[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 37



Trapaça


“A trapaça, embora inteligente, é uma arma usada por fracos, capaz de ferir os fortes”

O que um pai não faz pelo filho? Se necessário toma atitudes impensáveis, comporta-se de maneira agressora, tudo para que aquele que tem um pouco de si não passe por maus momentos.

“Era uma tarde quente. O vento que soprava sobre a praia era refrescante, o tranquilo mar convidava a um mergulho.
— Pai, posso nadar? — o pequeno garoto de sete anos pediu.
— Tudo bem, meu filho, mas não vá tão longe — o dono do quiosque aconselhou —. Estou de olho — avisou.
Com todo o entusiasmo infantil a criança correu pela areia da praia jogando de lado a camisa e dando gargalhadas ao sentir o toque da água, o tremular das ondas. De onde estava o pai o observava com atenção, via naquele ser o que seria motivo de orgulho mais tarde, imaginava um brilhante futuro.
Enjoado com a parte rasa daquela imensidão de águas o pequeno resolveu se aventurar mais. Destemido, fez o seu mergulho um pouco mais fundo, despercebido foi atingido por uma onda violenta, que o impossibilitou de nadar. Com o desespero já o tomando o menino se debatia, mas em vão.
— Alguém me ajuda! — as palavras saíam enquanto goles de água entravam —. Pai!
Notando que algo errado acontecia o homem saiu em disparada. Perdera muitas pessoas em sua vida, não deixaria que o destino levasse mais alguém que muito amava. Tendo como objetivo salvar o filho, aquele pai lutou contra as ondas até ter a criança em seus braços.
— Não falei para não ir muito longe?! — passado o perigo o homem se preparou paras iniciar a bronca.
— Você é o meu herói! — à beira-mar, com os olhos lacrimejantes, o garoto quebrantou o coração de seu pai —. Agora sei que sempre me ajudará!
Sorrindo tranquilo aquele pai de bom coração envolveu seu bem mais precioso em um forte abraço, querendo dizer: ‘Eu te amo’”.

Observando uma das poucas fotos que tinha do filho quando ainda mais novo, Raul se lembrou daquele episódio, uma discreta lágrima rompeu a barreira que seus olhos criavam molhando o retrato. Levantando-se da cama tendo consigo uma maleta o experiente caçador proferiu entre as quatro paredes:
— Vou agora mesmo lhe salvar!
Abrindo a porta do apartamento Raul se assustou ao se deparar com Letícia, que firmemente o encarava:
— Eu vou com você.
— Como sabia?
— Eu não sei como, apenas sei que sei e você não vai me impedir.
— Conversaremos mais tarde sobre isso — estranhou —. Está certa do que quer? É uma operação arriscada.
— O Pedro não apenas uma parte sua, é minha também — deixando os olhos conquistarem o amarelo brilhante a garota concluiu: — E eu não vou deixar que a história se repita.

