[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 15



Capítulo 15


Uma nova semana se iniciava na Cidade da Paz, onde o dia amanhecia com a sinfonia dos pássaros e o balançar da brisa sobre as muitas árvores espalhadas pelo lugar; seus moradores tinham motivo para caminharem rumo aos compromissos cantarolando canções tão tradicionais.
Júlia, porém, submersa naquele mundo que cercava sua mente, cheio, cheio de sombras e incertezas, não conseguia ver alegria em começar um novo dia, em alguns momentos a ideia de não existir a agradava, já estava cansada da aproximação de terceiros cercada por interesse, estava cansada de fingimentos, cansada de não ter pessoas sinceras em sua vida e, talvez o que mais a sufocava, cansada de não encontrar respostas para os angustiantes porquês que apenas cresciam em seu peito.
Mas a garota estava decidida a mudar. Precisava mudar. Após a conversa com Flávia viu que fugir dos problemas não é uma atitude sensata, já que em determinado ponto do caminho o reencontro é inevitável e eles estarão ainda mais fortes. Ela planejava recomeçar suas atitudes, meditar nos erros e corrigi-los, queria novos envolvimentos, relações diferentes, era o momento da transformação.
Adentrando o Colégio Inova, Júlia se alimentava de coragem para começar sua remissão com alguém que feriu gravemente, tinha noção de que poderia ser interpretada mal, mas precisava tentar. Já na sala de aula avistou Isaque, Gustavo e Gabriela conversando, o trio era bonito, deixava claro o companheirismo existente, ela também queria provar daquilo.
— Bom dia – cumprimentou cordialmente.
O futuro pediatra não conseguia acreditar naquilo, já havia pedido à colega de classe que se afastasse e não os importunasse mais, sua atitude em cumprimentar soou como provocação, sua resposta foi o silêncio. Assim como o amigo, Isaque se indignou, não cria que o cumprimento fosse um gesto sem segundas intenções, também agiu como se nada houvesse acontecido.
Gabriela, no entanto, era diferente, em seu coração existia o dom do perdão, ao longo de sua vida cheia de limitações ela aprendeu a relevar as situações, sempre evitou guardar mágoas, sabia que o ressentimento é um veneno para a alma. Receptiva a qualquer um que quisesse uma aproximação sorriu alegre e respondeu:
— Bom dia!
Júlia agora tinha certeza de que a aproximação seria um desafio e tanto, mas se surpreendeu com aquela com quem agiu tão vergonhosamente. Dirigiu-se ao seu lugar de costume, embora sua vontade fosse outra, porém seus passos precisavam ser mais lentos.
— O que ela está querendo com isso? — Gustavo não se conteve em declarar suas desconfianças.
— Talvez pense que já esquecemos tudo e que agora vamos passar uma borracha sobre o passado — Isaque ironizou.
— Ou talvez precise de amigos de verdade — Gabriela não enxergava com os olhos, mas sempre enxergou com o coração —. Vocês já imaginaram como seriam suas vidas se não tivessem um ao outro?
Aos garotos aquela indagação soou como um sermão.

Durante o intervalo das aulas Gustavo foi até o seu armário pegar alguns livros, o que ele não esperava é que receberia uma surpresa, talvez a melhor dos últimos dias.

Legal, sincero, companheiro, bondoso, ótimo amigo, bonito, cheiroso, charmoso, inteligente... São tantos os adjetivos que podem lhe definir, mas um já pode dizer tudo: você é especial.
Adolescente Apaixonada

O rapaz só faltou dar pulos pelo corredor, já suspeitava de quem poderia ser aquele bilhete. Dobrou-o com carinho e antes de guardá-lo no caderno depositou um beijo no papel impresso, um beijo cheio de sentimento, um beijo que ele desejava dar naquela que ali escrevera, que conquistara o seu coração.

