[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 10



Capítulo 10


Se ouvira a última fala de Gustavo, Gabriela não dissera, apenas se manteve no abraço do garoto, sendo aquecida pelo calor que emanava do corpo aconchegante, enquanto seus olhos fechados derramavam sentidas lágrimas, ela não conseguia acreditar que as pessoas pudessem ser tão más.
O garoto, por sua vez, preferiu não se incomodar pela fala espontânea, que simplesmente fora dita, optou em manter aquele que abraço que o fazia se sentir importante, protetor, que o fazia se sentir o que mais queria: ser o namorado da garota dos olhos azuis, que lembravam também a imensidão do céu.
A menina tremia, era o frio que a incomodava, a situação só não era mais difícil por causa da boca companhia ao seu lado.
— O que aconteceu? — o rapaz indagou —. Por que saiu sozinha? Poderia ter falado comigo...
— Eu não queria sair... — presa na eterna escuridão que envolvia os seus olhos, Gabriela se sentou melhor, afastando-se do corpo em que sua cabeça repousara —. Mas não tive escolha.
— Por quê? — ele queria saber, precisava saber.
— Júlia insistiu bastante, disse que queria se aproximar, criar uma amizade, se redimir.
— Redimir-se sobre o quê?
Até aquele dia a garota conseguira esconder, mas naquela hora teve que revelar a dolorosa verdade:
— Ela disse que eu deveria me afastar de você, disse que é um garoto lindo, perfeito e que ter a companhia de uma defeituosa como eu pode ser ruim para a sua imagem.
— Eu não acredito nisso — Gustavo passou as mãos pelo rosto, transtornado por aquilo que ouvira —. Por que não me contou antes?
— Porque eu sabia que iria ficar chateado – ela percebeu o tom de voz do amigo e, repousando a mão sobre sua perna, disse: — Mas não precisa se preocupar, eu sei que você não é assim, que possui um coração nobre, não vou me importar com os comentários de ignorantes.
Em outras palavras ela queria dizer que não tinha problema quanto ao que sofresse, apenas não queria que Gustavo se preocupasse com ela, ou que comprasse suas brigas. O rapaz entendeu aquilo, ainda mais maravilhado observou por longos segundos o rosto suave da que para ele era a mais linda garota, precisava se declarar, desejava revelar o que sentia, mas lhe faltava a coragem.
Do retrovisor a mãe do garoto percebeu o clima, não queria intimidar os jovens, preferiu o silêncio do seu sorriso bobo de mãe coruja.

Após deixarem a especial garota em sua casa Juliana começou as provocações:
— Está tudo bem, meu amor — repetiu as palavras do filho em meio as risadas —. Foi muito fofinho.
— Vai começar — o garoto revirou os olhos sentindo suas bochechas arderem de vergonha.
— Não precisa ficar tímido, meu querido — sem tirar os olhos da avenida a mulher conversava com aquele que conhecia até mesmo no escuro —. Não há motivos para se envergonhar quanto ao amor. Ele existe e deve ser sentido, compartilhado, abrasado.
— Mas não é tão fácil — Gustavo resolveu revelar seus anseios à sua mãe —. Eu sinto algo diferente por ela desde o dia em que a vi, mas não consigo dizer a verdade, parece que minha garganta se fecha e as palavras não surgem... Eu sei que a amo, eu sinto isso, sinto a vontade de protegê-la, de ser os seus olhos, mas não vejo caminhos que me façam chegar ao meu objetivo.
— Ah! O primeiro amor é cheio de tantas ansiedades e intensidades — Juliana suspirou apaixonada, nostálgica —, essa é a beleza da vida. Não tenha pressa, meu filho, no tempo certo o que tem que acontecer acontece, a nossa parte é lutar para que as coisas aconteçam. E se isso for animá-lo saiba que ela também gosta de você, talvez esteja confusa pelas muitas dúvidas que cercam sua mente, mas seu sei que seu coração balança com a sua companhia.
O garoto deu um sorriso de entusiasmo, ao se olhar no retrovisor percebeu algo diferente em seu rosto, algo que surgiu no simples ato de pensar naquela que aos seus olhos era a mais perfeita das garotas.

