[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 45



Nada é tão lógico


“Nem tudo que reluz é ouro, um antigo ditado que nunca deixa de ser atual”

[1950]
<<Floresta dos Alfas>>

“Um frio percorreu a espinha daquele homem que vivia escondendo o rosto do mundo ao saber que alguém tinha ciência do que ele realmente era. Há tanto tempo o segredo fora guardado, deveria permanecer assim por muitos anos ainda.
— Como sabe? Quem contou?
— Agora tenho certeza — Verônica lançou seu sorriso provocador —. Nem ao menos tentou inventar uma mentira, acabou se entregando...
— É perda de tempo querer despistá-la, sei o quanto ardilosa é.
— Tem razão... Minha astúcia é superior a qualquer esperteza — gabou-se —. Além do mais não é tão difícil assim para alguém como eu descobrir a verdade: você se esconde do mundo, vive atrás dessa máscara, pretendia guardar o segredo até quando?
— Como sabe eu sou aquele que pode causar tanto a paz quanto o caos... Quanto menos pessoas souberem melhor para o mundo.
Andando vagarosamente pelo salão da fortaleza em que recebia seus visitantes Verônica declarou:
— Entendo... Seu poder é devastador, destruiu muitos dos corrompidos e feriu alguns dos inocentes, é incontestável a ameaça que representa para os moradores de um mundo tão frágil. Talvez toda essa solidão tenha um propósito: o equilíbrio. Seu desejo é viver tranquilamente, levando uma vida normal e eu posso lhe ajudar.
De fato o Lobo Solitário sonhava com o dia em que seus poderes não representassem perigo, em que o seu total controle sobre as próprias emoções fosse alcançado. Seres como ele eram muito impulsivos, e por isso procuravam a solidão. Interessando em compreender a ideia daquela mulher o homem a indagou suspeitando da sujeira:
— Como seria essa ajuda?
— Simples — sentando-se em uma das poltronas a astuciosa criatura tinha a trapaça no olhar —, união de poderes: o seu com o meu.
— Isso daria a mim toda a liberdade sobre minhas atitudes?
— Mas é claro que sim. Seu domínio se estenderia ao universo, não se restringiria a sua existência, mas a do mundo todo!
A mente do mascarado se clareou, logo desvendou as reais intenções de um plano tão nojento.
— Você quer fazer comigo o que tem feito com todos aqueles que corrompera: possuir a minha mente!
— Isso é você quem está dizendo — seu tom era de deboche —. Se prefere passar a eternidade dos seus dias em uma escuridão sem fim apenas lamento.
— Prefiro terminar o que vim fazer — transformando-se na poderosa fera que morava em si o misterioso homem saltou contra a Alfa Sombria, sufocando-a —. Acabar de uma vez por todas com a sua perversão!
— É tão ruim como eu sou — a sombria mulher se esforçou a fim de proferir cada palavra, chutando seu opressor no estômago o lançou contra uma das pilastras que sustentavam o castelo —. Faríamos uma dupla e tanto!
— Sua mente pervertida nunca será capaz de me corromper — o Lobo Solitário se levantou sem qualquer arranhão, veloz já erguia sua rival pela garganta, impiedoso a jogou contra as paredes —. Não se esqueça que a raiva me torna descontrolado, não hesitarei por matá-la!
Sentindo as dores percorrerem seu corpo a mulher se impressionara pela força de seu adversário, um dos poucos que a atacou com tanta audácia. Disposta a lutar e provar a grandeza de sua força Verônica libertou o ser que a possuía, soltando seu uivo apavorante correu contra o homem, dispensando socos e pontapés. Atendo a cada gesto da inimiga o Lobo Solitário de todos se defendeu, em um contra-ataque surpresa lhe esbofeteou a cara, lançando-a ao longe.
Ferida, sentindo-se humilhada, a perversa alma rosnava enraivecida. Correndo de quatro se lançou contra o rival, pelo pescoço o carregou até uma das paredes, encurralando-o insistia em tomar dele o ar enquanto o arranhava com fúria, procurava o ponto certo naquele forte corpo, o ponto fatal, o ponto da morte.
Cansado de tomar uma surra o misterioso homem reagiu. Torcendo o braço que a sufocava agarrou sai adversária pela garganta, chocando-a contra o chão a sufocava com as duas mãos, enquanto usava as pernas para imobilizá-la. Destroços ao redor eram vistos, uma cena de guerra entre duas poderosíssimas feras, cena de terror.
Verônica não conseguia reagir, parecia lutar contra ela mesmo, seu opressor mostrava ter a mesma força que ela. Sua visão se escurecia, seus órgãos começavam a sentir a falta do oxigênio, sua mente estonteava, uma fraqueza entrava em seu corpo, sua única certeza era a da morte.
Léia Morgan, a benfeitora, a Alfa de todos os lobisomens, a pacificadora, a vigilante da união, do equilíbrio, do bem comum a todos, ao pisar na fortaleza e ver em que situação dois seres da mesma espécie se encontravam encheu-se de ira, a missão da paz falou mais alto, dotada de poderes mágicos ergueu o Lobo Solitário apenas com a força da mente, lançou-o contra o chão querendo dar por encerrada aquela luta.
— Até quando continuará com essa sede por poder? — a pergunta da sábia mulher foi dirigida à Verônica —. Será que não percebe o quão perto está da morte? Será que não percebe que está se afogando em suas próprias sombras?
— Só há um objetivo em minha existência — a ardilosa mulher proferia as palavras com dificuldade, o fôlego ainda lhe faltava —, dominar cada um de vocês, bando de inúteis que não enxergam o tamanho do poder que possuem.
— Nossos poderes são dádivas e devem ser usados apenas para o bem, para a sabedoria, para a proteção do mundo contra mentes corrompidas, corrompidas como a sua!
— Faça o discurso que quiser, ainda almejo ser a maior dentre todos!
— Quanto a você — Léia desistiu de perder tempo com a sombria e se virou ao misterioso homem, já de volta a sua forma humana —, planeja mesmo manchar sua integridade com alguém tão provocativo?
— Já aniquilei a tantos, mais um não faz diferença — respondeu ofegante pela batalha.
— Não se trata de mais um, se trata de alguém que é movido a crueldade, que respira a perversão, matá-la significa cumprir o seu próprio objetivo: instaurar o caos. Um dia ela encontrará o pagamento pelo que comete, ele não deve vir das suas mãos, mas do futuro...
— Eu não quero mais isso para mim — o Lobo Solitário se ajoelhou aos pés daquela que verdadeiramente poderia lhe ajudar —. Não alcanço o controle, jamais o encontrarei,peço que tire de mim esses poderes, apenas assim terei paz.
— Não cometa esse suicídio! — Verônica se indignou com tal decisão —. Se não quer os poderes deixe que eu os tire, os entregue a mim!
— Não dê ouvidos a essa louca! — Léia interveio —. Seus poderes com os dela serão suficientes para combater os meus, ou até vencê-los... Está certo do que deseja?
Desencadeando alguns pensamentos o homem deu sua resposta:
— É tudo que mais desejo!
— Tirá-los completamente é algo impossível ,mas posso bloqueá-los até o dia em que você se concentrar no brilho da lua, sentir a brisa que o cerca e repetir a frase: ‘eu sua frágil arquitetura o caos se arruma...’. Acredita, esse dia vai chegar!
Cedendo a vontade do Lobo Solitário, Léia usou o que sabia, dando àquele homem a oportunidade de uma vida normal. Virando-se à Verônica a soberana deu seu ultimato:
— Se continuar com suas perversidades serão os seus poderes que bloquearei, por tempo indeterminado!”

