[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 05



Capítulo 05


Um novo dia começava.
Gustavo acordou bem disposto, para a surpresa dos pais, cantarolando, assoviando, distribuindo sorrisos e “bons dias”, nem parecia a mesma pessoa que no dia anterior levantou tão desanimada e sonolenta. Tanta alegria tinha um motivo, a vontade chegar logo à escola possuía uma razão.
O futuro pediatra, assim que pisou nos corredores do Colégio Inova, correu até um armário especial. Tirando da mochila um envelope discreto o perfumou com o Malbec que levara consigo, passou o papel pelo vão da porta continuou o seu trajeto sorridente até a sala.

Gabriela chegou alguns minutos antes do início da aula, com a ajuda do pai foi até o seu armário pegar algumas coisas, já conhecia o caminho até a sala, por isso Eliseu a deixou ali. Apalpando os objetos que queria a garota percebeu algo diferente, alguma coisa que ela não se lembrava de ter colocado no lugar. Com o teto treinado descobriu o envelope, mais do que depressa o abriu, tendo em mãos um recado sutil:

Apenas queria que soubesse de uma coisa: é a mais bela das garotas dessa escola.
Romântico Anônimo

A filha do professor de Português abriu um sorriso encantador. O que mais a impressionava em tudo aquilo era o fato de autor se preocupar em lhe entregar um bilhete que ela pudesse ler, independente de quem fosse era uma pessoa especial. Com mil pensamentos rondando a jovem mente Gabriela levou o papel ao nariz e sentiu o perfume ali depositado. Para ela, aquilo poderia servir como uma pista de quem seria o seu admirador.

Ao ver aquela que tanto esperava chegar, Gustavo rapidamente tirou a mochila que guardava o lugar da garota e, de prontidão, a ajudou a se sentar.
— Oi... — Gabriela o cumprimentou tímida.
— Como vai? — o garoto perguntou acanhado —. Animada para mais um dia de aula?
— Agora sim — sua resposta poderia estar dizendo muitas coisas, Gustavo começou a alimentar esperanças quanto ao que desejava —. Acredita que deixaram um bilhete no meu armário?
— Sério? — ele queria saber o que ela havia achado da surpresa —. Gostou?
— Amei — a garota ficou levemente corada, o que causou no futuro pediatra algo diferente, novo, uma vontade de tocá-la, de dizer o quanto ela era linda, mas não teve coragem, talvez estivesse avançando demais, preferiu se deixar enfeitiçar pelos olhos azuis que, infelizmente, eram submersos em uma insistente escuridão —. Você acha que alguém poderia gostar de mim?
— Por que não gostaria?
— Sou cega — Gabriela respondeu como se a resposta fosse óbvia.
Gustavo encostou as mãos e, sorrindo, deu sua resposta:
— Só um idiota não gostaria de você.
A garota nada disse, nem precisava, o desenho que seus lábios formaram no rosto já era suficientemente bom para Gustavo. Virando para frente ela ficou pensativa, seu amigo foi o primeiro garoto que lhe teceu um elogio tão eloquente.

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Júlia Siqueira era, como a maioria dos seus colegas diziam, a patricinha do colégio, sabia que sua beleza chamava a atenção e que bastasse uma palavra sua para que qualquer garoto beijasse os seus pés, essa convicção lhe tornava ainda mais arrogante. Exibia os longos cabelos loiros e olhos encantadoramente verdes, todos esses tracejos disfarçavam a ardilosa alma.
Desde que conhecera Gustavo percebeu no rapaz um ótimo pretendente, era bonito, chamava a atenção, além de ser inteligente e uma pessoa querida por aqueles que o conheciam, um namorado que lhe renderia bons comentários. Começou a desejá-lo por puro interesse logo no primeiro encontro, quando por medo da inspetora Zumira ele saiu correndo. Vendo que o garoto não a procuraria mais ela decidiu dar os seus pulos, mas talvez fosse tarde, um obstáculo poderia cruzar o seu caminho.
Aproveitando que aquela que teria por rival estava a sós na área verde do colégio durante o intervalo, Júlia se aproximou de Gabriela, sentando-se ao seu lado.
— Gostando da escola?
— Muito boa — a garota tentava reconhecer aquela voz, mas suas tentativas eram falhas —. Quem é você?
— Sou Júlia, uma grande amiga de Gustavo... E das pessoas? O que tem a dizer?
— São todas legais, tenho sido bem acolhida aqui.
— Que bom... Você é cega, né? — perdeu o senso.
Gabriela não esperava por aquilo, não soube o que dizer.
— Desculpe-me se a ofendi — Júlia fingiu arrependimento —. Achei que não visse problema nisso, não podemos nos envergonhar pelo que somos.
— E eu não me envergonho...
— Eu entendo. É mesmo difícil ser o errado, o diferente — ela não estava disposta em poupar as desprezíveis palavras —. Ah! Desculpe-me de novo... Eu e a minha boca grande.
De fato Gabriela já estava se sentindo desconfortável com aquilo, do que ela menos precisava era de alguém com preconceitos. A arrogante garota logo percebeu que seu plano estava funcionando, abriu um sorriso satisfeito.
— E quanto ao Gustavo? O que tem a dizer?
— Ele é ótimo — sua fala começou a soar secamente, não queria continuar aquela conversa.
— Ele é perfeito... É uma pena você não poder ver o quanto ele é bonito, charmoso, não acha que seria ruim para ele andar com alguém igual a você?
— Igual a mim? Qual o problema comigo?
— É sério que não sabe? – Júlia era cada vez mais arrogante, já Gabriela não encontrou palavras para retrucar, apenas abaixou a cabeça se apegando em sua bengala —. Preciso ir... Foi bom conhecê-la... Mas pense no que eu falei, o Gustavo é perfeito, mas você tem algum defeito.

