[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 38



Vencido, mas não derrotada


“Uma guerra é feita por batalhas. O vitorioso nem sempre vence todas, mas o suficiente para derrotar seu adversário”

O poder de Verônica era tanto que mesmo de longe ela ainda dominava a mente daqueles que conquistara, bastasse para isso apenas um contato visual, e fatal.
Transformando-se em plena luz do dia, embora que com certa dificuldade, Letícia se colocou à vanguarda de Raul, o homem que lhe ensinara o autocontrole, o único que poderia ajudar naquela guerra contra o mal.
— Acha mesmo que pode contra mim? — Eduardo sentiu as garras rasgarem seus dedos e os caninos aumentarem de tamanho —. Ser ferido por uma insignificante mulher foi muito para o meu orgulho próprio, agora vou mostrar como é que se trata uma dama.
— Vou lhe fazer comer os próprios dentes — ela se irritou com o desaforo.
Pronta para atacar a garota foi interrompida pelo caçador que, com sangue escorrendo pela boca, fez mais um de seus ensinamentos:
— Sozinha você não vai conseguir... Lobo quando precisa se comunicar com sua alcatéia uiva com bravura, você precisa dos seus amigos.
Antes de obedecer a modelo pensou, seria o certo a se fazer? Seria ela incapaz de enfrentar sozinha alguém tão desprezível? A luta não era contra Eduardo, mas sim contra Verônica. Precisava mesmo de ajuda?
Como se lesse os pensamentos daquela que estava diante os seus olhos o rapaz proferiu:
— Ouça a voz da experiência, a menos que queira ser destroçada.
Pedir ajuda nunca foi um gesto de vergonha, mas de humildade por reconhecer a própria fragilidade. Convicta do que faria Letícia uivou contra o céu azulado o suficiente para alvoroçar até os pequeninos insetos da floresta, o suficiente para que a ouvissem.
Aplaudindo contente, como se o que tivesse planejado havia dado certo, Verônica surgiu ao lado de Eduardo, acariciando-lhe o rosto elogiou:
— Sempre tão prestativo.
Incrédula, a garota indagou:
— O pó não teve efeito? Como isso é possível?
— Acho que alguém precisa rever as lições de casa — a assombrosa criatura encarou Raul que sentia os efeitos do veneno na flecha infectada —. Eu, além de Alta, controlo mentes... Acham mesmo que uma simples poeira pode me segurar? Isso é fraqueza de principiantes, de criaturas insignificantes. Para que me derrotem precisam de mais do que um simples pó, precisam ferir o que não veem!
— Por que não desiste dessas atrocidades? Não se cansa de ver tantas pessoas sofrerem? Não acha mais gratificante para a própria existência espalhar a paz e o amor? Por que não se desfaz desse ódio que a envenena mais e mais, que a afunda em melancólicas sombras? Em seu olhar não há prazer, não há felicidade, não há satisfação. A história de toda humanidade sempre foi acompanhada por dois lados: o bem e o mal; o bem, embora que vencido, nunca fora derrotado, levantou-se do pó e instaurou o seu fulgor. Acha mesmo que pode derrotar a bondade que luta contra a sua perversão? — a garota se transformou em uma verdadeira filósofa.
Mantendo-se em silêncio até o fim do discurso de sua rival a desacreditada estilista soltou uma de suas gargalhadas horripilantes como se tudo o que ouvira fosse uma piada, ridicularizando cada palavra.
— Durante todos esses anos que vivemos juntas já era para estar mais do que claro que não tenho sentimento algum, a não ser os mais horríveis — a perversa começou seu pensamento —. De que me importa o amor se de mim o roubaram? De que me importa a paz se nunca a provei? Como tudo nessa vida tem a sua primeira vez talvez seja o momento para que o mal finalmente derrote o bem, não medirei esforços para trazer eternas sombras a um mundo tão injusto!
— Não adianta tentar convencê-la, a crueldade já a domina — virando-se para o rapaz que era mentido em um atormentante transe a modelo tentou salvá-lo: — Eduardo, olhe para mim, foque no que vou te falar. Você não é esse monstro cruel que parece ser, não tem uma mente corrompida, é o homem que ama um alguém especial, é o homem que nesses últimos dias lutou a fim de reconquistar um amor entristecido... Não se deixe vencer por forças de alguém pervertido, seja mais forte do que isso, precisa lutar contra si mesmo, preciso acreditar!
— Poupe-nos de bobagens — o homem declarou frio —. Minha vontade é arrancar cada fio de cabelo da sua cabeça e escrever meu nome em seu rosto com as garras que ganhei, mas será muito melhor vê-la agonizar pela morte de alguém tão querido— apontou com desprezo para Raul.
O caçador estava pálido, suas mãos tremiam e de sua testa escorria o suor da dor. Lutava o máximo que podia para manter o ritmo do coração e a ofegante respiração, esforçava-se por manter os olhos abetos, guerreava pela sobrevivência.
— Raul, meu querido, você sabe que pode se salvar — a voz de Verônica era cercada por suspense —, basta querer!
— Letícia, uive mais uma vez — o pobre homem pediu soando a rouca voz.
Prontamente a modelo obedeceu, precisava salvar aquele que também amava.

