[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 35



Embate


“Embates provocam iras, dores, descontentamentos. Pode resultar na vitória ou na derrota. Nunca foi movido a sorte, se fosse a fala “que vença o melhor” não faria sentido”.

Perder alguém que se tanto ama, seja para a morte ou para as circunstâncias, nunca foi uma tarefa fácil para a humanidade. Uns reagem ao desafio com maior sutileza, outros se afogam em um mar de desespero, a dor sempre existe: branda ou agressora. As almas atribuladas precisam de um refúgio.
Letícia buscou distração no cinema em um dos luxuosos shoppings da rica São Paulo, precisava acreditar que tudo ficaria bem, mas sua mente preocupada não a deixava livre para tal.
Assim que o filme terminou a modelo se dirigiu ao estacionamento do lugar. Enquanto caminhava sentia que alguém a observava com cautela intencionando lhe atacar. Apressando os passos a garota sentiu a presença de algum ser cada vez mais perto. Com a mão na maçaneta da porta, pronta para abri-la, Letícia viu uma mão peluda com garras afiadas encobrir a sua.
— Precisamos conversar — a desconfigurada voz soou, olhos flamejantes a encaravam.
— Pedro?! — a modelo se impressionou —. Onde esteve?
— Acha mesmo que voltei para termos uma romântica conversa? — o garoto ergueu um dos braços deixando as garras visíveis —. Tenho ordens a cumprir — seu olhar malicioso denunciava a intenção.
Se não fosse a garota usar sua força sobrenatural e prender o braço do namorado, que agora também era um lobisomem, teria a garganta simplesmente rasgada.
— O que está fazendo? — indagou incrédula.
— Cansei de ser aquele moleque idiota... Para que ser bom se sendo mau tenho mais privilégios?
— Quem fez isso com você? — Letícia se preocupou.
— Apenas escolhi o caminho mais fácil – como em um passe de mágica Pedro tinha a namorada em suas garras. Levantando-a do chão resolveu a convencer: — Faz ideia do que pode alcançar com todo o seu poder? Faz ideia do quanto dominará a mundo e seus moradores? Sabia que a totalidade pode ser inteiramente sua? Venha ao meu lado e conquiste o impossível! — o olhar era convincente, mas a proposta nojenta.
— Está sendo iludido — a modelo falou com dificuldade, mal conseguia respirar —. Estão o enganando. Acha mesmo que alcançará o poder de Alfa? Ele é cobiçado por aqueles que o dominaram, estão lhe usando para conseguirem o que almejam e, quando alcançarem o objetivo, você não terá serventia alguma, será aniquilado!
— Eu vou conseguir a totalidade e eles morrerão — prendendo-se no olhar de Pedro a loira sentiu que aquele não era o seu modo de olhar, não o do rapaz que conquistara seu coração, que a tinha como namorada —. Como você não quer seguir os meus passos terei que lhe apagar.
Pronto para perfurar a garganta daquela pela qual um dia se apaixonara o garoto foi interrompido por um tiro que o atingiu nas costas. Como um cão ferido ele soltou seu gemido, como uma fera passou por entre os seguranças os atacando, porém tendo o rosto coberto pelo capuz da blusa.
— Você está bem? — um dos homens ajudou Letícia a se levantar —. Como alguém consegue ser tão ágil mesmo depois de um tiro? — não pôde evitar o espanto.
— É o inexplicável — a modelo respondeu ofegante —. Você nunca vai querer entendê-lo. Acredite...