<<>> 

A aula terminou, mas a ideia de voltar para casa iniciava no coração de Júlia uma angústia, ela não resistiu e desviou os passos para a casa de sua nova amiga, precisava de mais conselhos, de novos desabafos.
— Que prazer! — Fátima recebeu a garota com um abraço afetuoso e logo a levou para dentro de casa —. Nunca poderia imaginar que a veria tão logo.
— Espero não estar incomodando, mas eu precisava muito ouvir o que tem a me dizer sobre algumas coisas.
— Nunca será incômodo receber sua visita — a mulher, enquanto arrumava a mesa para o almoço, ouvia com atenção aquela de que tanto gostava —. E pode confiar em mim, tudo o que me disser ficará apenas entre nós.
A de olhos verdes não podia explicar o porquê, mas a ruiva lhe trazia sensação de segurança, de proteção, de paz. Se fosse difícil se abrir com as outras pessoas aquela mulher parecia ter o dom de tornar tudo mais fácil, mais simples, Júlia conseguia declarar os seus sentimentos sem receio algum.
— Eu já errei muito apesar da pouca idade, nunca me interessei pelas pessoas, por aquilo que elas eram, mas sim por aquilo que elas poderiam me proporcionar. Minhas amizades, se que é que posso considerá-las assim, são regadas por interesse e não por cumplicidade, amor, e nesses últimos dias estou vendo como isso me agride — seus olhos atentos sobre Fátima observavam como a mulher exibia uma felicidade no rosto, nada parecia dar errado em sua vida.
— Realmente, nenhum de nós consegue viver sozinho, sem ter em quem se apoiar em um mundo tão estreito — a ruiva se sentou servindo a garota —. Por que você não procura novas amizades? Mas dessa vez procurando a essência humana, aquilo que elas podem lhe ofertar ao coração.
Agradecendo por ser servida Júlia respondeu:
— Na verdade meu desejo é esse e eu gostaria de me aproximar de um grupo em especial, o qual tem motivo suficiente para me odiar, mas que eu quero reverter isso, redimir-me pelo que fiz. Hoje os cumprimentei, mas fui ignorada, apenas um alguém que deveria ansiar pelo meu distanciamento respondeu com satisfação.
— Já tentou se desculpar?
— Desculpar-me? — aquilo não era uma atitude tão simples a ter.
— Sim, exercer o perdão — a mulher envolveu as mãos frias da garota, precisava convencê-la de seus conselhos —. Se você errou da forma tão dura como descreve deve pedir desculpar, mostrar o quão arrependida está, ter sinceridade nas palavras e no olhar.
Júlia nunca pediu desculpa a ninguém, nunca se rebaixaria ao ponto de provar que está arrependida, nunca concordaria de que suas ações foram erradas, era isso o que as pessoas queriam ouvir, não era isso o que ela faria.
— O perdão não quer dizer humilhação, é um ato nobre capaz de ofuscar todos os atos errôneos. Quem pede perdão mostra a pureza do espírito, revela que está com o coração aberto a amar, a ser diferente — a psicóloga soube desvendar os olhos daquele que, atenta, a ouvia e, então, reforçou: — Pode ser que para você pedir desculpa seja vergonhoso, voltar atrás seja covardia, mas se está realmente disposta a ter uma vida diferente e não correr o risco de envelhecer na solidão peça desculpas a quem for preciso, prove que mudou sua visão, permita-se em ser feliz passando por cima do próprio orgulho.
Fátima tinha razão, a garota reconheceu isso e se quisesse de fato viver o que aqueles que ela admirou viviam, teria que encobrir o seu ego e trilhar um caminho diferente.

Júlia simplesmente se maravilhou com os dotes culinários daquela que com tanto carinho a acolhera, há muito tempo não almoçava de forma tão agradável, podendo conversar, contar sobre o seu dia, dividir segredos e confissões. Ela via a mulher como uma mãe, uma mãe que nunca teve, mas que seria capaz de renegar tudo o que tinha para viver uma história de mãe e filha. Mas aquela tarde reservava uma surpresa: uma ligação nada agradável.
— Posso saber onde o desgosto está? — era o seu pai —. Não precisa responder, já sei que está me desonrando com vagabundos! — ele não poupava ofensas, isso parecia agradá-lo —. Quando chegar teremos uma conversa séria!
A loira não teve tempo  para retrucar, mas já imaginava o que a aguardava: gritaria, agressões, humilhações. O semblante até então alegre se contraiu, era agora de preocupação, aflição.
— O que houve? — embora na ouvira, Fátima já desconfiava sobre o teor da breve conversa.
— Preciso ir, meu pai já está nervoso.
— Eu a levo.
— Não é necessário — ela sabia que o pai ofenderia aquela mulher sem dificuldade alguma e isso poderia afastá-las.
— Já decidi que a levarei, não adianta recusar.
Durante o caminho Júlia se preocupou ainda mais, sua imaginação já criava cenas de tristeza, de dor, cenas que poderiam ficar no imaginário, mas que já eram reais.
Além de levar a garota ao prédio, Fátima a acompanhou até o apartamento, parecia prever o que aguardava a entristecida adolescente.
— Finalmente! – ao abrir a porta Rui não viu a presença da terapeuta, com grosseria puxou a filha para dentro.
— O que significa isso? — a psicóloga não assistira aquilo sem ter reação, a mulher tranquila e serena dava lugar a uma mulher destemida e enérgica —. Por acaso estamos lidando com algum marginal?!
— Quem é essa intrusa? – o de cabelos grisalhos se surpreendeu com tamanha petulância de alguém que nem o conhecia.
— Não é nem uma intrusa, é minha amiga! — embora sofresse nas mãos daquele homem Júlia não passava por nada calada, dizia o que vinha em sua mente, enfrentava-o da forma como queria.
— Isso não me importa, apenas quero que ela saia da minha casa, preciso ter uma conversa de pai para filha!
— Não confunda conversar com agredir — a mulher era firme em sua postura –. Além do mais ela estava comigo se é essa sua preocupação.
— Não sabia que você gostava de se envolver com velhas — o homem se dirigiu à garota em tom de sarcasmo —. O que ela está lhe dando? Por acaso tem um cabaré e você vai jogar o meu nome de vez no lamaçal?
— Cala a boca! — Fátima não ouviria um insulto como aquele sem se descontrolar; em uma atitude corajosa deixou a marca de sua mão no rosto de um homem tão vil, o som do estalo denunciava a força de suas mãos e a ardência que Rui sofria.

No próximo capítulo:

— Eu sei quem é você embora gostasse de não saber — a mulher ajeitou a alça da bolsa no ombro e, aproximando-se do homem, concluiu: — Não quero que encoste nem um dedo na garota, está me escutando? Ou eu mesma lhe dou uma surra digna de Rui Siqueira!

De segunda a sexta, às 19h30!

Comentários

  1. A sua escrita é muito boa. Adorei o texto.

    bj,
    Dani, do blog Sabe o que é?
    http://sabeoque.blogspot.com

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Sinta-se livre para comentar!

Siga o blog pelo Instagram:

Postagens mais visitadas deste blog

"Amar é mudar a alma de casa"

A Brevidade da Vida

Aflições na Alma

Flores aos mortos

[Conto] Eternizados Pelo Amor