[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 44



Proteção


“Cada um tem uma fora de proteger, de defender, de demonstrar preocupação. Não importa, o importante é que se tenha esse sentimento de sempre querer o bem para aquele que se tanto ama”

[28 de novembro de 2016]

“[...]
— Eu vou! — o rapaz insistiu —. Quero lutar ao lado daqueles que amo.
— Eu quero que fique aqui e isso é uma ordem — Raul usou sua autoridade sobre o filho.
— Qual é? Nunca esteve em minha vida, nem ao menos sabia da minha existência, agora quer distribuir ordens?!
Ouvir as duras palavras deixaram o caçador com um semblante de espanto.
[...]”

Raul mal dormira, a cena do último contato que tivera com o filho lhe tirava o sono, um sentimento de culpar por ter sido ausente nascia em seu peito, mesmo sabendo que a escolha não fora sua. Preparando o próprio café da manhã o caçador foi informado pelo interfone que alguém queria lhe visitar, de prontidão autorizou que subissem ao seu apartamento.
Abrindo a porta o homem não conteve o espanto, seus olhos o denunciaram.
— Podemos conversar? — Jonas perguntou, pacífico.
— Entre — Raul deu passagem —. Sinta-se em casa, por favor.
— Gosta de morar sozinho? — o rapaz perguntou notando que não tinha mais ninguém em casa.
— Uma hora, em certo ponto da vida, a solidão é nossa melhor companhia... Mas não moro sozinho, essa noite seu irmão foi dormir com a namorada, sabe como é, estavam morrendo de saudade — riu travesso —, normalmente dividimos o espaço.
— Como foi na luta contra Verônica? Acha mesmo que a venceram definitivamente? — a intenção do jovem consultor era chegar onde realmente queria, por isso puxava assuntos aleatórios.
— Acredito que sim — Raul tomou um gole do líquido quente —, a bala lhe acertou um cheio, seu corpo caiu no meio da floresta sem qualquer sinal vital.
— Não acha que a minha ajuda poderia ter sido útil?
Engolindo um pedaço do pão que acabara de colocar na boca o experiente caçador respondeu:
— É claro que seria, seu talento para a coisa é surpreendente!
— Então por que não me deixou ir com vocês?
— Por que queria ir?
— Pelo fato de estar treinado para isso? — uma indignação se fazia presente na voz de Jonas —. Mas daí simplesmente me deixam de lado como se eu fosse insignificante — reclamou —. Cada um dos envolvidos eram pessoas com as quais eu me importo, pelas quais eu daria o meu próprio sangue se preciso fosse. O meu maior desejo naquele momento era ajudá-los!
— Eu entendo a sua preocupação, mas a luta não envolvia simples homens, mortais, envolvia seres dotados de poderes sobrenaturais que ou controlam mentes ou enxergam o futuro e ainda conseguem se curar dos ferimentos — tomou mais um gole pensando nas próximas palavras —. Meu lado paterno falou mais alto do que qualquer coisa, a minha preocupação como seu pai me impulsionou a tomar aquela decisão. Não quero simplesmente mandar ou desmandar, quero proteger aqueles que a vida afastou de mim, mas que agora me devolveu; temo perder essa chance — seus olhos diziam a verdade.
— Juntos teríamos defendido uns aos outros, não precisava excluir um membro do grupo, senti-me incapaz...
— Essa foi a minha maneira de defendê-lo — o homem já se irritava pela teimosia daquele que tinha seu sangue correndo pelas veias —. Além do mais é você a fraqueza daquela mulher, você a deixava mais fraca, mais vulnerável, a tornava uma presa fácil.
— Mais um motivo para me deixar lutar...
— O que as pessoas fazem com suas fraquezas?
— As escondem... — o rapaz começou a entender o que seu pai queria dizer.
— Ou as manipulam... — dirigiu-se à janela do apartamento que dava visão da movimentada cidade —. Manipular quer dizer dominar interesseiramente. Ela o manipularia, quando menos esperasse se juntaria ao seu caminho perverso, unir-se-ia à causadora do caos na vida daqueles que ama, é assim que funciona o mundo que os mortais não podem ver — voltou os olhos ao filho —. É o que queria para a sua vida? Tornar-se um ser tão cruel quanto Verônica?

“[...]
— Deixe-me transformá-lo em alguém como eu e a Renata ficará em paz.
— Não sei qual pode ser a sua intenção fazendo essa proposta, mas sei que não desistiria tão facilmente de alcançar a totalidade. Não acredito em você.
— Pense bem... Eu  o amo verdadeiramente. Tendo-a ao meu lado me fará satisfeita, não terei motivos para continuar com perseguições, irei para longe na sua companhia, o suficiente para que a sua amada esteja em segurança.
[...]”