Estacionados em frente à caverna na qual Verônica se escondia, Jonas, Renata e Jéssica nada encontraram, julgaram estar enganados quanto ao som de desespero proferido por algum membro da alcatéia que estava em perigo, se não fosse pelo novo uivo desesperado teriam desistido da busca.
Como flashes de visões Jéssica viu Raul recostado sobre uma pedra, tentando dificultosamente sobreviver. Tonta pelas confusões que se formaram em sua mente a modelo preocupou aqueles que com ela estavam.
— Você está bem? — Renata indagou.
A mulher sentiu que não tinha tempo para explicações, tratou de se recompor e saindo do carro anunciou:
— Eu sei onde estão, venha!
— Jonas, fique aqui — a estilista pediu ao noivo —, precisamos de retaguarda.
— Tome cuidado — o jovem consultor mostrou sua preocupação —, e volte bem.
Ambos deram um suave beijo, parecia de despedida.

— Finalmente, o bando reunido! — Verônica se maravilhou ao notar a presença daquelas que esperava.
— O que está acontecendo? — Renata foi áspera ao questionar.
— Vocês caíram na emboscada — estalando os dedos a ardilosa criatura chamou para o seu lado Pedro —. Letícia, acha mesmo que a deixaria sair daqui viva? Você é a isca, e elas o peixe.
Colocando-se em defesa da amiga a Alfa dos alfas ordenou:
— Leve-o para o carro, nós cuidamos da fútil!
Sendo levantado pelos fortes braços da garota Raul aconselhou às outras:
— Não olhem nos olhos dessa mulher estando transformadas, ou elas as dominará...
Reconhecendo que era o carro do filho para onde estava sendo levado o caçador respirou aliviado.
— Trouxe a maleta? — sua voz era quase inaudível.
— Sim. Do que precisa? — o jovem já sabia estava bem preparado.
— Do antídoto!

Encarando a sobrinha com olhos de astúcia Verônica perguntou:
— Não vão se transformar?
— Não vamos cair nessa — Jéssica se colocou ao lado da amiga.
— Não seremos dominadas por alguém tão vil — Renata enfrentou sua inimiga.
— Ataquem-nas!
Transformados nas medonhas feras Pedro e Eduardo correram contra as aparentes desprotegidas mulheres, que se mantinham imóveis com um sorriso nos rostos. Próximos de suas vítimas os rapazes foram barrados por algo invisível, que os lançou ao ar.
— E então, Verônica? Vai nos encarar? — Renata provocou.
— Pó de tramazeira de novo? — a sombria criatura, transformada no que era, soou sua voz grave enquanto revirava os olhos, incrédula —. Pobres iniciantes.
A passos precavidos ela estendeu o braço à sua dianteira enquanto se dirigia às suas opressoras, sentindo o escudo barrar seu avanço o perfurou com fúria, procurando rasgá-lo.

Em pé do lado de fora Jonas mantinha seu olhar na direção em que sua amada havia ido, ansioso por vê-la novamente e senti-la em seus braços. Em certo momento viu como se um raio caísse do céu limpo de nuvens, ágil pulou para dentro do carro, acelerou floresta dentro.

Assustadas pelo que Verônica fora capaz de fazer as mulheres não tiveram reação alguma, não podiam arriscar suas intenções:
— Que a totalidade seja apenas minha!
— Parada! — Jonas tinha em mãos seu revólver, a bala de prata —. Ou será que quer morrer?
Apenas de ouvir o som da voz do rapaz a mulher se enfraqueceu, surpreendentemente aos poucos retomava sua forma humana, desesperada se enfiou na mata em busca de esconderijo.
Do carro Raul a tudo assistiu, sua preocupação nasceu.

— É ele!

~~~~~~~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

— Eu tenho uma surpresa para contar — Jonas se sentou —. É o que desejo desde o primeiro dia em que a vi, é o que venho sonhando.
— E o que seria? — Renata também se sentou, curiosa.
— Nosso casamento está marcado para daqui dois meses! — os olhos do rapaz brilharam com a revelação —. Já está tudo quase pronto, apenas falta você escolher a decoração, fazer a lista de convidados e escolher o vestido...

São as últimas semanas!
De segunda à sexta, às 19h30!

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