[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 13


Capítulo 13


Mas não o fez.
Era o medo. O velho e ruim medo, aquele que assustava pela ideia de afastar uma amizade tão boa quanto aquela. Talvez seja esse um dos tantos dilemas da adolescência: medo em se arriscar, mesmo que seja por uma boa causa, mesmo que seja para ser feliz.
— Por que diz isso? — seu desejo era em ouvi-la falar.
— Porque é a verdade — embora não enxergasse Gabriela sabia exatamente para onde guiar seus olhos, sempre encarava os de Gustavo —. Eu não sabia que se mudar para cá seria tão bom assim, eu não imaginava que fosse encontrar um amigo tão especial quanto você.
— Isso quer dizer que você gosta de ser minha amiga — o garoto a envolveu no abraço enquanto caminhavam pelo corredor de flores que tornava o ambiente naquele parque ainda mais agradável, ainda mais aconchegante, ainda mais romântico.
— Eu não gosto — os passos foram interrompidos abruptamente —. Eu adoro! — um abraço entusiasmado, típico entre bons e velhos amigos, envolveu aquele casal que se amava, mas que por medo não assumia de uma vez.

Enquanto Gabriela aguardava, Gustavo estendia uma toalha sobre o chão embaixo de uma tantas árvores que garantiam sombras refrescantes que mesclavam o ápice do verão no mês de fevereiro. Cuidadoso, o garoto fez questão de enfileirar os potes mostrando seu capricho. Naquele lanche preparado pelo próprio adolescente apaixonado não faltavam saborosas guloseimas, tudo havia sido feito pensado no rosto angelical.
Ajudando a garota a se sentar o futuro pediatra anunciou o cardápio:
— Geleia de morango para passar nas torradas, doce de leite para acompanhar os pães de queijo, além de pãezinhos com queijo e presunto. Para beber temos suco natural de framboesa. Pode escolher o que quiser.
— Uau! — a menina se encantou —. Por que foi se ocupar desse jeito?
— Não foi ocupação alguma — ele se sentou ao lado daquela que lhe despertava diferentes sensações —. Nunca será incômodo fazer algo pensando em você, querendo agradá-la.
As bochechas de Gabriela se avermelharam, percebendo aquilo a garota abriu um sorrido tímido e novamente prendeu a atenção do seu admirador secreto. Gustavo não se cansava em observar os compridos fios longos da garota que caíam sobre as suas costas, para ele os olhos azuis proporcionavam uma paisagem única ainda mais pelo brilho intenso que deles irradiava, as covinhas infantis que se exibiam a cada sorriso o derretia de amores e de novo surgia a indagação: “Por que tão linda?”
— Bom, vou querer para começar a torrada com geleia — tirou o garoto de seu transe —. Ajuda-me a passar?
— C-claro — ele não esperava pela sugestão.
As mãos maiores envolveram as delicadas com ternura, eram quentes, macias ao toque. As pequeninas mãos se estremeciam com as que as encobriam sentindo a firmeza das mesmas e o calor agradável que delas emanava.
Gustavo guiou a garota no deslize da faca pela torrada, de todos os momentos aquele estava sendo o melhor. Gabriela sentiu o peito acelerar com aquele envolvimento um tanto mais intenso, a cada segundo daquele sábado tão especial aumentava sua certeza: estava apaixonada.
Levando a crocante torrada à boca a jovem adolescente não pôde evitar que seus lábios se lambuzassem pela geleia, um “bigode”rosa se formou logo abaixo o seu nariz, o garoto não pôde conter o riso.
— É um bobo mesmo — ela já se acostumava com as zombarias, aliás, gostava daquele jeito do amigo, na verdade era bom ouvir o som das suas gargalhadas —. Será que lorde Gustavo pode me ajudar a limpar essa sujeira?
— Claro, duquesa Gabriela, mas antes... — ouviu-se o clique de uma foto —. Agora sim.
Ela revirou os olhos.
O futuro pediatra pegou o guardanapo. Estar tão próximo àquela boca mais uma vez era difícil ao rapaz, que desejava ainda mais selar os lábios avermelhados.
— Eu quero conhecê-lo — a afirmação repentina pegou o garoto de surpresa.
— O que quer dizer?
— Ver o seu rosto. Deixa?
— Claro — não sabia exatamente como seria aquilo, mas ficou tentado a descobrir.
Não poderia ser de um jeito melhor.
Tendo a permissão desejada Gabriela levou as suaves mãos ao rosto de Gustavo, era esse o seu modo de ver, descobrir formatos, descobrir o mundo. Começando pelo queixo ela pôde sentir que s primeiros fios da barba nasciam, eram delicados, quase imperceptíveis, mas ela os notou. Sem malícia alguma passeou pelos lábios, percebeu que eram finos e quentes. Levou as mãos ao nariz, era pequeno e, segundo suas próprias palavras, fofinho. Conheceu as bochechas suaves, lisas ao toque, encontrou as covinhas que se formavam, não pôde deixar de sorrir ao notar que possuíam algo em comum. Subiu para a testa, percebeu a franja que a escondia, sentiu os cabelos lisos por entre os dedos, conheceu o garoto de que gostava.
Aquilo era diferente, proporcionava uma sensação única, nunca sentida e que, talvez, nunca fosse sentir. Conforme os toques começaram Gustavo fechou os olhos, concentrou-se em sentir os delicados dedos que passeavam pelo seu rosto, mergulhou nas emoções que palpitavam o seu peito, o desejo de viver aquilo para sempre ou pelo menos pelo resto dos seus dias nascera em seu coração, o misto de sentimentos e emoções não tomavam conta apenas da sua carne, envolviam também a sua alma.
Terminada a descoberta a garota encarou o vazio em silêncio, em seu rosto um ligeiro sorriso quebrava a serenidade, ela parecia pensar. De fato estava, analisava o que sentira, o que seus dedos singelos viram por ela, concluiu com o brilho no olhar:
— Você é lindo! Não adianta perguntar como isso funciona, não entenderia, apenas se convença de que é lindo!
Ela não se acanhou em declarar.
Ele estava mais apaixonado.

