[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 30



Transformação


“A transformação nem sempre é algo novo, às vezes é a revelação daquilo que estava oculto”.

[07 de novembro de 2016]
Logo que sepultou seus pais adotivos Renata voltou ao Brasil com as muitas dúvidas que rondavam sua mente, com os muitos enigmas lançados nos últimos tempos, com o poderoso mistério que tomava forma com os recentes acontecimentos. A explicação para tudo o que tinha acontecido seria dada por apenas uma pessoa: Raul.
— Quer dizer que Mary Button mandou que viesse me procurar junto dessas garotas para que eu revelasse toda a história? — o homem que antes possuía uma mal cuidada barba agora tinha o rosto limpo, o semblante cansado pelos anos de prisão agora transmitia contentamento.
— Exatamente isso — Renata respondeu simplesmente.
— Confesso que estou curiosa por saber como essa mulher me conhecia — Jéssica disse.
— Você ainda tinha reconhecimento internacional, já eu não passei de top model de Verônica — Letícia também estranhava tudo aquilo.
— É muito simples — Raul proferia as palavras com certo ar de mistério —. Inacreditável também...
— Então o que é? — o maior desejo de Renata naquele momento era descobrir a verdade, apenas a verdade.
Antes de abrir a boca Raul abaixou a cabeça como se estivesse pensando, retornou à posição anterior e com o brilho no olhar por finalmente poder revelar o segredo de anos começou a dizer:
— Renata, sua família não é comum, não é como as muitas desse mundo, ela é especial, exclusiva, vem do sobrenatural. Mary Button não é uma simples senhora de oitenta anos, ela passou dos cem há muito tempo, beirava os duzentos com certeza, ela é a mais antiga ancestral dos Morgan, seu nome é Léia Morgan!
Achando que aquilo fosse uma piada a estilista deixou que uma gargalhada desacreditada escapasse, enquanto suas modelos se mantinham sérias tentando entender aquilo.
— Não... Não vai querer que eu acredite em uma coisa dessa... Uma pessoa mal sobreviver aos setenta anos, como pode alcançar os duzentos?
— Uma pessoa comum não sobrevive muito tempo, eu concordo com você, mas alguns seres sobrenaturais quando não vivem por um tempo enorme são eternais... — o sorriso daquele homem ainda era de satisfação —. Sua família não é de simples humanos mortais, finalmente chegou o momento de você saber que sua existência não é ao acaso, é de importância extrema.
Começando a aceitar o que ouvia Renata questionou:
— Então o que somos? — ainda assim existiam dúvidas.
— Lobisomens, os únicos sobreviventes.
Tal revelação deixou a todos que a ouviram perplexos, não podiam acreditar que o que não passava de lendas para enganar e divertir pessoas fosse realidade.
— Já somos bem grandinhas para acreditarmos em contos de fadas, não acha? — Letícia indagou.
— Teríamos muita sorte se fosse um conto de fadas, talvez os seus pais não tivessem sido mortos naquele noite — Raul possuía um semblante de vitorioso —. Como sei disso? Porque sei quem os matou. Léia Morgan, a que vocês conheceram por Mary Button, revelou-me cada ponto da história, ela guiou o destino de cada uma de vocês para que hoje estivessem aqui descobrindo a verdade e juntando forças para combaterem a culpada pelos sofrimentos que as afligem. Verônica Morgan também matou os seus pais!
Com lágrimas que tentavam saltar dos olhos Letícia abria e fechava a boca, como se procurasse pelas palavras, mas não as encontrava.
— Quer me dizer que durante esses últimos anos convivi com a assassina dos meus pais? — a modelo não conseguia acreditar, não podia acreditar.
— Sim — Raul respondeu tranquilo.
— Qual foi o motivo desse absurdo? — Renata quis entender os fatos.
— Vamos ao início... — o homem suspirou —. Cada membro legítimo da família Morgan, o que não engloba aqueles que se casaram com alguém da família, são seres sobrenaturais, são lobisomens alfas, os mais poderosos, os que podem formar uma alcatéia que os sigam e combater contra o inimigo. Os anos se passaram, os Morgan ficaram cada vez mais fortes ao ponto de extinguirem as outras linhagens, consideradas ameaças a paz do mundo dos homens. Eis que Verônica Morgan nasceu e como todo família tem sua ovelha-negra ela resolveu garantir o tal papel, mas não de começo, ele se manifestou após o nascimento da que ocuparia o lugar de Alfa dos Alfas: Renata Morgan... Dentro de Verônica nasceu o desejo por possuir essa totalidade, liderar os mais poderosos se tornou um objetivo em sua vida, porém a única maneira seria com o juízo de Léia, que era a principal Alfa dos Morgan... Léia poderia mudar o destino passando os seus poderes a quem quisesse, mas ela nunca passaria por cima do que o futuro ordenou, ainda mais estando um mal coração envolvido... Verônica queria mais que dominar a própria família, com seus poderes dominaria o mundo, mesmo que a força!
— O que meus pais tem haver com isso? — Letícia era dominada por uma raiva descomunal —. Eles não faziam parte dessa família, nunca se envolveram, por que essa injustiça?!
— Todos começaram a rejeitar aquela mulher por seu coração ser dominado por trevas — Raul prosseguiu —, então ela decidiu usar o ponto fraco de cada Morgan: o sofrimento dos inocentes. Mortes em massa eram feitas, mordidas eram distribuídas a fim de que se formasse uma alcatéia que a servisse, sangue fora derramado. Os Morgan enfrentavam uma batalha nunca vista antes... Segundo Léia, o que despertou a sua ira foi o momento em que Verônica Morgan matou os pais de Letícia de maneira cruel, sua decisão foi morder aquela garota indefesa, mas o motivo nunca foi revelado.
— Quer dizer que eu também sou um...
— Lobisomem — o homem afirmou com a cabeça enquanto falava —. A morte dos seus pais foi muito para a Alfa dos Alfas que lutou contra cada mordido, os aniquilando, em seguida tomou a decisão mais difícil de toda a sua vida: bloquear os poderes de todos aqueles que os tinham, inclusive os seus, eles retornariam apenas depois de sua morte, na primeira lua cheia.
— Então na próxima lua cheia nós... — Renata começou o seu raciocínio, mas foi interrompida.
— Serão transformadas, os poderes retornarão e uma guerra entre os de coração puro e os de coração sombrio terá o seu início. Tenho certeza de que Verônica Morgan está ainda mais sedenta por conquistar a totalidade.
— E onde eu entro nisso tudo? — Jéssica se sentia confusa, tentou compreender cada palavra em seu silêncio, mas em vão.
— Léia não me revelou, talvez descubramos juntos o porquê, mas você também será transformada.
— Como faremos para que ninguém se machuque? — Renata indagou —. Sabemos que esses seres são possuídos por uma raiva destruidora, descontrolada.
— Quanto a isso não precisam se preocupar, sou um caçador de lobisomens — com a satisfação no rosto aquele homem se levantou da poltrona —. Eu as ensinarei pelos próximos dias tudo o que precisam aprender — caminhou até a janela do apartamento a fim de observar a lua —. Vingaremos o sangue derramado, as lágrimas sofridas, as dores de tormento. Verônica Morgan pagará da pior maneira possível por tudo o que fez!