Mesmo após ter treinado Jonas no arco e flecha, Jéssica decidiu passar um tempo a mais na floresta, inexplicavelmente se sentia mais próxima daquele que amou com todas as forças, por quem morreria se preciso fosse.
A noite já havia caído, a lua e as estrelas tentavam irradiar o seu brilho por entre as muitas nuvens, um vento gelado tocava o corpo da moça a arrepiava sua pele. Dentro do carro, com os vidros abertos, navegando por seus pensamentos, a modelo tinha como prioridade encontrar Eduardo e o salvar de quem quer que fosse, mas antes precisava descobrir onde ele poderia estar. Em certo momento passos como de um bicho audaz dados por cima das mesmas folhas mortas de mais cedo tiraram a mulher de seu transe, atenta ao retrovisor notou a sombra de alguém que encarava o seu veículo com olhos amarelos, ardentes como fogo.
— Quem é você? — a mulher se encheu de coragem ao sair do automóvel, em suas mãos estava o seu objeto de guerra.
— Sou alguém — a voz desconhecida soou —. Alguém que procura — aproximando-se mais aquele ser revelou o rosto à luz do luar.
— Eduardo? — Jéssica largou sua arma —. Virou o que também sou? Como foi possível?
— Sim, meu amor, agora somos ainda mais iguais, devemos estar ainda mais juntos!
Com os olhos lacrimejando a modelo correu ao encontro daquele que tanto almejava estar perto, pronta para o abraçar como há muito desejava, mas foi pega de surpresa pelas garras que perfuraram sua barriga logo fazendo um filete de sangue escorrer pelo canto da boca.
— Deixar viver ou exterminar?
— O que está fazendo? — a moça tinha dificuldade ao falar, seus olhos denunciavam a dor que sentia.
— O que já deveria ter feito... Acha mesmo que correria trás de você e a lamberia feito um cachorro quando me perdoasse? Nunca fui esse tipo de homem — aprofundou suas garras na barriga dolorida —, nunca serei!
— Por que está me machucando? Pensei que estivesse mesmo arrependido... — a respiração parecia sofrer algum bloqueio.
— Não seja tão burra — o insulto fora pesado —, quando foi que me viu arrependido? Antes eu não tinha poderes, mas agora tenho, não preciso mais de você, a não ser que esteja disposta a viver por mim...
— O que você quer?
— Quero que me entregue Renata, quero que prepare uma emboscada para que eu a pegue e assim conquiste a totalidade! Esse é o preço para que saia daqui viva, aceita?
— Para com isso, não quero machucá-lo — Jéssica disse entre os dentes, sentia a força da transformação tomar seu corpo.
— Você não pode me machucar, é a mim que ama, não vai conseguir — Eduardo tinha a provocação na voz, provocação tal nunca tida antes.
Transformando-se enraivecidamente a modelo usou sua potente força para arrancar as garras de seu opressor do seu corpo. Encarando-o com os brilhantes olhos amarelos a mulher uivou apavorantemente, assustando os pássaros que tranqüilos dormiam.
— Eu odeio ser enganada — chutando o seu rival com tamanha ira o lançou para longe.
Como um home covarde Eduardo correu floresta dentro, desistia da luta por causa do medo agonizante que o tomou.