Ter aquela lembrança invadindo sua mente Jonas compreendeu tudo, em seu coração o arrependimento lhe fez abraçar o pai com lágrimas nos olhos, com pedidos de desculpa:
— Perdoe-me por aquelas palavras tão duras, ditas sem reflexões... A culpa não foi sua por não termos passado tempo juntos, eu sei disso e já conversamos sobre isso, mas sempre fui impulsivo ao falar, então me perdoe...
Apertando aquele que nunca poderia imaginar que fosse o bebê que a mulher que mais amou em sua vida lhe deu, Raul disse sorrindo:
— Tudo isso foi reflexo das sombras que Verônica colocou em nossas vidas, mas de agora em diante poderemos viver em paz, confiantes uns nos outros, amantes uns dos outros!

*

Era uma manhã quente, o sol aquecia a terra com o seu calor, os pássaros cantarolavam por mais um novo amanhecer. Dormindo como há dias não pudera dormir Letícia foi despertada pela luz do sol que atravessava a janela de vidro e tocava seu rosto. Abrindo os olhos a garota encontrou um sorriso infantil e um olhar travesso a encarando, era um alívio saber que estava ao lado de alguém que tão rapidamente aprendera amar.
— Bom dia, minha princesa.
— Bom dia — a modelo sorriu enquanto esticava o corpo —. Esse foi o melhor bom dia da minha vida, nem acredito que tudo se resolveu — suspirou descansada.
— Mas sim, tudo se resolveu — Pedro passeou as costas da mão no suave rosto da namorada, encantado por sua beleza —. Sofreu muito por minha causa?
— Sofri muito por causa daquela criatura sombria... Saber que o garoto que mais amei corria riscos afligia meu coração, sufocava a minha garganta em um nó — abraçando o namorado e sentindo o calor de seu corpo a modelo prosseguiu com os olhos lacrimejantes —. Confesso que não tinha mais esperanças em contar com o seu abraço, carinho, com a sua atenção.
Saber o quão importante era para alguém tão especial o modelo teve seu coração alimentado por alegria, satisfação. Apertando ainda mais o abraço mais gostoso de sua vida o garoto declarou algo um tanto doloroso:
— Embora não tivesse domínio sobre as minhas ações eu tinha consciência, lembro-me perfeitamente de como a agarrei pelo pescoço, pensei que a causa da sua morte seria a minha mão...
— Nem queira se desculpar, afinal eu o joguei no chão com força suficiente para quebrar seus ossos e não me arrependo, você mereceu — Letícia deu uma gargalhada divertida.
— Eu poderia ter morrido — Pedro forçou um tom dramático —.
— A loba aqui sabia o que estava fazendo — dando um rosnado a garota concluiu: — Seria incapaz de lhe causar um mal maior.
Ainda mais abraçados o jovem casal apenas aproveitava a presença um do outro, escutando o ritmo ordenado dos corações, sentindo a paz que o simples toque de seus corpos era capaz de causar.

*

Andando de mãos dadas pelo parque com aquela pela qual tanto se esforçou para reconquistar Eduardo resolveu quebrar o incômodo silêncio que os acompanhava.
— Parece que finalmente vamos viver a nossa história... Estava pensando e acho que já podemos voltar a morar juntos.
Soltando a mão do rapaz e dando uns passos a frente Jéssica surpreendeu:
— Não acho que seja uma boa ideia. Pelo menos não por enquanto.
— E por que não? Por acaso perdeu o interesse em mim? Ainda não me esforcei o suficiente? — indagou preocupado.
— Não é nada disso...
— Por que está me evitando? — Eduardo voltou os olhos da modelo de encontro aos seus —. Tentei lhe beijar e se afastou, tentei puxar assunto e foi monossilábica. Dessa vez eu não tenho culpa do que aconteceu, tinha uma perversa controlando minhas ações.
— Será mesmo? Será que foi tão dominado assim ao ponto de dizer que nunca foi homem de arrependimento? Eu vi verdade nos seus olhos!
— Mesmo depois de tudo que presenciou ainda é capaz de desconfiar dessa maneira? — Eduardo tentou tocar as mãos de Jéssica, mas esta as recolheu.
— Eu preciso de um tempo, eu preciso pensar, preciso organizar os meus sentimentos. Não posso e nem quero cometer o mesmo erro do passado.
— Já está cometendo em perder tempo novamente com ilusões, com enganos que sua própria mente está lhe causando.

— Se me ama de verdade vai me entender... — chantageou.

~~~~~~~~~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

Cedendo a vontade do Lobo Solitário, Léia usou o que sabia, dando àquele homem a oportunidade de uma vida normal. Virando-se à Verônica a soberana deu seu ultimato:
— Se continuar com suas perversidades serão os seus poderes que bloquearei, por tempo indeterminado!”

Nesta sexta, às 19h30!
É o penúltimo capítulo de Sombras do Passado!

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