[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 09



Capítulo 09


Deitado na maca do hospital em um dos tantos quartos Isaque era monitorado pelos aparelhos ligados ao seu corpo enquanto recebia o soro. Dormindo, exausto pela situação, era acompanhado por seus pais, que aflitos se abraçavam, aguardavam ansiosos pelo momento em que o filho querido abrisse os olhos. Junto deles estava Gustavo, era considerado um membro daquela família, seu papel era estar ali, em um momento tão difícil.
— Precisamos dar início ao tratamento — logo que recebeu as informações sobre o que aconteceu com seu paciente o doutor Alair se colocou a caminho, a saúde do adolescente era algo muito importante ao bom médico — Ele queira ou não.
— Eu concordo — Marcos, o pai, afirmou —. Ele precisa acreditar que pode sair dessa.
Angustiada, Ana se aproximou do filho acariciando sua testa, depositou ali um beijo cheio de carinho, proteção, um beijo de mãe.
Isaque despertou com a cabeça tonta. Percebendo o que acontecia não poupou a irritação.
— Não precisava de nada disso! Eu estou bem! — tentou se levantar, mas não conseguiu.
— Você desmaiou! — o médico começou sua fala — Será que agora vai entender a gravidade do problema e nos ajudar a ajudá-lo? Sabe que agora a sua capacidade tem um limite e dele você não pode passar.
— Está querendo dizer que agora sou um incapaz? Estão querendo me convencer de que sou um doente? Eu posso fazer o que eu quiser do jeito que eu quiser! — o desabafo era cheio de ira.
— Não mais! — Marcos queria que o rapaz entendesse os fatos — Ninguém aqui o chamou de inválido e nem de doente, apenas queremos que entenda de uma vez que a vida lhe impôs um desafio, um difícil desafio, o qual você não vencerá sem ajuda!
— E esse desafio veio acompanhado de limites, ultrapassá-los poderia prejudicar a si próprio — Ana completou ternamente.
— Querem saber de uma coisa? Deixem-me morrer em paz! — a falta de esperança cresceu mais uma vez — SAIAM DAQUI!
— Filho... — a mãe tentou continuar o diálogo, mas foi interrompida.
— SAI! — o garoto colocou as mãos no rosto querendo esconder as lágrimas que caíam — Saiam todos vocês!
O quarto se esvaziou, mas Gustavo que até então se manteve calado não atendeu ao pedido do amigo, continuou ali e continuaria por quanto tempo conseguisse.
— Eu falei para sair — Isaque abaixou o tom de voz —. Por favor, deixe-me sozinho...
— Você não precisa provar nada a ninguém — o futuro pediatra se aproximou do desesperançoso jovem —. Quis correr feito um louco para mostrar que pode, que nada o para, mas sua atitude foi ridícula.
— Eu posso...
— Você não pode se não tiver ajuda.
— Não perca o seu tempo, siga a sua vida e convença os outros a me deixarem morrer, esse é o desfecho, o fim.
— Acha justo com todos nós que nos importamos com você perdê-lo? Chorarmos a sua morte? Faz ideia do susto que nos deu? Consegue imaginar o quanto fiquei preocupado ao ver o meu melhor amigo, aquele que conheço desde que me entendo por gente, aquele que sabe coisas sobre mim que nem meus pais sabem, esticado sobre o chão? Aparentemente sem vida? — os olhos de Gustavo se encheram d’água — Acha justo nos ver querendo ajudá-lo, querendo apoiá-lo, enquanto recebemos o seu “não”?!
— Por que tem que ser assim? — Isaque não pôde mais conter o choro angustiado, um choro desesperado por segurança —. Por que comigo? Tudo estava tão bem, tão certo...
— Há males que vêm para bem, no futuro as respostas virão, as explicações surgirão, mas para que o amanhã chegue você precisa se ajudar no hoje.
— Eu não consigo acreditar em soluções — o garoto abaixou a cabeça, as lágrimas pingavam sobre a roupa, molhavam o lençol que o cobria —. Eu não consigo vê-las...
— Mas eu, o seu médico e os seus pais conseguimos e acreditamos que a solução existe, que a conclusão para esse desafio será a melhor de todas — Gustavo não diria, mas ver aquele que era um verdadeiro irmão tão abatido o entristecia como nada o entristecera —. Estamos todos com você — precisou abrir os braços e acolher o amigo —. Eu, o seu lorde, estou com você e juntos vamos sair dessa! Acredite em mim, acredite em você, prove a todos nós que você consegue vencer os desafios, os obstáculos da vida.