— Então é isso — em frente à casa da amiga o Romântico Anônimo deu início à despedida —. Espero que tenha gostado.
— Gostado? — a garota o abraçou mais uma vez, no entanto um pouco mais forte, estava claro que queria continuar daquele jeito por muito tempo ainda —. Eu amei. Obrigado por tudo, obrigado por existir!
O perfume adocicado das rosas pegou na roupa de Gustavo que pelo retrovisor do carro via a encantadora adolescente diminuir aos poucos.
O penetrante perfume amadeirado fez companhia a jovem adolescente, que mal poderia esperar pela hora em que estaria novamente ao lado de tão nobre rapaz.

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Algumas pessoas alimentam a maldade em seus próprios corações pelo simples prazer que um ato tão desprezível pode causar, sem motivo algum se embebedam pela ruindade, gostam de possuir uma alma sombria. Outras não.
Alguns são injustiçados pela vida, são colocados literalmente à prova de fogo sem auxílio algum, sem apoio aparente. Sofrem decepções, são excluídos, deixados de escanteio, tratados como se não significassem coisa alguma.
Júlia não era uma má pessoa, apenas se escondia atrás de uma armadura que não a fizesse sofrer, que a poupasse dos ataques de um mundo tão desordenado, tão catastrófico, tão cruel. Preferia fazer sofrer, preferia iludir a ser iludida, sempre pensavas no pior, sempre fazia o pior. Ser abandonada pela mãe a afligia intensamente, embora ela nunca o declarasse; seu conturbado relacionamento com o pai a fazia acreditar que todos os relacionamentos e envolvimentos seguiriam o mesmo padrão, ela não podia se arriscar sendo uma pessoa de bons amigos, tinha medo de se machucar ainda mais, embora sua autodefesa já a machucasse sem piedade alguma.
Encontrar o pai bêbado e ainda escutar que era odiada pelo mesmo a jogou em uma tristeza profunda, em uma escuridão sem fim, em uma solidão angustiante. Ela não tinha em quem se apoiar, com quem desabafar, descobriu que estava sozinha em um mundo lotado, olhou ao seu redor e não encontrou um ombro amigo, um abraço acolhedor.
Desde sexta-feira andava pelas ruas da Cidade da Paz sem rumo, sem direção, sem saber o que fazer de sua vida, sem saber qual caminho escolher: persistência ou desistência? Uma coisa ela tinha decidido: para casa não voltaria, não daria a quem a odiava o desprazer de sua companhia.
Já era sábado. A noite encobria o dia. Júlia se viu em um bairro afastado da iluminada cidade, um bairro no qual a violência ditava as regras, um bairro que era contrário ao resto do município tão famoso por sua tranquilidade.
A garota tinha o,s olhos inchados, pesadas foram as suas lágrimas, árduo era o seu caminhar. Com a mente cansada aceitou se juntar em um grupo de jovens desorientados, que encontravam na bebida forte e na mistura de entorpecentes a falsa sensação de consolo, de refúgio. O efeito extasiante era passageiro, ao seu término voltavam as assolações, ainda mais fortes.
Mas Júlia se entregou àquilo. Não se preocupou com o depois, não se importou se iria cair em um caminho sem volta, precisava desfazer tudo que a sufocava.
Deu risadas fora de si, contou piadas sujas, não se importou com a malícia dos rapazes à sua volta, antes se mostrou cordial
à falta de respeito.
Toque de recolher.
Uma correria tomou conta do lugar, as luzes dos barracões e de casas mal terminadas se apagavam. Júlia não soube o que fazer, não sabia para onde ir, o mundo a sua volta girava distante, o som de muitas vozes eram vagas, apenas conseguiu se esconder atrás de alguns arbustos. Embora a visão fosse turva percebeu um grupo de homens mal encarados passearem pelo local, pareciam procurar por algo, na verdade procuravam a algum desobediente para que dessem sua lição.
Júlia não era inocente. O resto de sobriedade que ainda restava em sua mente a fez sair dali, com as pernas bambas procurou refúgio, entrou em uma das mais movimentadas rodovias. Seus pés se arrastavam pelo acostamento, os faróis dos carros agrediam sua visão, as fortes buzinas nem ao menos a assustavam.
Um carro parou.
Uma mulher a acolheu.
— Venha comigo.
Seus olhos se escureceram.

No próximo capítulo:

Não era uma pergunta do tipo qual o seu nome, era algo pessoal, que mexia em seus sentimentos, que cutucaria uma ferida aberta. A garota nunca foi de contar os seus problemas, dividir com alguém o peso das aflições, sempre pensou ser capaz de viver sozinho, mas de uns tempos para cá se sentia cada vez mais sufocada pela solidão do caminho que optou seguir, agora que teria a chance de dividir com alguém o seu fardo faria uso da oportunidade.

De segunda a sexta, às 19h30!

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