Durante todos os dias que antecederam a primeira lua cheia após a morte de Léia, Renata e suas amigas foram instruídas pelo caçador de lobisomens a fim de quando acontecesse a temida transformação elas pudessem controlar o desejo pela caça e assim manterem a consciência humana, além de aprenderem técnicas que as trariam de volta à forma de homem, teriam total controle sobre as transformações posteriores á primeira.
Era uma noite de domingo, a que antecedia a de lua cheia, no mesmo parque em que tudo começara lá estava o casal admirado, observando o brilho do céu em um anoitecer.
— Ficará ao meu lado independente do que possa acontecer nos próximos dias? — recostada sobre o ombro do namorada, sentada no chão, Renata perguntou.
— Claro, sempre ficarei... Por que quer saber?
— Porque nem tudo é como parece ser. Porque verdades podem estar ocultas. Porque sombras de um passado do qual nem ao menos fizemos parte podem nos assombrar...
— O que quer dizer?
— Talvez eu não seja o que todos veem, o que você vê — a estilista encarou os olhos do rapaz —. Eu posso ser diferente.
— O importante é que encontrei em você o que mais desejava: alguém para amar — Jonas entrelaçou seus dedos com os da mulher —. O resto é apenas o resto. Se preciso for luto ao seu lado, é para isso que serve o amor.
Reconfortante ouvir aquelas palavras? Talvez sim, para Renata era um sentimento de alívio, mas ainda assim o medo pelo desconhecido a importunava, mundos novos estavam para chegar.