Durante todo o acontecido o futuro pediatra esteve na fila da cantina aproveitando para ligar a Isaque, que sem avisar faltara a aula e agora não atendia as ligações. Com dois lanches em mãos o garoto voltou a se sentar com aquela que o cativava, percebendo em seu rosto alguma preocupação.
— Aconteceu alguma coisa? — ele entregou o lanche —. Fizeram alguma coisa para você?
— Não é nada...
— Por que será que não estou acreditando? Não confia em mim? — insistiu.
A garota suspirou, não sabia se seria uma boa ideia desabafar o que aconteceu, mas talvez fosse necessário ouvir do próprio amigo o que ele achava dela.
— Você é perfeito. Eu não.
— O que quer dizer? — estranhou — Perfeito ninguém é.
— Você é bonito, pode conquistar a quem for, mas não comigo por perto, uma simples cega.
— Quem falou isso?
— Não é o caso — escondeu a verdade –. Queria saber o que estava acontecendo, não queria? Agora que já sabe eu vou andar por aí...
Já em pé Gabriela sentiu Gustavo pegá-la pelo braço fazendo-a se sentar novamente, dando as mãos o garoto declarou:
— Eu não me importo com o que as pessoas são ou deixam se ser, se eu gosto delas é claro que as manterei por perto. A opinião alheia nunca me interessou. Eu quero ser seu amigo, independente das diferenças e dificuldades, mas e você? Quer ser minha amiga?
A garota não se conteve mais, aquelas foram as melhores palavras que ouvira, do seu modo tímido e receoso abraçou o novo amigo, começava ali uma cumplicidade, um sentimento mútuo.
Mas a cena não agrava a todos, de longe Júlia assistiu a tudo, sentindo um nervoso no peito. Ela não gostava de Gustavo pela boa pessoa que era, mas sim pela beleza e pelo status que teria.

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Isaque acordou naquele dia sentindo um cansaço pesado, um desânimo angustiante, preferiu ficar em casa e passar toda a manhã trancado em seu quarto, deixando as lágrimas de dúvidas e incertezas rolarem, tentava entender o porquê de tudo aquilo.
— Leucemia... — reclamou consigo mesmo — Câncer... Um doente... Que serventia eu vou ter?
Ele não acreditava que poderia sair daquele problema, não via esperança, infelizmente acreditava que aquilo traria o seu fim. Como muitas outras pessoas, estava se entregando ao próprio sofrimento.
— Filho — Ana bateu na porta —, você tem visita.
— Mande embora! — o garoto tentou disfarçar a voz embargada pelo choro.
— Ou abre a porta ou eu arrombo! — era Gustavo.
“Alguém para zombar. Alguém para sentir pena. Alguém para humilhar”. Isaque se esqueceu que aquele era o seu melhor amigo e que não faria nada do que ele pensava. Resolveu abrir a porta, mas correu de volta à cama escondendo o rosto no travesseiro.
— Filho... Para com isso... É o Gustavo.
— Eu não sou surdo! — seu jeito grosseiro estava sendo algo novo —. E não sei por que veio, não devia perder tempo.
— Podemos conversar a sós? — Gustavo pediu.
— Claro — Ana fazia força contra as lágrimas.
Sentando-se ao lado do amigo o futuro pediatra tirou o travesseiro que escondia o rosto do entristecido garoto, queria entender o que acontecia.
— Vai me dizer por que está desse jeito? Faltou e nem me avisou...
— Se eu fosse você procurava outro amigo, não perderia o meu tempo.
— Se eu quisesse outro amigo não estaria aqui agora... O que está acontecendo? Qual é o problema?
Isaque, antes que pudesse responder, deixou as lágrimas rolarem, aquilo afligia o seu peito, parecia sufocar sua alma.
— Eu estou doente... — abaixou a cabeça — Eu tenho câncer.
Aquilo foi um choque para o mais novo.

No próximo capítulo:

— Mas é o que pareceu! Sabe de uma coisa? Vá lá perder tempo com aquela ceda, uma defeituosa! — na hora da raiva é difícil encontrar alguém que se controle, no entanto algumas coisas não deveriam ser ditas, podem marcar para sempre.

De segunda a sexta, às 19h30!

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