[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 04



Capítulo 04


Os melhores amigos Isaque e Gustavo também se reuniam após as aulas para, além de jogarem, estudarem para o vestibular. Enquanto o primeiro sonhava com a faculdade de Engenharia Química o segundo tinha como objetivo se tornar um excelente pediatra, mas para que os sonhos se concretizassem ambos sabiam que seria necessário muito esforço nos estudos. Seus pais não lhes deixavam faltar nada, mas não eram tão ricos ao ponto de conseguirem bancar com escolas tão caras.
— Isaque, seus pais estão aí — Juliana, mãe de Gustavo, informou ao garoto que tinha por alguém das família.
— Ah! É verdade — Isaque se lembrou do compromisso que tinha —. Vou ao médico.
— Médico? — o outro estranhou — Algum problema?
— Nada demais, apenas consulta rotineira — mentiu —. Falamo-nos mais tarde.
— Está certo.

No caminho para o consultório Isaque não disse palavra alguma, a tensão era grande, o medo de que as suspeitas se confirmassem era ainda maior.
— Quer conversar? — Ana, sua mãe, tentou.
— Acho que não — ele precisava de um pouco de silêncio.
— Independente de qual for o resultado, estamos juntos nessa — Marcos, seu pai, temia o que iria acontecer.
Angústia.
O peito do garoto loiro, que insistia em manter os cabelos desgrenhados, era inundado por angústia. O sorriso ainda infantil, dado pelos dentes invejavelmente alinhados, sumira de seu rosto, no lugar um semblante preocupado. Seus olhos que remetiam à cor de uma floresta antes brilhavam, agora estavam ofuscados pelos pensamentos pessimistas. No fundo ele já sabia qual era o seu problema.
— Sejam bem-vindos — o doutor Alair era um homem alto, já velho, que possuía um grande amor pela profissão, recebia os seus pacientes sempre com um alegre sorriso no rosto, mesmo que a conversa que se seguisse fosse delicada.
— Os exames já chegaram? — Isaque logo questionou.
— Sim — o médico tirou da gaveta de sua mesa uma pasta cuja etiqueta grafava o nome do garoto —. Eles estão aqui.
— Já sabe qual é o resultado?— a mãe perguntou apertando as mãos, tentava esconder o nervosismo, mas seu esforço era em vão.
— Na verdade sim — o velho homem mantinha o semblante suave —. Dei uma olhada logo que chegaram, sabia que hoje teríamos consulta por isso nos os importunei.
— E qual é? — Isaque era o mais aflito.
Percebendo o quanto seu paciente estava apreensivo o doutor lançou um olhar para Marcos, que de prontidão entendeu o recado, em um gesto de carinho, de companheirismo, massageou os ombros do filho, querendo dizer que tudo ficaria bem.
— Meu jovem, eu não vou esconder de você a verdade, meu papel é ser o mais transparente possível e indicar aos meus pacientes que podemos juntos e com persistência trilharmos bons caminhos.
Um filete de lágrima escorreu pelo rosto do futuro engenheiro, não aguentava mais tanto suspense.
— Estou com a doença?
— Sim — o médico respondeu com um semblante piedoso. Segurando as mãos do paciente que mais gostava tentou lhe confortar: — Você possui grandes chances de cura, daremos todos nós o nosso melhor, não quero que pense que tudo está acabado, as coisas estão apenas começando e você vai sair dessa.
Com os olhos encharcados Isaque forçou um sorriso, mas suas palavras revelaram o que ele sentia:
— Sabe quantas pessoas ouvem que vão sair dessa? Inúmeras. Sabe quantas acreditam? Todas. Faz ideia de quantos saem? Poucas. Não quero que me iludam, digam de uma vez quanto tempo ainda tenho.
Suspirando, o doutor Alair respondeu:
— Uma vida inteira se acreditar. Como eu disse, há chance de cura, mas preciso da sua ajuda. Preciso que antes de tudo aceite o problema e o encare como mais um desafio dos tantos que a vida lhe porá a enfrentar. Preciso que acredite em suas próprias forças, olhe para frente, lute! É com luta que se vence uma guerra, é acreditando que se conquista.
— Acreditar em minhas próprias forças? Como posso acreditar em mim mesmo sabendo que tem um bicho me destruindo por dentro?! — Isaque levantou a voz —. Não é mais simples dizer você vai morrer, desista de tudo e aguarde pela morte?! Para quê criar esperanças onde elas não podem existir?
— Querido, ouça o doutor, ele sabe o que diz — Ana tentou acalmar o filho, aquele que cuidou com tanto carinho, que viu crescer, dar os primeiros passos, que ajudou a levantar dos primeiros tropeços —. Muitas pessoas conseguem a cura, porque elas acreditam e se esforçam para isso. Você é um guerreiro, desde que esteve dentro de mim eu pude sentir o que estou dizendo, não é uma doença que vai lhe parar.
— Mãe, não se iluda e não tente me iludir — o garoto estava cegado pela angústia —. Não é mais fácil iniciar um processo de desapego ou invés de alimentar esperanças?!
— Não. Não é. Você é o meu filho, farei o impossível para o seu bem, não vou deixar que se entregue!
— Mas se eu quiser não há quem possa me impedir!
— Isaque, entenda, existem tratamentos, medicamentos que enfraquecem a doença, procedimentos que a destroem enquanto ainda há tempo — o médico afirmou —. Vamos ajudá-lo...
— NÃO VÃO! — o garoto estava revoltado, não queria ouvir mais nada —. Não percam tempo e nem dinheiro com o impossível. Eu não vou perder o meu!
— Você vai! — Marcos usou sua autoridade de pai —. Ana, leve-o para o carro, conversarei melhor com o doutor.
Um choro amargo.
Isaque queria entender. Precisava entender. Mas as explicações não vinham. Na vida nem tudo tem explicação, algumas coisas simplesmente acontecem sem ter um motivo, mas tudo o que aparece possui um objetivo, uma conclusão, basta esperar.
No caminho de volta para casa o rapaz apenas alimentou a raiva que crescia em seu peito, não queria viver aquilo, não queria notar olhares de misericórdia com os quais seria visto quando descobrissem o seu problema, não queria receber tapinhas de piedade nas costas, não queria que se preocupassem com ele.
— Filho, vamos conversar... — Ana tentou interromper os passos de Isaque.
— Deixem-me em paz! — furioso, o garoto subiu as escadas, bateu a porta do quarto.
— Ele precisa de um tempo — Marcos, compreensivo, abraçou a mulher que derramava sentidas lágrimas.
— Droga de vida! — o adolescente gritava enquanto lançava ao chão alguns brinquedos que colecionara durante a infância e os livros que sempre guardara com carinho –. Um doente! Um desprezível e miserável doente! Um bicho! Um fardo! — descarregou sua fúria nos lençóis da cama —. Ser visto como um injustiçado? Prefiro a morte! — as palavras rancorosas apenas saíam —. Eu odeio tudo e todos! — prestes a lançar um retrato ao chão Isaque passou a observar a fotografia, ele ainda era pequeno, devia ter uns três anos, seus pais possuíam um belo sorriso, felizes pelo filho que tinham, sempre o amaram, o acolheram em todos os momentos, todos os momentos.
Choroso, ele correu do quarto e buscou o colo dos pais.
— Eu não quero morrer — sua voz estava embargada pelas tantas lágrimas.
— E quem disse em morte? — Ana apertou o filho nos braços.
— Você vai sair dessa — Marcos acariciou a testa do filho —, nós prometemos.

