[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 28



Por Amor


“Por amar muito se faz, muito de sonha, muito se suporta. Por amar também muito se esconde”.

[07 de novembro de 2016]
Verônica Morgan já não era mais a admirada empresária brasileira, dona da marca mais famosa do país, agora sua realidade era resumida às grades de uma prisão, a questão era: quanto tempo duraria aquilo?
Logo que se livrou das garras da pessoa que lhe causava nojo Renata a denunciou para a polícia, relatou toda a sombria história, revelou o cativeiro que ela escondia no porão e as tantas drogas que guardava. Assim que saísse do hospital, o que não demorou muito para o espanto dos médicos, a estilista seria levada para a cadeia, o que ela julgava como ridículo, e de fato era, prisões comuns não conteriam a sua fúria quando ela despertasse.
Sendo empurrada pelos policiais para dentro da penitenciária a ardilosa mulher sorriu, não era um sorriso comum, era um sorriso provocador, ao mesmo tempo em que misterioso, seus planos eram os mais perversos possíveis.
A que se considerava uma importante mulher foi jogada em sua cela como se fosse um alguém insignificante, era tratada da mesma forma como as outras presas. De joelhos sobre o chão e mãos ao pó da terra Verônica libertou um grito que a tanto desejava dar, o som apavorou todos que a ouviam.
— Aqui não é lugar para madames darem chiliques — uma de suas colegas de cela a levantou do chão com grosseria —. Não somos obrigadas a agüentar gritaria.
— Eu faço o que quiser!
Dando um tapa no rosto da estilista a presa esbravejou:
— Quem manda aqui sou eu!
Voltando sua atenção vagarosamente para a sua opressora Verônica revelou seus olhos vermelhos como sangue e reluzentes como o ouro, com apenas uma mão ergueu a rival pelo pescoço e com voz desconfigurada afirmou:
— A cada dia me sinto mais forte e quando realmente minhas forças forem libertadas eu juro que a farei desejar pela morte!

*

Jonas, após ser atingido no peito pelo disparo de Verônica, havia sido levado rapidamente ao hospital. O rapaz era forte, sua alimentação saudável e a vida equilibrada entre o trabalho e os momentos de exercício físico facilitaram a recuperação, logo pela manhã daquela segunda-feira já estava sendo levado de volta para casa.
Descobrir toda a verdade que dele era escondida e ser envenenado pela senhora Morgan encheu o jovem consultor de dúvidas, dentre elas até onde iria a sinceridade dos sentimentos de Renata por si. Tal questionamento o levou a decidir que não queria a aproximação da moça, pelo menos não por alguns dias.
Deitado em sua cama a fim de se recuperar totalmente pelos acontecimentos dos últimos tempos, o rapaz recebeu a companhia de Raul, que queria ter a oportunidade de conquistar o filho.
— Podemos conversar?
— Claro — Jonas se sentou abrindo um sorriso.
— Antes de tudo eu quero que saiba que se eu soubesse de metade da verdade eu lutaria por você até o fim, mas nem ao menos isso aconteceu.
— Não quero que se culpe por nada, tudo o que aconteceu foi uma enorme fatalidade... Verônica sempre foi bastante convincente em seus planos, eu sei que ela o enganou.
— Assim fico mais aliviado — o homem suspirou contente —. O que me entristece é saber que não pude acompanhar o crescimento de nenhum dos meus filhos, a mesma mulher me privou de ambos.
— Meu irmão é o Pedro, certo?
— Sim...
— Pelos poucos minutos que nos vimos no hospital vejo que se tornou um grande homem, motivo de orgulho para você.
— Se está dizendo isso fico mais confortado, ele sentiu muito a minha falta... Mas e você, como tem passado esses anos todos?
Por alguns segundos o rapaz abaixou a cabeça e se manteve em silêncio, como  se estivesse se lembrando do passado. Embora não deixasse que isso fosse posto para fora o jovem consultor sempre sentiu a falta de ter alguém a quem chamar de “pai”.
— Verônica, embora tenha construído sua vida a base do sofrimento alheio, sempre gostou verdadeiramente de mim, mesmo sabendo que suas ações tenham sido para compensar a falta de alguém em sua vida não posso dizer que não fui feliz ao seu lado porque fui, recebi seu amor sincero e toda a sua proteção materna — conforme o desabafo era feito as lágrimas começavam a brotar dos olhos de Jonas pingando sobre sua camiseta —. Mas na época da escola via meus amigos contarem sobre um passeio que haviam feito com o pai, sobre um presente que haviam ganhado, sobre alguma coisa que viveram juntos... Em todos esses momentos eu me perguntava onde está meu pai? A professora perguntava quem era nosso super herói predileto e a maioria dos meninos respondiam com o brilho nos olhos: “Meu pai!”... Sempre pensei que era mesmo adotado então acreditava que o meu pai era diferente, que ele não se importou comigo... Se alguém me perguntasse se meu pai também era meu herói a resposta sempre era: “Meu pai é o vilão”.
Pai e filho derramavam lágrimas, os corações quebrantados pela crueldade de alguém egoísta se desfaleciam em sentimentos de pura tristeza.
— Nunca tive um pai presente nos momentos confusos da adolescência, quando o turbilhão de sentimentos dentro do meu peito me assustava e meu maior desejo era desaparecer desse mundo... Nas horas mais importantes da minha vida, embora Verônica sempre estivesse lá, eu sentia a falta de ter um pai que me dissesse: “Esse é o meu garotão, meu orgulho!”... Mas hoje, pelo simples fato dele estar ouvindo todo o meu lamento sei que se pudesse estaria sempre ao meu lado, para o que eu precisasse.
Raul sempre fora um homem durão, não gostava de demonstrar sentimentos, embora os tivesse, muito menos chorar, já que em sua concepção era demonstração de fraqueza. Porém todas aquelas palavras de dor ditas por alguém que era sangue do seu sangue, carne da sua carne, feriram profundamente o seu peito, as lágrimas eram cada vez mais intensas. Impulsionado pelas tantas emoções que o dominava Raul envolveu Jonas em um abraço apertado, o abraço mais aguardado por toda a vida do rapaz, o abraço paterno.

