[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 26



Resgate


“Ao resgatar alguém o ser humano prova mais uma virtude: o amor ao próximo. Não existe resgate sem o que salvador arrisque sua própria vida”.

Uma das piores coisas que podem aterrorizar um ser humano é a prisão, a falta da liberdade, a privação de poder ir e vir quando e aonde quiser. As consequências não são apenas físicas, o emocional começa a ser abalado, a pessoa pode entrar um desespero sem fim.
Há quatro dias preso naquele quarto sem sentir o calor do sol, a suavidade do vento e o toque daquela que amava, Jonas passou a se angustiar, um pavor o consumia. Muito se esforçou para conseguir fugir, mas suas mãos já marcadas pelas algemas que o afligiam perdiam as forças, seu vigor já não era mais o mesmo, sua saúde corria riscos.
Não havia outra saída para o rapaz a não ser gritar por socorro, implorar por ajuda. Tal decisão poderia colocar Renata na mira das maldades de sua opressora, mas jurando a si mesmo que defenderia a mulher de sua vida com unhas e dentes colocou para fora todo aquele temor:
— SOCORRO! ALGUÉM?! EU PRECISO DE AJUDA!
Enquanto não o ouvissem ele não pararia.

A única empregada que estava trabalhando aquele dia na mansão se assustou ao ouvir os gritos apavorantes, ela acreditava que não tinha mais ninguém em casa. Na verdade Verônica inventou que o filho havia feito uma viagem ao exterior e proibiu que entrassem em seu quarto, dizendo que o mesmo queria encontrar tudo da forma como deixou.
Apreensiva a moça caminhou pela mansão seguindo a direção da voz agonizada, a qual ela tinha certeza de quem poderiam ser. Ao se aproximar do quarto de Jonas a mulher não teve mais dúvidas.
— O que está acontecendo? — a empregada se assustou quando encontrou o rapaz naquelas condições deploráveis.
— Eu preciso da sua ajuda — o jovem pediu ofegante —. Tente me soltar daqui o mais rápido.
Por mais que tentasse aquela mulher não tinha força o suficiente, todo seu esforço era feito em vão já que apenas uma simples chave guardada pela tenebrosa estilista seria a solução.
— Pegue o meu celular, vou pedir ajuda!

Renata havia acabado de sair da Morgan Modas quando recebeu uma ligação, ver o nome do contato confortou o seu atribulado coração.
— Jonas? Onde você está?
— Preciso da sua ajuda — ele nunca imaginou que um dia suplicaria tantas vezes por ajuda —. Verônica me prendeu nessa casa, venha depressa!
A estilista pensou em ir sozinha, mas logo caiu sobre a sua mente o real perigo da circunstância, ela não conseguiria enfrentar o inimigo sem auxílio.
— Precisamos ser rápidos – na dianteira dos portões da mansão a mulher aconselhou os seus amigos —. Devemos ficar todos juntos o tempo todo, é com Verônica Morgan que vamos brigar.
Logo, com a ajuda da empregada, todos os envolvidos no importante resgate estavam dentro da casa, perante Jonas.
— Como ela foi capaz? — Renata abraçou o noivo, que ainda estava preso —. Como ela pôde ser tão devassa?!
— Ela é cruel — o rapaz mal conseguia manter os olhos abertos —. Preciso sair daqui, preciso que me ajude!
— Pode deixar comigo — Pedro tinha em mãos um alicate de dar inveja aos ferramentistas, presente dos amigos de Ceará —. O pesadelo vai terminar.
Vendo suas mãos soltas e sua liberdade de volta, Jonas abriu um largo sorriso e se entregou ao abraço da noiva.
— Pensei que nunca mais a veria...
— Nunca mais é algo pesado a se dizer... — a mulher acariciava o rosto do rapaz como se fosse o que mais desejava —. De qualquer forma viria atrás de você e o tiraria desse marasmo, não aguentava mais a sua ausência.
— Eu sei que estão há muito tempo se ver, mas precisamos continuar o plano — Jéssica interrompeu o romantismo do casal —. Tem mais gente nesse lugar preso nas garras daquela fútil!
Todos notaram a fraqueza que Jonas sentia, não era para menos, fora mal alimentado. Certos de que Verônica ainda não chegaria pelos próximos minutos decidiram deixar o rapaz na estilosa sala, fácil para que quando tudo estivesse pronto pudessem fugir.

