[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 33



Sombrio Ataque


“Jogar sujo é o que mantém os obscuros jogadores dentro da jogada”.

Rosto pálido. Olhos fechados. Respiração artificial pelos aparelhos conectados em seu corpo. Um verdadeiro estado terminal. Eram essas as condições que mantinham Eduardo na UTI do hospital, sem esperança alguma de vida. Era assim que Jéssica o via diante seus olhos.
— Por que...? — era apenas o que a modelo queria saber, era tudo o que precisava saber.
Essa é a contradição temporal. Olhamos para nós e vemos que temos tanto tempo pela frente, tantas coisas que podemos aproveitar, tanto tempo pela frente, tantas coisas que podemos aproveitar, arriscar, mudar. Mas em questão de segundo todo esse tempo tão longo se torna tão curto, tão já! Ironicamente não há mais tempo algum.
— Foi tempo perdido me prender em tantas inseguranças, nas tantas sombras do passado — enquanto falava as lágrimas escorriam molhando o avental —. Será que terei tempo para ser feliz ao lado de quem sempre amei? Por que não me disse o que estava acontecendo? Por que não revelou a problema de uma vez por todas? Poderia ter me poupado de mias um erro: a demora em aceitar o que sempre quis... — disse tudo aquilo acariciando o rosto do amado.
— Jéssica, precisamos conversar — uma mão pousou sobre o ombro da mulher, era o médico que a levou a um lugar mais reservado —. Ele é o que seu?
O que responder? Talvez o que sempre foi:
— O homem que mais amei...
Sentindo-se comovido pelas palavras e com o sofrimento demonstrado pela modelo o doutor precisou ser firme:
— Lamento em informar, mas todos nós que cuidamos do paciente não acreditamos em sua recuperação, as próximas horas serão as últimas, serão as de despedida.
Como se uma faca atravessasse seu corpo Jéssica chorava amargamente.

“Eram melhores amigos. Divertiam-se e brigavam como irmãos. Os tios já previam um romance, os pais achavam a amizade linda, a mais verdadeira. Cresceram juntos, sonharam juntos, compartilharam medos e anseios, formaram uma cumplicidade invejável. Conheciam um ao outro ao ponto de apenas com o olhar decifrar o que sentiam; ao ponto de decifrarem o mistério que as travessuras infantis são capazes de criar.
Com a adolescência a aproximação se tornou mais íntima, o laço que os unia era ainda mais forte. A ansiedade da fase mais atordoada da vida era dividida entre ambos os jovens, ajudavam-se como unha e carne, eram unidos como imã. Porém as brincadeiras de criança ainda não os deixaram, as tardes de conversas na calçada estavam longe de acabar, a simples companhia um do outro já era o suficiente, completava os corações afobados pelos tantos sentimentos.
Era uma tarde de verão. Embora chovesse o sol encontrava espaço por entre as nuvens a fim de irradiar o seu brilho e aquecer a terra, garoto e garota dançavam sob as pesadas gotas, gargalhavam como crianças, esbanjavam a alegria em viver. Os olhos se fixaram enquanto os corpos pulavam agitados debaixo de chuva. Naquela conexão a menina entendeu o que sentia: já não via mais aquele garoto como um simples amigo ou um irmão de consideração, era bem mais que isso. Era o garoto que se transformaria em homem, o homem da sua vida.
Tímida encontrou coragem e declarou o mais sincero sentimento:
— Eu te amo.
O garoto também sentia algo diferente por aquela menina, algo que balançava o seu coração, algo que lhe despertava o desejo de beijá-la, faltava apenas aquela declaração para que ele realizasse a sua vontade. Com o arco-íris enfeitando o céu mais uma história de amor começava a ser escrita, uma história que seria testada pela vida e que só teria um final feliz se as personagens assim permitissem”.

Aquela lembrança era para Jéssica como uma sombra refrescante, aquela na qual buscamos refúgio de um sol escaldante.

