[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 14


Capítulo 14


A cabeça doía, dava a sensação de ter saído do corpo, a tontura ainda era persistente. A visão embaçada se sentia incomodada pela claridade que a janela de vidro deixava passar, embora confortável aquele não era o seu sofá, Júlia se viu em um lugar desconhecido, não estava em sua casa.
Sentando-se rapidamente acabou arrependida, a tontura apresentou um pico mais alto. Coçando os olhos a garota observou ao seu redor, tentava se lembrar de como havia chegado ali, mas sua memória apenas registrara o momento no qual ela entrou no bairro afastado, dali em diante tudo parecia ter sido apagado.
— Bom dia!  Uma mulher de cabelos ruivos, que possuía olhos verdes atrás das lentes dos estilosos óculos, aproximou-se de sua hóspede, exibindo os dentes alinhados em um sorriso singelo —. Sente-se bem?
— Quem é você? O que estou fazendo aqui? — pela primeira vez em sua vida sentiu medo do desconhecido.
— Fique tranquila, você está segura aqui — a mulher se aproximou um pouco mais —. Meu nome é Fátima, sou nova na Cidade da Paz. Ontem a encontrei desnorteada pela estrada, pensei que precisasse de ajuda então a trouxe para a minha casa.
Também pela primeira vez a garota se sentiu realmente segura.
— Venha comigo, não precisa se acanhar, somos apenas nós duas aqui — a ruiva estendeu a mão —. Preparei o café da manhã.
Fátima era psicóloga. Há alguns anos ela abandonou a Cidade da Paz, decidiu que construiria sua vida e lutaria por seus ideais em outro lugar, mas o tempo se passou e uma saudade do lugar no qual crescera nasceu em seu peito. Agora ela estava de volta, mas não era por simplesmente sentir saudade, existia um motivo ainda maior, mais importante, um desafio a ser vencido.
A mesa estava farta. Nada que Júlia não houvesse experimentado, mas havia ali algo diferente, algo que a garota sempre imaginou que um dia pudesse ter: tudo já estava preparado e, o melhor, especialmente a ela. Mas por que aquilo? Por que alguém que nem ao menos a conhecida a ajudaria? O que estava por trás daquilo? As dúvidas e incertezas logo surgiram, a incômoda desconfiança também marcou sua presença.
De longe, a mulher observava sua visita se servir, aparentava estar mesmo com fome, por algum momento Fátima pensou em se juntar à garota, mas preferiu esperar, planejava ganhar sua confiança, ouvir o seu desabafo e assim ajudá-la de uma maneira melhor.
— Por certo está se perguntando o porquê de tudo isso — finalmente a ruiva se aproximou puxando uma cadeira e se sentando diante a solitária adolescente —. Apenas gostei de você, senti a vontade de acolhê-la e, então, o fiz.
“Gostei de você”. acostumada a ouvir que a odiavam Júlia se maravilhou com a frase dita, mas precisava ser cautelosa, afinal de contas não conhecia aquela mulher.
— Eu agradeço por tudo, mas preciso...
— Não vá embora — Fátima fez sua súplica colocando sua mão sobre a da garota —. Quero dizer, não agora. Eu a levo de volta para casa, mas antes queria conversar.
Um toque acolhedor. Foi essa a definição que Júlia encontrou para o toque entre as mãos, sentiu-se confortável com aquilo, começou a ter segurança, parecia que o destino lhe reservara um momento especial: alguém queria ouvi-la e ter sua atenção.
— Tudo bem... Sobre o que quer falar? Precisa conhecer a cidade? — puxou assunto.
— Na verdade já a conheço, eu queria falar sobre você.
— Sobre mim?
A mulher assentiu.
— O que estava fazendo ontem para ficar tão mal?
Não era uma pergunta do tipo qual o seu nome, era algo pessoal, que mexia em seus sentimentos, que cutucaria uma ferida aberta. A garota nunca foi de contar os seus problemas, dividir com alguém o peso das aflições, sempre pensou ser capaz de viver sozinho, mas de uns tempos para cá se sentia cada vez mais sufocada pela solidão do caminho que optou seguir, agora que teria a chance de dividir com alguém o seu fardo faria uso da oportunidade.
— A cada dia que passa perco a vontade de viver, parece que o brilho da vida simplesmente se ofusca e que nada mais possui sentido... Desde pequena me olho para o lado e não enxergo um ombro amigo, um alguém que me entenda do jeito que sou e que me ajude a criar esperanças quanto ao futuro. Saí de casa sem rumo, pensei que aliviar a mente fosse a solução para tantos obstáculos, mas agora que voltei à realidade parece que tudo é ainda pior...
Atenta a cada palavra a psicóloga se compadeceu por aquela jovem menina que embora nova na idade parecia possuir uma velha alma já cansada de tanto sofrimento.
— Não é fugindo dos problemas que os resolvemos — Fátima deu início ao seu discurso —. Apenas criamos novos. Quando mais jovem eu tive a mesma ideia que a sua, pensei que correndo dos desafios eu estaria livre deles, de fato fiquei, mas por pouco tempo, eles voltaram ainda mais fortes e até hoje preciso lidar com as dificuldades, os medos e anseios.
— Bater de frente com os problemas quanto se está sozinho não é tão fácil quanto parece — a loira prosseguiu no desabafo —. Saber que foi rejeitado pela mãe e é odiado pelo pai é uma dor quase impossível de se enfrentar... Vivo com essa dor em meu peito, com essa angústia infindável: por que me rejeitaram e por que me odeiam?
A mulher se espantou com a descoberta, sentiu um nó se formar em sua garganta, não esperava ouvir uma história tão triste e marcante, algo que nunca ouvira nem mesmo de seus pacientes, mas sabia que era real.
— Eu sinto muito — Fátima abraçou a garota como se fosse uma amiga de muitos anos —. Eu faço ideia do quão difícil pode ter sido a sua vida até aqui, mas se permitir eu trilharei o caminho da vida ao seu lado, estarei com você em tudo o que precisar... Os problemas existem para todos, todos são desafiados pela vida e sozinho ninguém consegue vencê-los, mas se dermos as mãos e unirmos nossos sentimentos passamos por todos eles.
Enquanto era abraçada por aquela mulher que parecia ter caído do céu e ouvia suas atenciosas palavras, Júlia fechou os olhos se concentrando na sensação de proteção que estava desfrutando, aquilo era simplesmente maravilhoso, um sonho de vida, o sonho da garota.