Desde que chegara em casa e se trocara, Gabriela optou pelo silêncio do seu quarto, deitou-se na cama enquanto pensava em tudo o que acontecera, chegou a se culpar por ter confiado em alguém que não deveria, mas como seus pais diziam que faz o bem não tem o que perder, só perdem aqueles que não sabem aproveitar a nossa sinceridade e bondade.
Mas algo ainda mais importante sondava a sua mente, algo que a fazia sentir as pernas bambearem e uma ansiedade pulsar em seu peito.
“Está tudo bem, meu amor”.
Seria apenas o jeito carinhoso de Gustavo para tratá-la ou será que o garoto sentia o mesmo que ela por ele? Sim, ela gostava do amigo, mas não de um modo simples como a maioria das pessoas que se simpatizam umas pelas outras, era de uma maneira mais complicada, ela parecia gostar de alma, em outras palavras, ela o amava, sua presença a deixava tranquila, ela desejava por mais daquele garoto. As palavras que ouvira “... meu amor”, balançaram o seu ser.
— Quer conversar? — Laura sabia o que a filha tinha passado, já imaginava que fosse recorrer à solidão.
— Quero sim — a garota logo se sentou na cama, indicando com a mão para que sua mãe fizesse o mesmo —. Preciso muito do seu conselho.
— Pode falar, minha querida, sempre desejarei o melhor para a sua vida.
— Eu estou apaixonada — uma lágrima discreta rolou pelo delicado rosto. Era um misto de sensações, medo e coragem.
— Que lindo... — a mulher retirou a lágrima do rosto daquela que tanto amava, daquela pela qual daria sua própria vida se preciso fosse —. Não precisa se afligir por isso, como eu disse antes, é natural.
— Eu gosto do Gustavo, mas não deveria... Além de nem ao menos saber como declarar os meus sentimentos, eu deveria entender que sou uma defeituosa, talvez seja um erro.
— Não repita isso, você não é uma defeituosa, apenas é testada pela vida de uma forma mais severa, o que não implica em condená-la a se privar do amor, dos seus nobres sonhos. Quando o amor é verdadeiro as diferenças não importam.
— Mas e seu estiver me iludindo? E se meu sentimento não for recíproco?
— Você só vai saber tentando... E eu sei que ele é apaixonado por você, que sente algo, deixe o tempo se encarregar de uni-los.
O garoto que tanta admirava apaixonado por si? Aquela ideia fez o rosto da jovem adolescente irradiar com o sorriso apaixonado, o sorriso do amor.

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Desde que conversara com Gustavo, Isaque esteve mais calmo, mas ainda assim as incertezas quanto ao futuro o intimidavam, perturbavam a sua mente, dificultavam o nascer da esperança. Ele ainda estava internado, precisava ficar em observação, por certo teria alta no dia seguinte, até lá continuaria se afogando no medo que apertava a sua alma, se não fosse Ana visitá-lo.
— Posso lhe fazer companhia? — a mulher pediu.
— Claro — sentou-se —. Meu pai já foi?
— Sim, tem conferência essa noite.
Não querendo pressionar o garoto Ana evitou as perguntas, sentou-se na poltrona ao lado de Isaque e colocou sua atenção no filme que passava na televisão. O rapaz, no entanto, sentia-se culpado pela forma como a tratou, poderia ter sido um pouco mais maleável, atencioso, mas não o foi, o importante é que agora poderia ter voltado atrás.
— Mãe, eu preciso que me desculpe por esses últimos dias, eu não agi certo.
— Não precisa se sentir culpado por nada — ela se espantou com o pedido daquele que cuidou com tanto carinho —. No fundo eu entendo o que está passando, sei que é tudo um tanto assustador, eu entendo a sua reação.
— A verdade é que não consigo entender que possa sair dessa — o garoto deu início ao desabafo —, nem correr eu consegui, tenho medo de que viva o resto dos meus dias limitado.
— Eu quero que você entenda uma coisa — Ana se levantou aproximando-se do filho e lhe acariciando como sempre fazia —, os limites serão momentâneos, não duradouros. Se acreditar e seguir o tratamento em pouco tempo a sua vida voltará ao normal.
— As coisas vão mudar... Meu cabelo vai cair, eu vou ficar fraco, não serei mais o mesmo.
— Por pouco tempo, meu querido — a mulher abraçou o desconsolado adolescente, sentindo suas lágrimas caindo sobre a camiseta que vestia. Era doloroso, mas ela precisava ser forte por ele —. E estarei ao seu lado em cada situação, a cada etapa... Estaremos juntos como sempre estivemos.
Isaque apertou o abraço que o fazia se sentir seguro. Restava-lhe apenas arregaçar as mangas e acreditar que tudo daria certo, que as coisas ficariam bem.

<<>> 

Um novo dia começou. Uma iluminada sexta-feira.
Ao chegar ao colégio e adentrar a sala de aula Júlia foi ao encontro de Gabriela antes de se juntar com suas amigas. Beijando a garota no rosto como se fossem amigas de longa data declarou:
— Adorei o nosso passeio, precisamos repetir a dose! — existia deboche em suas palavras.
Gabriela não soube como reagir, ficou imóvel, mas tinha alguém que falasse por ela.
— Falsa — Gustavo não se intimidou, sentado atrás da menina que gostava enfrentou aquela que tinha por rival, aquela da qual queria distância.
— Oi? — a loira dos olhos verdes não entendeu o ataque.
— Falsa — o garoto repetiu, dessa vez mais nitidamente —. Acha legal convidar os outros para sair e deixá-los sozinhos em meio uma tempestade? Agora sei o quão desprezível é.

No próximo capítulo:
“Eu te amo”.

Ainda que em pensamento, Gustavo se declarara.

De segunda a sexta, às 19h30!

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