[29 de novembro de 2016]
Após uma semana intensa de aventuras no mundo sobrenatural e trabalho intenso em seu mundo normal, Jéssica decidira que dormiria até tarde naquele dia de folga, sua intenção era não ser incomodada por ninguém.
— Jéssica, você tem visita — Renata atrapalhou os planos da amiga.
Com a canseira estampada no rosto a modelo se desanimou ainda mais ao encarar os olhos de Eduardo.
— Você?
— Por que tem sido tão fria? Faz ideia do mal que me faz ficar longe da pessoa que tanto amo?
— Se fosse tão ruim assim não teria me abandonado quando estive doente.
— Já conversamos sobre isso e tudo parecia estar entendido.
— Apenas parecia... Eu quero pensar um pouco mais, quero decidir qual é a escolha certa.
— Tudo bem, faça o que quiser, mas quando decidir poderá já ser tarde!
A sós com a amiga Renata tentou lhe abrir os olhos:
— Lembra-se do quanto sofreu por não tê-lo ao lado? Agora que as coisas se resolveram vai mesmo perder tempo com pensamentos bobos? Vai trocar a sua felicidade?
— Eu não quero falar sobre isso.
— Você o ama.
Querendo encerrar o assunto a modelo voltou para o seu quarto. Encarando os próprios olhos pelo espelho disse para si mesmo:
— Nada é tão lógico!

Jéssica Buarque não era o que parecia, a moradia de Verônica Morgan era aquele desprotegido corpo.

~~~~~~~~~~~~~~~~
E amanhã, às 19h30 você não pode perder o último capítulo de Sombras do Passado, serão os momentos decisivos, as escolhas eternas, a mudança de rumos. Os seus personagens prediletos no dilema do passado!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Amar é mudar a alma de casa"

A Brevidade da Vida

Aflições na Alma

Flores aos mortos

Que a gente saiba florir, onde a vida nos plantar!