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Assinar bilhetes amorosos como Romântico Anônimo era, aos olhos de Gustavo, uma brilhante ideia, a melhor que seu amigo tivera em anos. Mas um problema surgiu, como a garota conseguiria ler? Logo a solução apareceu.
A Cidade da Paz possuía uma estilosa e atualizada biblioteca, que abrangia um acervo diversificado de livros dos mais diferentes autores, desde nacionais como Machado de Assis até internacionais como Nickolas Sparks. Nela trabalhava Leila, a prima do futuro pediatra, que tinha como função auxiliar os deficientes visuais, dentre os seus serviços estava a responsabilidade em criar fichas para aquelas pessoas, com o auxílio da máquina em braile, a solução para o jovem Gustavo.
— Preciso muito da sua ajuda — o garoto suplicou animado.
— Mas é claro — a moça já tinha os seus vinte e três anos —. Diga o tema e eu recomendo o livro.
— Não é isso, é um pouco mais trabalhoso.
— Como assim? — ficou curiosa.
— Antes preciso que prometa uma coisa.
— Prometer o quê?
— Apenas prometa, confie em mim.
— Tudo bem, eu prometo — revirou os olhos —. Agora diga do que se trata.
— Meus pais não podem saber de jeito nenhum, muito menos o seu tio.
— Pode acabar com o mistério?
— Estou gostando de uma garota — revelou acanhado.
— Que lindo, apaixonou-se! — a moça riu —. Mas o que eu tenho a ver com isso? — cortesia não era muito o seu forte.
— A garota não enxerga — Gustavo ignorou o comentário da prima —, mas eu preciso escrever a ela o que sinto. Aceita me ajudar?
— Mas é claro — Leila riu travessa —. Quem garante que vou escrever exatamente o que diz?
— Ah! É sério que vai me fazer essa desfeita?
— Não se preocupe — ela gostava de zombar o primo —. Esse será mais um dos nossos segredos e eu prometo que serei fiel. Apenas quero uma mesa reservada no casamento — sugeriu irônica.
— Como quiser — o sorriso no rosto do garoto revelava que estava mesmo apaixonado.

No próximo capítulo:

— Ele é perfeito... É uma pena você não poder ver o quanto ele é bonito, charmoso, não acha que seria ruim para ele andar com alguém igual a você?

De segunda a sexta, às 19h30!

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