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Durante a manhã daquele domingo ensolarado Gustavo caminhou sorridente até a casa do seu melhor amigo, ainda extasiado pelo sábado que tivera não possuía motivos para amarrar a cara, aliás, desde que conhecera a “mais bela das garotas”, segundo suas próprias palavras, ele nunca mais acordou de mau humor, algo que fazia sua mãe chamar a garota de “santa Gabriela”.
— Lorde Gustavo — os dois irmãos se abraçaram —, que bons ventos o trazem?
— Preciso das palavras do meu conselheiro — o futuro pediatra se sentou na cama confortável —, mas antes quero saber como ele passou esses últimos dias, tirou uma folga no hospitale me deixou na mão.
— Ele precisava de descanso — Isaque decidiu se entregar á brincadeira, não existia fórmula melhor do que o bom humor para passar por aquela complicada situação —. Estava sobrecarregado pelos problemas do seu lorde e resolveu se afastar.
— E diz isso na maior cara-de-pau? — Gustavo jogou um dos travesseiros —. Ele quase morreu!
— Quase, mas não morreu — retrucou debochado —. Respondendo sua pergunta passei bem — jogou-se na poltrona, esparramado —. Mas não via à hora de sair daquele lugar.
— Eu imagino... — o assunto era delicado, Gustavo não sabia se podia avançar ou não, tudo era ainda muito novo.
— Mas e você? Como tem passado sem mim? — Isaque indagou cheio de ironia.
— Maravilhosamente bem — respondeu no mesmo tom.
— Lorde Gustavo, o senhor me feriu — colocou a mão sobre o peito como se estivesse ofendido —. Acho que vou procurar outro reino que me valorize...
— E perder as minhas explicações de matemática? — arqueou a sobrancelha — Sei...
— Pensando melhor vou me submeter ao seu descaso.
— Da próxima vez que se internar leve o celular — o pedido revelou que Isaque fazia falta —. Saí com Gabriela – declarou tímido.
— Huuummm... Um encontro! — Isaque provocou.
— Eu fiquei mais apaixonado ainda — os olhos brilhavam —. Tive uma vontade enorme em declarar tudo o que sentia, mas me faltou coragem.
— No seu caso nem digo mais nada — ligou o videogame enquanto escolhia o jogo —, o tempo vai se encarregar de fazer todo o trabalho.
— Mandei que entregassem alguns presentes a ela — disse envergonhado.
— Esse é dos meus! — jogou o controle para o amigo — Agora se prepare para ser massacrado, Romântico Anônimo — riu contido.

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Sombras eram as eternas companhias de Gabriela, que vivia em uma escuridão infinita, sem um começo e muito menos sem um fim, mas isso não a privava de viver as sensações, desfrutar as emoções e mantê-las em sua sensitiva memória, que trazia de volta à garota cada momento vivido.
Ela precisava confessar que Gustavo transformou a sua vida de uma forma que ninguém conseguia fazer, aquela primeira semana na Cidade da Paz fora a melhor de toda a sua vida e o garoto era o motivo.
Embora fosse domingo a garota recebeu uma entrega que atiçou a curiosidade de seus pais. Passeando os dedos pelos presentes ela descobriu que ganhara uma caixa de bombons em forma de coração, junto á caixa um buquê de flores, que pelo cheiro adocicado que lembrava o seu perfume só podiam ser rosas. Mas o melhor estava por vir.
— Filha, essa cartão veio junto — a mãe o entregou entusiasmada, parecia ser ela a presenteada.

Eu precisava presenteá-la de alguma forma a fim de dizer que penso em você a cada segundo. Depois de muito procurar encontrei aquilo que representasse sua delicadeza, que lembrasse sua doçura, que trouxesse à tona sua suavidade: as rosas... Por sua causa olho para essas belas flores e me vem à mente o seu rosto angelical.
Romântico Anônimo

Um sorriso apaixonado foi tirado de Gabriela.

No próximo capitulo:

O rapaz só faltou dar pulos pelo corredor, já suspeitava de quem poderia ser aquele bilhete. Dobrou-o com carinho e antes de guardá-lo no caderno depositou um beijo no papel impresso, um beijo cheio de sentimento, um beijo que ele desejava dar naquela que ali escrevera, que conquistara o seu coração.

De segunda a sexta, às 19h30!

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