[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 03



Capítulo 03


Sentindo-se orgulhoso, já se achando o conquistador, Gustavo caminhou com sua nova amiga pelos corredores do Colégio Inova até a movimentada área verde. Pisando tranquilamente pelo chão Gabriela pôde sentir a grama fofa e o perfume das muitas flores que enfeitavam o lugar.
— Aqui é um jardim bem grande — o rapaz comentou —. Possui desde violetas até as mais cheirosas rosas. A gente costuma vir para cá e aproveitar o intervalo, refresca o calor desse verão típico.
— Percebi mesmo — a garota fechou os olhos e se concentrou naquilo que a rodeava —. Parece muito bonito.
— Imagine alguma coisa florida — Gustavo guiou a mão da aluna nova até uma margarida —, colorida, cheia de vida. É assim que enxergamos esse jardim.
Sentindo a textura da flor que apalpava Gabriela deu um novo sorriso, nunca alguém além de seus pais e médicos a descrevera as paisagens do mundo.
— Lorde Gustavo — Isaque se aproximou do casal em tom de brincadeira.
— Gabriela, eu lhe apresento o bobo da corte — o futuro pediatra arrancou risos dos amigos —. Esse é o meu melhor amigo.
— Um verdadeiro irmão, donzela — o mais extrovertido beijou a mão da garota em postura de cavalheirismo, o que claro, causou algo estranho em Gustavo, já sentia ciúme?
— A gente se conhece desde a primeira série.
— E nunca mais nos separamos.
— Um melhor amigo... — a filha do professor de Português refletiu —. Como é ter um amigo assim?
A pergunta pegou os jovens rapazes de surpresa, não sabiam ao certo o que responder, mal conheciam a aluna nova, não queriam causar estranhezas e afastá-la.
— É como ter um diário — a resposta de Isaque foi ainda mais surpreendente aos ouvidos do amigo.
— Um diário? — Gabriela sempre foi bastante curiosa, gostava de explicações um tanto complexas.
— É poder contar tudo o que quiser sem sentir medo de que vão descobrir por algum acaso — Gustavo respondeu.
— Além disso é se meter em muita fria — o garoto deu um sorriso maroto —. Resumindo, é ter um irmão não de sangue, mas de coração, que você sabe que pode contar sempre.
— Se ele não fosse tão sarcástico eu estaria emocionado com tão belas palavras — o filho do biomédico brincou.
— Estamos aqui para isso, lorde Gustavo — riu travesso.
— Realmente, vocês só não são legitimamente chamados de irmãos porque seus pais são diferentes — a garota comentou —. E eu quero parabenizá-los por isso, não é em todo lugar que se encontra uma amizade assim, que honre o significado da palavra.
— Bom, agora que já nos conhece um pouco conte sobre você — Isaque sugeriu.
— Aposto que tem muito que dizer — Gustavo insistiu.
— Nem tanto — ela continuava acariciando a margarida enquanto seu olhar vagueava em direções aleatórias —. Eu era de outra cidade, meu pai sempre teve o sonho de trabalhar aqui, então como ele conseguiu a oportunidade nós viemos para cá. De onde venho não tinha amigos, no máximo colegas que me ajudavam em algumas coisas, mas que não possuíam tanta paciência. Eu não os culpo — abaixou a cabeça, suspirou —, amigos de cega? É um fardo.
—Fardo? — o jovem Gustavo não concordou —. Quem disse isso para você?
— Nem precisam — Gabriela forçou um sorriso –. Eu sei que é. Não quero que tenham pena de mim por isso, eu já me acostumei.
— Não faça um julgamento tão cruel — Isaque começou —. Nos outros lugares talvez não tivesse amigos de verdade, mas aqui pode contar com a gente, estaremos com você.
— Será? — ela custava acreditar em alguém.
— Eu prometo — o futuro pediatra não se acanhou em tocar a mão da garota em um gesto cordial. Sua intenção, a partir daquele momento, era fazê-la feliz.