*

Feriado, um belo momento para estar com aqueles que se ama.
— Nunca pensei que fosse namorar alguém que gostasse mesmo de mim — Letícia deixava sua felicidade contagiar a quem estivesse perto —. É a melhor coisa da vida!
— Será mesmo? — Pedro, querendo ser travesso, lambuzou o rosto da garota com o sorvete enquanto gargalhava —. Acho que não...
— Isso não vai ficar assim!
O jovem casal estava em Santos, aproveitando a beleza das praias. Corriam pela beira do mar como dois adolescentes, jogavam-se sobre a água como dois apaixonados, beijavam-se como amantes.
— Melhor dia da minha vida — Letícia repousou a cabeça no ombro do garoto enquanto assistiam sentados
à beira-mar o elegante pôr-do-sol.
— Sabia que embora não nos conheçamos há tanto tempo já a considero como parte de mim? — o moreno declarou seu sentimento —. Nunca imaginei que pudesse gostar de alguém dessa forma, talvez não pudesse demonstrar o que sinto, mas você transformou tudo.
— Também tive a minha vida transformada por você — a loira disse sonhadora —. Vivi ilusões nesses últimos anos e agora vivo algo de verdade, sinto o que nunca senti, uma explosão de satisfação, de alegria, de contentamento!
— Que lindos! — uma terceira e grave voz se fez presente no diálogo enquanto aplausos lentos eram dados —. Pena que eu preciso mudar as coisas...
— Egídio? – a modelo se assustou ao ver aquele homem, logo se pôs em pé —. O que faz aqui?
— Buscar o que minha ama deseja, levar o que a deixará feliz.
Como em um passe de mágica Egídio estava atrás de Pedro, arranhando-o no pescoço fez o rapaz cair desmaiado. Pronta para gritar Letícia teve a boca tapada pelo homem que revelando os seus caninos assustadores e os olhos horripilantemente amarelados ameaçou:
— Por enquanto não o matei, mas não será problema algum.
— O que quer? — a garota perguntou com os olhos lacrimejantes.
— Apenas trazer sombras.
Colocando Pedro em suas costas Egídio saiu correndo com um animal veloz.
A modelo precisava voltar para a casa o quanto antes.

*

— Tem certeza de que vai dar certo? — Jéssica perguntou preocupada enquanto andava depressa pelos corredores do hospital.
— Precisamos acreditar que sim... De qualquer forma irá morrer, podemos ao menos lhe dar a chance de sobreviver — Renata respondeu já afiando os caninos.
— O Raul disse que a mordida pode lhe matar — uma estava incerta quanto à atitude.
— Mas pode lhe curar — a outra era mais segura.
Adentrando a UTI não encontraram Eduardo na maca. Consultando os enfermeiros receberam a mesma resposta: “Não o tiramos de lá”. Só havia uma explicação:
— Mobilizem o hospital todo, ninguém entra e ninguém sai... Podemos estar lidando com um seqüestro! — essa foi a ordem do diretor daquele lugar.
A cada instante Jéssica se irritava mais, o nervosos descontrolado lhe causava aos poucos sua transformação, embora tentasse Renata não conseguia lhe fazer recobrar a consciência, o jeito para esconder aquilo foi jogar a amiga dentro do banheiro. Trancando a porta a estilista viu sua top model completamente transformada, lançando ira pelos olhos amarelo-brilhantes.
— Nervosas com o quê? — Verônica surgiu por trás das mulheres, de forma inesperada —. Ele, por enquanto, está a salvo comigo.
Instintivamente Jéssica se lançou contra a ardilosa mulher, que transformada se defendeu do ataque a contra-atracando ferozmente no estômago, causando-lhe o sangramento pela boca enquanto retomava a forma humana.
— A guerra está apenas começando — velozmente a má criatura desapareceu, fazendo da janela estilhaços de vidro.
Assustada, Renata ajudou Jéssica, que aos poucos se curava do ferimento, a se levantar.
— Precisamos sair daqui.
Entrando juntas no aparamento de Raul elas declaram em uníssono:
— Levaram o Eduardo.
Juntando-se às amigas Letícia declarou:
— E o Pedro.
Sentado em sua poltrona apoiando o queixo nas mãos o sábio caçador sorriu misteriosamente:

— É o ataque sombrio.

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No próximo capítulo:

— Olha pra mim! — a mulher gritou dando um soco na mesa, assustando o sério homem —. Reconhece essa ingênua mulher?
Com a tensão o tomando o diretor tentou abrir a gaveta em que guardava seu revólver, mas em vão.
— É isso o que você quer? — a mulher ergueu uma das mãos mostrando o molho de chaves —. Acho que fui mais esperta — seu sorriso era perverso.

De segunda à sexta, às 19h30!

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