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Júlia não era garota de desistir logo no primeiro problema de alguma coisa que tanto queria, ela não tinha desistido de conquistar Gustavo, atraí-lo com o seu charme, seduzi-lo com suas palavras que poderiam ser dóceis, mas que tornariam amargas com o tempo. Como parte do plano, a garota decidiu que se aproximaria de Gabriela, conquistaria a confiança da garota, ou menos tentaria, e no final a colocaria contra o rapaz desejado.
Era o fim da tarde, nuvens começavam a tomar conta do céu, nuvens de tempestade, quando Gabriela foi surpreendida por uma visita inesperada.
— O que deseja? — recebeu Júlia em seu quarto.
— Uma reconciliação.
— Reconciliação? — ela não era guardar mágoas ou ressentimentos, não entendeu o que sua visitante quis dizer.
— Não começamos a nossa relação muito bem, acho que poderíamos recomeçá-la — aproveitando que sai ouvinte não enxergava a astuta garota revirava os olhos, debochava livremente —. Isto é, se você aceitar.
Embora não fosse de alimentar raivas, a amiga de Gustavo também não tinha memória fraca, lembrava-se dos ácidos comentários que recebera de Júlia, mas seu bom coração, sempre pronto a perdoar, decidiu que o melhor era dar uma nova chance àquela que a ofendera.
— Tudo bem — Gabriela abriu um discreto sorriso —. Aliás, nem precisava se desculpar, eu já não me lembrava do que aconteceu.
— Mas eu lembro todas as noites antes de dormir, não sabe como me sinto enojada com isso — aquele arrependimento não passava de cena.
— Então agora que sabe que não possuo nenhuma mágoa pode voltar a dormir sossegada — a inocência da jovem adolescente divertia sua rival.
— Só vou ficar realmente tranquila se você aceitar sair comigo agora.
— Sair com você? Não acho que seja uma boa ideia.
— Por favor, aceite — Júlia pegou na mão daquela que tinha por adversária —. Faça isso e prove que me desculpou de verdade. Não deixe essa culpa continuar me importunando.
Acreditando que era a única que poderia fazer a paz voltar naquela que aparentava desejar uma amizade, Gabriela por fim aceitou o convite, mesmo algo lhe dizendo que não era a decisão certa.

— Onde estamos? — a garota se guiava com a bengala enquanto tentava acompanhar Júlia, que propositalmente apertava os passos.
— No parque — bufou, sair com uma cega, em suas palavras, era o maior sacrifício que fazia.
— Venta forte — na verdade uma tempestade se aproximava.
— Bem forte — tudo que percebia Gabriela comentava, aquilo irritava a garota interesseira.
— É trovão? — ouviu o estrondo.
— Qual é? Tudo que nota você precisa falar? — Júlia perdeu a paciência — Desculpe, eu só estou um pouco nervosa.
A garota nada retrucou, agora tinha certeza de que aceitar o convite foi um grave erro.
Os trovões estavam mais intensos, as rajadas de vento mais fortes, as nuvens se enegreciam cada vez mais, alguns discretos pingos já tocavam a terra. Tudo perfeito para o plano de Júlia, que fingindo ter recebido uma ligação anunciou:
— Você vai ter que me desculpar mais essa vez, aconteceu um imprevisto — beijou o rosto de Gabriela em um gesto de despedida —, eu preciso ir!
A garota dos olhos azuis tentou, mas não teve tempo para pedir que sua “companheira” ao menos ligasse para alguém, já que estava sem celular. Sem saber o que fazer decidiu ficar no banco que já estava, sentada, na esperança de que algum conhecido a encontrasse. Poucos minutos depois a jovem adolescente percebeu que as pessoas ao seu redor estavam eufóricas, apertavam os passos como se estivessem fugindo de algo, de fato estavam fugindo da chuva, que chegou da maneira como anunciava.

<<>> 

Quando ia embora do hospital Gustavo se assustou com o tempo fechado, temendo se arriscar na tempestade que a qualquer momento chegaria ligou à sua mãe, que logo o buscou.
A chuva era pesada, o limpador de pára-brisa dos carros mal dava conta, enquanto raios pareciam rasgar o céu, atravessar as nuvens, e trovões soavam seu potente som. Observando as calçadas alagas o futuro pediatra notou uma garota encolhida, tentando se proteger da tempestade na fachada do Parque da Cidade. Forçando as vistas não pôde acreditar no que descobrira.
— Mãe, para! — o garoto abriu a porta, sem se importar com a chuva pulou para fora do carro, correu ao encontro daquela pela qual era apaixonado.

Gabriela chorava. Desde criança tivera medo de tempestades, mas naquela tarde a apreensão era maior: não sabia onde estava, não conseguia fazer ideia de como voltaria para casa, todo o receio se manifestou nas lágrimas, no choro, quebrantando o peito do seu amigo.
— Eu estou aqui — ouvir a voz de Gustavo foi reconfortante —. Venha comigo — o garoto a envolveu em um dos braços ajudando-a a se levantar.
Entrou junto da garota no banco traseiro do carro, ela soluçava por causa do medo, ele não pôde se conter, teve que abraçá-la e, além de depositar um beijo em sua testa, dizer:
— Está tudo bem, meu amor...

No próximo capítulo:

— Mas não é tão fácil — Gustavo resolveu revelar seus anseios à sua mãe —. Eu sinto algo diferente por ela desde o dia em que a vi, mas não consigo dizer a verdade, parece que minha garganta se fecha e as palavras não surgem... Eu sei que a amo, eu sinto isso, sinto a vontade de protegê-la, de ser os seus olhos, mas não vejo caminhos que me façam chegar ao meu objetivo.

De segunda a sexta, às 19h30!

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