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A aula voltou.
Com a turma a professora Luciana, de Arte. Era uma mulher morena, alta, de cabelos compridos e sempre trançados, vestia o seu avental branco que guardava nos bolsos alguns pincéis, levava consigo algumas apostilas que descreviam obras dos mais famosos artistas.
— Bom dia, meus queridos — seu jeito era meigo, simpático, conquistava os alunos —. Antes de mais nada preciso dar as boas vindas à nossa nova colega — dirigiu-se até Gabriela que agradeceu o cumprimento —. Enfim, como todos sabem esse é o último ano escolar, cada um de vocês trilhará um caminho, seguirá algum rumo, poderão na estrada da vida se separar — aquela era maior preocupação dos muitos adolescentes, que sabiam que a vida mudaria, sobretudo a de Gustavo, seu desejo era manter aqueles que conquistou ao longo dos anos para sempre em sua vida —. Pensando nisso eu quero proporcionar bons momentos entre vocês, que ficarão guardados em suas memórias, os quais em hora de saudade os confortarão. E para dar início aos projetos anuncio a apresentação de danças!
Um entusiasmo tomou conta da sala, mas alguém logo se sentiu apreensivo, temia não ser uma boa ideia.
— Eu quero que formem casais, um garoto e uma garota, eu mesma os instruirei ao estilo de dança e começaremos os ensaios. Não se preocupem se nunca fizeram algo do tipo, isso é uma escola estamos aqui para aprendermos.
Gustavo não perdeu tempo, aproximou-se do ouvido de Gabriela e fez o convite:
— Aceita ser a minha parceira?
É claro que ela queria participar, tinha sim vontade, porém a insegurança falava mais alto, era mais forte: uma cega dançar?
— Não acho que seja uma boa ideia...
— Só por que não pode ver?
— Isso não é suficiente? Imagina o mico que vai pagar.
— Mico por estar dançando com uma garota bonita? — as palavras simplesmente saíram, pareciam ter vida própria —. Bom... Q-quero dizer...
— Tudo bem, eu aceito — receber um elogio transformou a decisão da garota, para a felicidade do seu admirador que não disse mais nada, apenas sorria feito um bobo, ou como uma criança que ganha o doce predileto.

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Já era de tarde. Em seu quarto Gustavo jogava videogame com Isaque, o jogo era The Walking Dead e provocava diferentes reações nos dois adolescentes.
— Vai me deixar ser o padrinho do casamento? — Isaque, sem tirar os olhos da TV, questionou.
— Casamento? Do que está falando? — Gustavo se esforçava para se livrar das gangs de zumbis.
— Eu já pesquei tudo.
— Droga! — game over —. Agora me explique melhor essa história de casamento.
Deitando na cama com as vistas cansadas o loiro respondeu:
— Você e a aluna nova já são um casal, só falta assumirem isso.
— Acho que está indo longe demais — o de cabelos pretos tomou um gole do suco —. Conhecemo-nos hoje...
— Então admite que se vê como um casal?
— Eu não disse isso...
— Mas também não negou — Isaque era bom em persuadir os outros —. Vai me chamar para o casamento? — riu debochado.
— O bobo da corte não poderia faltar — Gustavo se entregou. Levantando-se da poltrona caminhou até a janela do quarto, observando o céu azulado —. Nunca pensei que fosse gostar de alguém além de Júlia...
— A Júlia só é perfeita, só isso. Qual o garoto que não sonha em ficar com ela? O seu jeito com Gabriela não é a mesma coisa, ver os dois conversando é como assistir aqueles romances cheios de clichês baratos. “Gusbela” — gargalhou —, já shippei!
— Você é apressado — o futuro pediatra jogou uma almofada no amigo —. No fundo tem razão, sinto algo diferente pela aluna nova, uma coisa que nunca senti por ninguém.
— Amor — o travesso sorriu –. Lorde Gustavo, nem só de guerras um homem sobrevive...
— Amor...? – Gustavo riu desacreditado —. Não faço ideia de como demonstrar isso.
Caminhando até o amigo Isaque o segurou pelo ombro, fitando os olhos aconselhou:
— A encare sem medo e diga “eu te amo”.
Ela não enxerga — revirou os olhos.
— Melhor ainda, beije de uma vez.
— Você não presta — riu contido.
— Eu sei... — admitiu —. Escreva, mande cartas, mensagens, mas não revele sua identidade. Um belo dia você, quanto tiver cheio de coragem, assuma quem é.
— Como um admirador secreto?
— Seja mais original e menos clichê em criar o pseudônimo.
— O que sugere?
— Batmam, Spider-man, Ben10. Não são os nomes verdadeiros, logo ninguém os descobre.
— O que acha de Secreto Apaixonado?
— Lorde Gustavo, você não é um detetive — Isaque achou graça da falta de criatividade do velho amigo —. Romântico Anônimo, o que acha?
— Já falei que não vivo sem você? — os verdadeiros irmãos se abraçaram.
— Um lorde precisa de um conselheiro. Acho que estou apto a subir de posição.
Usando uma régua Gustavo encenou a nomeação:
— Conselheiro do Rei!
Esses são os adolescentes. Uma hora tão adultos, mas em outras...

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Gabriela amava os livros, mergulhava nos romances que lia, sentia-se na pele dos personagens favoritos. Passeando com os dedos pelas letras em braile se lembrou de Gustavo, do quanto ele parecia gentil, de como gostou de estar ao seu lado.
— Finalmente, um bom amigo... — o frio na barriga provocou o seu sorriso apaixonado.

No próximo capítulo:

No caminho para o consultório Isaque não disse palavra alguma, a tensão era grande, o medo de que as suspeitas se confirmassem era ainda maior.

De segunda a sexta, às 19h30!

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