*

No horário do almoço Verônica aproveitou para dar uma saída da Morgan Modas junto de Egídio. A perigosa dupla se dirigiu a um galpão abandonado, escondido do enorme de centro de São Paulo. Naquele lugar aconteciam as reuniões da facção chefiada pela mulher, seus integrantes organizavam o roteiro dos próximos crimes que tinham como objetivo o dinheiro, usando como cenário as agências bancárias.
Adentrando o local a estilista era recebida com gestos de educação por sua soberania. Uma enorme mesa com lugares para quase vinte homens tinha uma cadeira especial para o cabeça do grupo.
— Eu quero saber quanto arrecadamos.
— Pelos assaltos dos últimos dias cinqüenta milhões, com as drogas cem mil — um dos homens respondeu.
— Cem mil? Que miséria é essa? Esse é o valor que costumamos ganhar em cidades menores, e quanto ao resto do país?
— Muitos não pagaram dessa vez, além disso perdemos alguns pontos de encontro.
— Traficantes de merda! — a mulher socou a mesa, sua força era espantosa —. Como querem sobreviver dessa maneira? Não pagaram, matem! Toquem o terror! Mostrem que fazer parte do nosso bando não é como fazer pacto com bandidos esfarrapados, com facções de fundo de quintal!
— Se os matarmos ficaremos sem dinheiro da mesma forma...
— Eu não ouvi isso — disparando contra aquele que a decepcionou Verônica apavorou os demais com suas palavras: — É isso o que acontece com quem não trabalha direito... Cobrem cada usuário imbecil, ameacem como homens de verdade e não como um bando de maricas, eu quero mais que cem mil, muito mais!
— Verônica, tenho uma notícia não muito boa — Egídio mudou o foco da conversa encarando o notebook aberto perante os seus olhos, o computador possuía um ardiloso programa, por ele a estilista tinha acesso a cada canto da mansão.
— O que foi agora? — ela girou a cadeira, bufando.
— Invadiram a sua casa...

*

— A gente tentou mil vezes e até agora nada — Renata começou a se estressar —. Faça um esforço, Letícia e se lembre!
— Eu não consigo... — a modelo fechou os olhos —. A lembrança vem, mas... EAB5639!
A porta secreta do porão se abriu.
Adentrando o lugar escuro cada um pegou o próprio celular para clarear o caminho e encontraram pelos diversos corredores centenas de caixotes, todos guardavam drogas.
Apreensivos seguiam Letícia, que sabia exatamente onde Raul estava.
— Pai? — Pedro não conseguia acreditar que finalmente estava diante daquele que lhe causou tanta saudade.
Ao escutar a voz diferente de quanto fora separado de seu filho Raul se encheu de espanto e alegria, piscava inúmeras vezes para ter certeza de que era um devaneio.
— Pedro? Sou eu mesmo!
O garoto não mais se conteve e correu ao abraço. Ainda com o alicate em mãos arrebentou todas as correntes e sentiu os braços daquele que tanto amava o envolverem com vontade, com força, de todo o sofrimento a saudade fora a mais dolorosa.
— Raul? — Renata se aproximou um tanto acanhada —. Lembra-se de mim?
O velho homem observou com atenção a estilista e respondeu em  tom de pergunta:
— Minha pequena?
Os olhos da mulher libertaram as lágrimas de felicidade, e seu coração se rendeu a um afetuoso abraço.
— É tudo culpa minha — disse no pé do ouvido daquele que a ajudara no passado.
— Nem coloque essa bobagem na sua cabeça, a culpa é daquele coração ambicioso que destrói a qualquer um querendo apenas se dar bem...
— Eu devia ter voltado antes, eu prometi que voltaria...
— E você voltou... No momento certo... Na hora que deveria acontecer.
— Essa mulher o machucou muito? O que ela fez com você? Eu juro que não deixarei barato, eu juro!
— Em resumo foram os piores anos da minha vida, mas eu tive fé de que tudo melhoraria!
— Gente, precisamos sair daqui o quanto antes — Letícia os apressou —. Por essa hora Verônica nunca esteve em casa, mas nunca sabemos o que pode acontecer.
Entusiasmados por tudo estar correndo bem e apressados por recuperarem o tempo perdido com aqueles que amavam, todos foram ágeis em sair dali, precisavam correr contra o relógio.
Ao pisarem na sala a visão não foi das mais agradáveis.
Verônica mantinha Jonas sobre a mira da arma.
— Olá, Renata Button, ou deveria dizer... — sorriu maliciosa —, Renata Morgan?! Veio aceitar as contas? Cobre com juros, querida...


Continua...

~~~~~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

— Insuportável é não ter o que se quer! — sua voz era estridente —. Ao menos consegui fazê-lo sofrer, a mulher que o amava pagou pelo seu erro, e a criança que de nada sabia foi tirada dos seus braços. Apenas lhe restou a dor, a dor de não ter o que se quer!

De segunda à sexta, às 19h30!

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