A posição do sol no céu indicava que o relógio marcava o meio-dia. Antes de descer do carro o homem perguntou à sua companheira com certa preocupação:
— Está mesmo certa do que fará? Estamos lidando com uma alfa poderosa, capaz de controlar mentes, poucos lobisomens são capazes de tal proeza.
— É tudo o que mais quero... Além de ser o objetivo de Renata manter a paz com os homens, é meu objetivo vingar a morte dos meus pais agora que sei quem é a responsável.
— Lembre-se do que combinamos, sem luta. Vamos apenas conversar e tentar uma maneira de libertar os rapazes.
— Pode confiar em mim — sorriu confiante.
— Ótimo — pronto para descer do veículo o caçador se lembrou de mais uma instrução: — Ela só pode controlar a mente de lobisomens transformados, então se esforce ao máximo.
— E se eu não conseguir?
— Não a encare nos olhos!
Os passos por aquela sangrenta floresta, símbolo da desgraça de muitos inocentes, eram dados sobre total cautela. Armadilhas de tempos antigos ainda poderiam estar escondidas, todo o cuidado ainda era muito pouco.
Raul sabia exatamente onde Verônica podia se esconder, havia ido direto ao ponto. Após quase uma hora de caminhada aqueles que planejavam um resgate estavam perante a tenebrosa caverna.
— Vamos entrar? — a modelo perguntou assustada.
— Se não quiser não precisa — o homem foi compreensivo.
— Já cheguei até aqui, vou até o fim — persistiu.
— Fique atrás de mim — o caçador pegou seu tradicional revólver de choque —. Não saia por nada.
A movimentos quase inaudíveis ambos adentraram o lugar, no qual a luz do sol não passava. O pesado breu obrigou Raul a usar sua lanterna, cada detalhe precisava ser notado.
— Ela está aqui — a garota sussurrou —. Sinto o seu cheiro.
— Sinal de que estamos no caminho certo.
Invadindo ainda mais a caverna puderam notar uma ala iluminada, aproximando-se ouviram a voz da senhora Morgan.
— Sejam bem-vindos à minha humilde residência, desde já peço perdão pela recepção.
Do escuro Eduardo surgiu feito uma fera, se não fosse o escudo que protegia caçador e aliada o rapaz teria alcançado o seu objetivo: extermínio. Sendo lançado ao longe por uma força invisível sua queda assustou até mesmo Verônica.
— Objetos de tramazeira, capazes de deter seres sobrenaturais — Raul disse com desprezo —. Acha mesmo que viria despreparado?
— O que faz aqui? — a mulher se levantou do que seria seu trono, mas não passava de uma cadeira bizarra feita com madeira podre —. Não me importune com filosofias do tipo “use seu poder para o bem” ou “deixe os inocentes em paz”. Eu não me importo com o bem muito menos com os inocentes, eu provoco a ruína! — socando com força o chão Verônica se transformou no monstro que era e uivou com ira tamanha para acelerar os corações dos que ali estavam.
— Eu só quero o meu filho de volta — Raul se colocou em posição de guerra.
— Por que não disse antes? — a descomunal voz grossa soou —. Se é isso o que quer...
— Pai? Letícia? — Pedro saiu do escuro revelando sua presença -. Sabia que viriam!
— É você mesmo? — Letícia indagou desconfiada.
— Claro que sim.
— Não dê ouvidos — o caçador ordenou sussurrando —. Esse não é ele.
— Como pode dizer isso, pai? Não conhece o seu filho o suficiente para distingui-lo?
— Não adianta, Pedro — Verônica possuía um sorriso perverso —. Esqueceu que não se viam há anos? Ele não o conhece, não se importa com você, não o ama!
— Isso não é verdade! — o homem se irou —. Enquanto estive preso naquele porão me lembrei de você todos os dias, procurava maneiras de sair daquele lugar para me reencontrar com você, contar o quanto senti a sua falta.
— Então prove — o garoto pediu entre lágrimas.
— O que quer que eu faça? — Raul se rendeu, esqueceu-se de que a guerra era com trapaceiros.
— Deixe a garota que eu gosto me dar um abraço.
Já pronta para ir ao encontro daquele que lhe despertara diferentes sentimentos Letícia foi barrada pelo braço do caçador.
— Só assim saberemos se é verdade e o que faremos a seguir — a modelo disse tranqüila, convencendo o homem.
Já próxima a Pedro foi surpreendida pelo ataque do jovem lobisomem, que a segurava pelo pescoço com as garras já a mostra.
— Precisa melhoras suas habilidades — o garoto ironizou —, teria sentido o cheiro da trapaça.
— Matar ou não? — Verônica fez a descabível pergunta —. É uma vergonha para a nossa raça ter alguém tão inexperiente.
Transformando-se na raivosa fera Letícia tirou com violência as mãos que a sufocavam, erguendo seu opressor do chão o prensou contra a parede, agora era a sua vez de mostrar o quão “inexperiente” era.
— Você não vai conseguir — Verônica anunciou —. Não pode machucá-lo, o ama.
— Ele não é o Pedro que eu amo — a modelo rosnou lançando o garoto contra o chão, fazendo-o desmaiar pela pancada na cabeça.
Preparada para atacar a rival, a terrível Alfa sentiu a flecha inflamada por Raul se aproximar de sua cabeça. Inacreditavelmente ágil a senhora Morgan se virou, segurando no ar o artefato fatal.
— É sério? — riu descrente —. Arrependa-se!
Furiosa, a ardilosa mulher lançou a flecha contra o caçador, ferindo-o na barriga.
— Agora o assunto é com você — Verônica ameaçou a modelo.
Esperta, Letícia tirou do bolso o pó que guardava e o lançando contra um alguém tão pervertido o fez o correr.
— O pó fatal! — comemorou.
Preocupada com Raul a garota o colocou nas costas e correu em busca da saída. Sobre a iluminada floresta repousou o homem sobre a relva.
— O que eu faço?
— Tire isso de mim — o caçador suava pela dor.
A modelo precisou se esquecer um pouco dos sentimentos humanos e, com força, arrancou aquele objeto do corpo de Raul, fazendo-o gritar estridentemente.
— Você está bem?
— Precisamos ir para casa, tenho que tomar o antídoto.
— E se não tomar? Acho que vai morrer! — Eduardo saiu por entre as árvores, possuindo um olhar cruel.


Continua...

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

— Durante todos esses anos que vivemos juntas já era para estar mais do que claro que não tenho sentimento algum, a não ser os mais horríveis — a perversa começou seu pensamento —. De que me importa o amor se de mim o roubaram? De que me importa a paz se nunca a provei? Como tudo nessa vida tem a sua primeira vez talvez seja o momento para que o mal finalmente derrote o bem, não medirei esforços para trazer eternas sombras a um mundo tão injusto!

São as últimas semanas!
De segunda à sexta, às 19h30!

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