ao adentrar a diretoria teve certeza de que as coisas não estavam bem.
— Foi longe demais ao partir para agressões — Egídio a recebeu.
— Do que está falando? Por que todos estão estranhos?
— Veja você mesmo e tire as suas conclusões.
Ao ter um jornal impresso em mãos a estilista se irou ao ler a manchete de destaque: “De grande dama da sociedade a uma mulher desequilibrada. Agredindo Renata Button, Verônica Morgan nos coloca em indagação – É a decadência da estilista?”.
Sem controle algum sobre as suas emoções a tão admirada mulher rasgava o jornal enquanto jogava as coisas ao chão, além de gritos histéricos que dava sem nenhuma compostura.
— Agora não é hora de enlouquecer — Egídio aumentou a voz pegando a estilista pelos braços e encarando firmemente os seus olhos —. Sabe quantas pessoas terão acesso a isso? Todas do mundo! Sabe o que significa agredir Renata Button? Assinar a própria sentença! Sabe qual a pior consequência? Perder a Morgan Modas por definitivo. Quem vai seguir a moda de uma mulher barraqueira?
— Vocês precisam me ajudar — Verônica tinha o desespero no olhar —. O que eu vou fazer?
— Agradeça aos céus por ainda estarmos aqui.
— Não mais — uma das diretoras tomou a frente de todos —. Acabamos de descobrir que trabalhamos com uma desequilibrada, uma mulher que encara os problemas tendo ataques, como se fosse uma criança mimada. Vamos nos desligar da empresa.
— Não vão não! — a mulher tirou da bolsa o seu revólver —. Vocês vão continuar aqui!
— Não dificulta a situação! — Egídio tomou a arma.
Antes que as coisas se agravassem os diretores deixaram a sala, estava, se afastando de alguém que provou não ser normal.
— O que eu vou fazer?  — a estilista se sentou desconsolada, sem solução —. Qual a chave para tudo isso?
Com as mãos na cabeça por causa da preocupação que o afligia Egídio respondeu:
— Seguir o pensamento daquele moleque, vamos precisar de novidades.
— Tarde demais... Ele não vai mais trabalhar conosco, irá se juntar á Button Modas e combater contra nós.
— Era só o que faltava...
— Tudo culpa daquela desgraçada! — o ódio crescia no coração daquela mulher; desejos fatais a dominavam, desejos mortais.
— Em partes a culpa também é sua... Todo o seu ciúme sufocou o rapaz que está cansado de viver para você, além disso não fomos atenciosos quanto as suas ideias.
— Você não foi! — ela era agressiva ao articular suas palavras —. Você sempre se opôs! Você me fez acreditar que a fórmula era mágica e eterna... Se eu perder a minha empresa será bom que seus olhos se abram, eu sou a pior pessoa que esse mundo poderia ter!

[04 de novembro de 2016]
Renata não conseguia entender o repentino sumiço de seu noivo: ligações não eram atendidas, mensagens não eram respondidas, notícias não eram dadas. Tudo aquilo teve início após Jonas decidir que trabalharia com ela, apenas uma explicação poderia ser dada: planos de Verônica Morgan.
A moça evitava ao máximo ter algum tipo de contato com a rival já que as tristes lembranças do passado afogavam sua alma em mares de dores, lembrar-se da forma como seus pais morreram diante os seus olhos causava um nó na garganta da mulher e todo o sentimento de vingança retomava as forças.
Mas seria necessário, talvez o amor de sua vida estivesse precisando da sua ajuda, ela precisava de respostas. Ao adentrar a empresa concorrente Renata estranhou o fraco movimento de funcionários, seu percurso pelo local fora feito livremente sem qualquer interrupção, bastou apenas sua identificação na portaria. Antes de entrar na sala da mulher que tanto odiava a estilista suspirou fundo, focou suas forças em saber o que havia acontecido com quem tanto amava.
— Onde está Jonas? O que fez com ele?
Surpresa ao notar quem estava perante a sua presença Verônica deu um sorriso provocador e sua resposta:
— Ele é o meu filho, não seu...
— Meu noivo e futuro marido, não seu...
— Já não basta os seus constantes ataques para me derrubar agora vem me importunar pessoalmente?
— Sei muito bem que tipo de mulher é você, conheço bem os sentimentos perversos que reinam sobre a sua alma, tenho certeza de que esse sumiço do Jonas a tem como razão.
— Como pode saber tanto, Renata Button? Como pode ter tanta audácia ao declarar suas certezas? Será que já nos conhecemos? Não tenha medo em se revelar, estou sempre aberta a novas descobertas — o modo como Verônica falava e encarava sua inimiga deixava claro suas desconfianças, e também causava arrepios em quem a ouvia.
Por um momento Renata pensou que fosse a hora de declarar quem realmente era, mas muita coisa poderia ser arriscada.
— Apenas quero saber como está o Jonas...
Revirando os olhos a veterana estilista respondeu:
— Ele é um problema só meu.

— Se eu descobrir que a sua maldade o destruiu eu juro que me vingarei... — pronta para ir embora Renata decidiu deixar um enigma: — A minha vingança será por todas as coisas...

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No próximo capítulo:

— Olá, Renata Button, ou deveria dizer... — sorriu maliciosa —, Renata Morgan?! Veio aceitar as contas? Cobre com juros, querida...

De segunda à sexta, às 19h30!

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