*

Afastar-se de alguém que tanto se ama é uma das piores decisões que se pode tomar e cumprir, porque quando se ama o que mais se deseja é estar junto, é estar unido.
Embora sofresse com o que Jonas havia decidido Renata respeitava a decisão, pelo menos enquanto o rapaz esteve internado, porém no entardecer daquela segunda-feira, a estilista não mais conteve o seu angustiado coração.
Adentrando a enorme mansão com a autorização dos seguranças a mulher encontrou o dono do seu amor sentado no sofá da sala. Sedenta em ouvir a voz daquele que tanto amava ela se apresentou:
— No hospital você pôde me evitar, mas aqui não — aquela cena já havia sido vivida.
— Renata — o rapaz se surpreendeu —. Não acho que seja uma boa ideia conversarmos, você não confia em mim.
— Pode ser um pouco compreensivo? Pode tentar entender o meu lado?
— Não há o que entender... Você provou não confiar em mim, contou sua história a todos que estavam em sua vida, mas a mim, a quem diz tanto amar, escondeu toda a verdade. Talvez eu precise de um tempo para decidir o que vou fazer nos próximos dias, como sempre digo casamento é algo muito sério.
— Foi por lhe amar que não contei nada — Renata possuía um olhar sincero —. Eu não queria me apaixonar, mas aconteceu, e quando amo alguém sou incapaz de lhe o machucar. Contar toda a verdade seria como lhe agredir. Sempre notei a forma como falava de Verônica, possuía amor no olhar, não poderia simplesmente mudar o seu modo de ver aquela que, ao seu conhecimento, transformou a sua vida. O poupei de confusões maiores, de dúvidas cruéis, por te amar!
— Sempre confiei em você e esperava apenas o mínimo: a reciprocidade — estava irredutível.
— Jonas, eu o amo de verdade, mas fica ao seu critério decidir se me perdoa ou não. Quero que me dê o seu veredicto: manterá a mim em sua vida?
Antes que o rapaz respondesse o celular da estilista tocou, era uma chamada internacional.
— Dona Renata, pode vir aos Estados Unidos?
— Qual o grau de urgência?
— Seu pai veio a óbito e sua mãe pode não agüentar muito tempo.
O choque da notícia destruiu Renata por dentro, sua espontânea reação foi libertar as amargas lágrimas.
— O que houve? — Jonas se preocupou, afinal a amava de qualquer forma.
— Eu preciso ir... Minha mãe está morrendo.

Com a ajuda de Jéssica a estilista arrumava apressadamente suas malas, o vôo de urgência já estava preparado e aconteceria em poucos minutos.
O tocar da campainha interrompeu os afobados passos de Renata pelo apartamento, logo a porta se abriu.

— Também te amo e quero estar sempre ao seu lado — ao lado de Jonas uma mala, estava disposto a viajar com a mulher de sua vida.

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No próximo capítulo:

De cabeça baixa, quando nenhuma nuvem escondia a lua, Verônica sentiu coração acelerar, seu corpo arrepiar e o sangue ferver. As mulheres que com ela dividiam o espaço se preocuparam, mas a preocupação se transformou em pavor quando a estilista ergueu a cabeça mostrando os caninos afiados e os olhos vermelhos como brasa.
— Léia Morgan está morta!

De segunda à sexta, às 19h30!

Lembre-se, nada é tão lógico!

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