*

[14 de novembro de 2016]
Finalmente a tão aguardada noite chegou. Quando a lua encontrasse o seu ápice e mostrasse sua grandeza uma nova história passaria a ser escrita. Medo, ansiedade, insegurança, eram sentimentos que acompanharam cada uma das mulheres ao longo do dia, nem mesmo as tarefas do trabalho as distraíram.
— Por que vimos para cá — Renata logo questionou ao avistar a casa abandonada, a mesma usada por Verônica o sequestrá-la.
— Aqui não é uma simples mata esquecida pelo governo — observando o céu com certa preocupação Raul respondeu —, é o campo de batalha, centro de combates entre os grandes alfas de linhagens diferentes, símbolo do horror causado por aqueles de mau coração. Distante da movimentada cidade é o lugar perfeito para que os seus poderes sejam libertos.
— Corremos risco de ferir alguém? — Letícia se atentou —. Estamos preparadas para isso?
— Apenas se lembrem de tudo que as ensinei, qual o domínio sobre a raiva.
— E como você estará seguro? — Jéssica indagou.
— Sou um caçador de lobisomens — o homem recostou a maleta que trazia consigo sobre uma grande pedra e a abriu com um sorriso divertido estampado no rosto revelando armamentos que ali eram guardados —, sei me defender... Para o próprio bem de vocês se controlem, não percam a verdadeira consciência que as rege, ou a dor as enfraquecerá.
— Quer dizer que... — Letícia começou o pensamento.
— Se não nos controlarmos... — Jéssica continuou.
— Irá nos matar? — Renata concluiu de olhos estupefatos.
— Eu não diria matar — Raul pegou uma das armas que como munição descarregava eletricidade —, diria causar uma dor insuportável — voltando os olhos para o céu ordenou: — Fiquem em suas posições, vai começar.
— O que faremos se Verônica aparecer? — a estilista questionou preocupada.
Acionando as funções da intimidadora arma que tinha em mãos o caçador respondeu:
— Lutar!
Cada uma das mulheres se alinhou perante os corpos celestes que enfeitavam o céu escuro e limpo de nuvens. Cada uma com sua própria história, seus próprios medos, seus próprios anseios. Cada uma pronta para viver aquilo que o inexplicável as reservou.
Conforme a lua crescente completava a sua forma uma energia descomunal dominava seus corpos, o sangue começou a correr com maus fulgor pelas veias enquanto seus corações aceleravam no mesmo ritmo. Sentiram que seus sentidos ficavam mais aguçados: a visão era perfeita, notava de longe as imperfeições mais obscuras; o olfato mais sensível sentia o penetrante cheiro da terra; a audição capaz de ouvir a respiração de alguém que não estivesse tão próximo; o gosto de sangue incomodava enquanto até a mais suave brisa era percebida pelas peles.
Em cada uma daquelas mulheres que haviam sido reservadas para serem grandes guerreiras e combaterem o mal, garras afiadas tomaram o lugar das unhas, pelos nunca tidos agora se faziam presente nos corpos femininos, as orelhas tomavam um formato maior e pontiagudo enquanto as narinas ganhavam maior sensibilidade.
Jéssica, antes com os cabelos escuros, agora os possuía claros, os olhos antes verdes adquiriram um amarelo brilhante e os caninos ficaram pontiagudos como espinhos.
Letícia, a sensível garota loira, agora tinha um tom de cabelo avermelhado, os olhos antes azuis agora eram amarelos como o fogo e seus caninos crescidos tinham a ponta fina como agulha.
Renata, a bem sucedida estilista de cabelos castanho-claros agora os possuía em um tom ainda mais forte, seus olhos antes castanhos agora eram coloridos por um vermelho ardente, denunciando o poder de Alfa sobre qualquer Alfa, seus caninos eram afiados como a espada.
Transformadas naquilo que sempre foram, mas nunca souberam ou imaginaram, olharam para a lua e uivaram estridentemente, expulsando os pássaros que dormiam sobre as copas das árvores daquela mata sombria, tornando a lua um corpo cheio de mistério, suspense.
Sedentas por algo que não podiam explicar encararam Raul, que pressentindo o perigo se colocou em posição de luta. Colocando-se diante suas amigas, que eram as chamadas “betas” da alcatéia já formada, Renata uivou com uma verdadeira Alfa, causando arrepios em quem a ouvisse e as fazendo recobrar o domínio próprio. Com total controle sobre o que acontecia declarou:
— Nunca me senti tão forte — sua voz estava mais grave que o habitual.
— É o poder que a você foi confiado — Raul desfez a guarda —. É o poder que destruirá para sempre as sombras do passado.

*

Verônica não tinha noção do tempo, dormia cada noite na expectativa de ser acordada pelo despertar dos seus poderes, mas sempre amanhecia frustrada.
Julgando que a grande noite ainda demoraria alguns dias, a mulher se recostou em um canto da cela, deixando claro que não queria ser incomodada por ninguém. Em certo momento uma tremedeira descomunal a dominou enquanto seu corpo suava frio. Procurando a lua pela pequena janela sentiu seu coração se satisfazer.
Verônica Morgan teve os cabelos ruivos transformados em cinzas como o metal, o sangue que fervia em seu corpo lhe dava sensação de força ímpar, seus olhos agora vermelhos como sangue reluziam como o ouro denunciando o seu poder de Alfa, seus caninos poderosos ao serem exibidos mostravam o poder perfurador. Transformada pela lua cheia sua garganta fez o que há muito tempo desejava: uivou apavorantemente.
Um verdadeiro monstro. Para as que ali estavam era essa a definição para o que viam, seus gritos de desespero irritavam aquela alma sombria, que sem piedade alguma cortou o pescoço de cada uma ferozmente, usando suas garras horripilantemente tortuosas as estrangulou sem ressentimentos. Com um só soco abriu um enorme buraco em uma das paredes da cela e com agilidade invejável fugiu daquele lugar que a aprisionava. Correndo por lugares escuros adentrou a mata, prostrando-se perante a lua soltou um uivo de aviso aos inimigos e tornou a correr como um bicho veloz. Cara a cara com a quem devia respeito usou sua voz grossa para blasfemar:
— Agora vou matá-la!


Continua...

~~~~~~~~~~~~~~
Como eu costumo dizer, nada é tão lógico!

No próximo capítulo:

— O chocar de suas cabeças será música aos meus ouvidos — a grave voz revelou a cruel intenção —. Nunca tive uma batalha tão fácil.

São as últimas semanas!
De segunda à sexta, às 19h30!

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