Contente pela forma como os negócios iam, Renata junto ao namorado que agora trabalhava na Button Modas, entrou em seu carro, ambos iriam juntos a um dos mais sofisticados restaurantes de São Paulo, queriam descansar o dia de trabalho. Enquanto passavam pela deserta rodovia, que daria acesso ao destino, a estilista indagou:
— Quer dizer que tenho um Arrow* ao meu lado? Sinto-me muito mais protegida.
— Como se precisasse, minha loba — Jonas tirou risadas da noiva —. Sim, aprendi alguns truques com Jéssica e outros com meu pai, nunca é demais conhecer técnicas de sobrevivência.
— Ainda mais quando se vive em um mundo sobrenatural como o nosso.
— Ao menos lutaremos juntos e eu juro que sempre estarei ao seu lado.
Se não fosse a freiada brusca de Renata, o jovem consultor a teria beijado. Diante do carro um corpo estava esticado sobre o chão, parecia ser de um homem, ao seu redor uma poça estava formada.
— Eu vou lá! — Jonas já estava pronto para abrir a porta, mas Renata o interrompeu.
— Fique aqui dentro, eu vou.
— Eu também — o rapaz teimou —. Ele está ensangüentado, deve precisar de ajuda.
— Aquilo não é sangue — a estilista apontou para o próprio nariz, seu aperfeiçoado olfato logo foi capaz de distinguir as intenções da “vítima” —. Cheira a trapaça. Fique aqui.
Aproximando-se cautelosamente daquele que sobre o chão estava a mulher proferiu:
— Não seja covarde e me enfrente como homem!
Dando gargalhadas a criatura se levantou, ainda de costas para Renata soou a grave voz:
— Como conseguiu tanta habilidade em tão pouco tempo?
— Sou a Alfa sobre qualquer ser como você, posso destruir a qualquer um!
— Quanta audácia... Sua autoconfiança me impressiona, sua determinação me diverte...
— O que você quer?
— Ter uma conversa pacífica.
— Mentiu — a mulher fez uso da invejável audição que o sobrenatural lhe concedera —. Seu coração saiu do ritmo.
— Você é esperta — o homem se virou ligeiramente —, mas nem tanto.
Ágil, Egídio golpeou sua presa com força suficiente para arremessá-la sobre o carro e lhe fazer se chocar violentamente contra o chão.
— Acho que Verônica Morgan vai gostar do meu presentinho.
Já transformada Renata se colocou em pé, com tamanha fúria correu ao encontro de seu adversário, erguendo-o com apenas uma das mãos bramou:
— Adoraríamos que estreasse nossa prisão!
Chocando o opressor contra o chão abriu um buraco no asfalto, assustadora fora a sua força.
— Você é forte — sentindo cada osso quebrado se curar Egídio lançou do bolso certo pó sobre sua rival —, mas precisa ser mais esperta!
Sentindo-se enfraquecida Renata tornou à forma humana, desmaiada.
— Verônica que me perdoe, mas não posso deixar essa oportunidade passar.
Pronto para ferir a mulher na garganta o ex-diretor na Morgan Modas foi interrompido por Jonas, que o tinha na mira da arma.
— A bala é de prata. Sei que o mata.
— Olha só para você, um frango — o sombrio ser ironizou ao rir —. Está mais do que na cara sua falta de experiência, acho que não mataria nem uma mosca.
— Você sabe que lhe odeio, sabe que sempre foi uma pedra no meu caminho — o rapaz tinha um olhar furioso —. Sempre se opôs às minhas ideias, colocou Verônica contra mim, fez o meu serviço por menos naquele lugar... Acha mesmo que sou incapaz de atirar em alguém como você?
— Não é um assassino — o parceiro da senhora Morgan tentou usar seu poder de manipulação.
— Até hoje — Jonas se preparou para apertar o gatilho.
Vendo que aquele que sempre subestimou não estava para brincadeiras Egídio resolveu trapacear, colocando Renata como seu escudo proferiu:
— Atire e será ela quem morrerá!
O jovem consultor, agora também guerreiro, não sabia o que fazer, temia errar o alvo, mas não queria deixar aquele homem escapar ileso.
— Sua prisão está pronta, meu filho? — Raul apareceu por trás daquele verdadeiro monstro.
— Quero muito estreá-la — Jonas deu um contente sorriso.
— Dorme, lobinho, quando acordar irá desejar o fim do sofrimento, talvez tire a própria vida!

De onde estava o caçador lançou sua flecha contra o abominável home que não teve tempo para reagir. A ponta do objeto fatal estava infectada por um sonífero capaz de derrubar Egídio logo que o acertasse.

*Arrow (Arqueiro): referência à série de televisão.
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No próximo capítulo:

— Não precisa se envergonhar, não é fácil lutar sozinho — a decadente estilista acariciava o rosto do rapaz, já na forma de homem —. Ao menos mostramos todo o nosso poder, toda a nossa fúria. Nunca serão capazes de nos vencer, é só uma questão de tempo para que o reinado seja apenas nosso... Quem é a alfa mais poderosa?
Erguendo a cabeça para encarar os olhos de sua superiora, o rapaz respondeu convicto:
— Você!
— Apenas eu!

De segunda à sexta, às 19h30!

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