[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 16



Capítulo 16


Rui era um homem arrogante que forçava as coisas a saírem do seu jeito. Seu modo descontrolado de agir já fora responsável pelo afastamento de muita gente, inclusive o da sua filha. Em parte seu nervosismo se devia ao uso constante de bebidas que o dono de uma rede de supermercados fazia, se os seus negócios não estavam falidos os principais responsáveis eram aqueles que por ele trabalhavam.
Levar um tapa na cara de uma mulher era muita humilhação para Rui, algo que ele não engoliria tão simplesmente, é claro que daria o seu troco.
— Ordinária! — alçando a voz ao máximo o homem pegou Fátima pelos braços arrastando-a para dentro com violência, seus olhos exibiam toda a sua fúria — Quem pensa que é? Com quem pensa que está falando?! — esbravejando ele chacoalhava a mulher que se assustava com tanta agressividade.
— Pai! Chega! — Júlia não controlava as lágrimas de desespero que rolavam pelo seu rosto, tentou afastar as duas pessoas, mas em vão, seu pai a empurrou covardemente.
Embora fosse terapeuta, alguém visto como símbolo da paciência e tranquilidade, Fátima sabia quando ser profissional e quando agir da maneira que realmente era. Chutou o seu opressor no joelho, empurrou-o para trás com raiva, livrou-se de um verdadeiro louco.
— COVARDE! — gritou — Como pode ser tão baixo? Como pode agir de forma tão desprezível?!
Sentindo a cabeça latejar pela pancada que sofrera ao cair e o joelho clamar por solução para a dor intensa, Rui se levantou cambaleante, também pelo efeito do álcool, e continuou os seus insultos:
— Abusada! Acha mesmo que pode ditar o que devo ou não fazer? Eu sou Rui Siqueira e Rui Siqueira não dá ouvido à mulheres tão insignificantes!
— Eu sei quem é você embora gostasse de não saber — a mulher ajeitou a alça da bolsa no ombro e, aproximando-se do homem, concluiu: — Não quero que encoste nem um dedo na garota, está me escutando? Ou eu mesma lhe dou uma surra digna de Rui Siqueira!
— Vá embora e fique longe da minha filha ou então...
— Ou então vai me matar? — Fátima possuía um tom de zombaria — Homens como você não me dão medo, me fazem rir! — seus pesados passos foram até a porta — Júlia, qualquer coisa me conte, não tenha medo de covardes! — com força bateu a porta.
Visivelmente transtornado Rui puxou o cinto da calça, fitando a filha com seu olhar cheio de ira deu início às agressões:
— Isso é por ter nascido e feito da minha vida um inferno! — a garota não reagia, apenas recebia aquilo que sei pai lhe ofertava — Isso é por existir e me fazer lembrar aquela desgraçada! Eu odeio você!
Livrando-se da surra Júlia correu ao próprio quarto, trancou a porta, fechou as janelas, tirou do guarda-roupa algum tipo de bebida forte, destampou a garrafa, tomou um gole sentindo a queimação, mas não hesitou em parar, precisava se embriagar, precisava se livrar daquele pesadelo nem que fosse por algumas horas, queria se desligar do mundo e de toda a sua calamidade.

Voltando para casa, dirigindo pelas ruas e avenidas da Cidade da Paz, Fátima não pôde mais reter o choro, o triste e agonizante choro. Ela possuía um carinho enorme por aquela garota, saber que ela estava nas mãos de um desequilibrado angustiava a psicóloga, ela precisava agir, tinha que fazer alguma coisa, mas ainda não era o momento certo. Uma coisa ela tinha decidido: não ficaria longe daquela que amava.

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“Em tempos de guerra a dor, a aflição, a incerteza sobre o dia de amanhã, a falta de fé e a desesperança são os sentimentos que imperam sobre os corações amedrontados, os corações que se questionam se pulsarão por muito tempo ainda ou não.
Esses sentimentos não afligem apenas os soldados, aqueles que estão arriscando suas próprias vidas para o bem de uma nação inteira, por um povo que nem ao menos os conhece, como também afligem os entes queridos, os amigos e familiares, que não sabem ao certo se tornarão a abraçar o guerreiro ou não.
Mas existe algo que sofre ainda mais: o amor, a paixão. Casais amantes de si mesmos, que são separados por uma guerra, angustiam-se muito, afinal de contas um encontrou no outro o alento para a sua alma, aquilo que os atraiu de uma maneira diferente, intensa, não querem se separar, já não pode viver sem estarem juntos.

Daniela era uma jovem mulher que possuía grandes planos para o futuro, mas esse futuro só aconteceria com a presença de Elias em sua vida, o soldado do Exército Brasileiro, que fora convocado a guerrear durante a Segunda Guerra Mundial. Grávida de seu esposo, ela temia perdê-lo para a atrocidade humana, o simples ato de pensar naquilo causava calafrios em seu corpo, a criança que crescia em seu ventre parecia entender o sentimento e se manifestava agitado.
Conforme o tempo passava notícias de soldados mortos chegavam, felizmente o nome do seu amado nunca esteve nas listas, mas isso não era o suficiente para que Daniela se enchesse de paz, há meses não recebia cartas daquele que amava incondicionalmente e isso a preocupava mais do que pensar na própria morte.
Em todas as datas marcadas para a volta dos soldados brasileiros a jovem marcou presença na orla da praia de Salvador, seus olhos atentos e desconsolados procuravam ansiosos pelo homem que fazia seu peito acelerar, mas ele nunca estava lá.
13 de agosto de 1946. Segundo boatos aquela era a última data de chegada dos guerreiros da nação e, como de praxe, Daniela para lá se dirigiu, desta vez com um garoto que beirava os dois anos de idade agarrado à sua mão. Mesmo que lhe dissessem coisas horríveis para abalar suas esperanças a mulher nunca desistiu de esperar por Elias, algo lhe dizia que ele voltaria aos seus braços, nem que fosse o último homem a voltar para casa.

Elias era um jovem soldado que se casara cedo com aquela que tanto amava, mas ao ser convocado para a guerra que estava em seu auge precisou passar por cima do coração, ser mais forte que a intensidade dos nobres sentimentos que sentia pela esposa, dizer adeus sem alimentar esperanças de reencontros e partir não olhando para trás.
Ele se destacou no batalhão, era um dos que derrubava mais inimigos, era peça fundamental para o avanço das trincheiras, quando ferido não desistia, antes persistia, era notório que só entregaria os pontos caso ceifassem sua vida.
Porém, em uma noite distraída, o soldado foi capturado por alemães junto aos seus colegas e levado cativo de forma bruta e violenta, sendo ameaçado de morte torturante caso bancasse o esperto; sua cabeça era desejada.
Meses se passaram com Elias naquela situação, sem receber notícias da amada e sem poder escrever suas cartas cheias de romantismo. Foi em uma noite de esperanças perdidas que ele olhou para o céu e perguntou o porquê de todo aquele sofrimento, o porquê de estar atrás de grades sem nada dever a ninguém, o porquê de precisar aprender a viver sem ouvir a voz de Daniela e sem sentir os suaves toques da mulher. Durante o tempo que guerreou nunca derramou uma lágrima, mas naquela noite seu choro foi amargo.
— Guarde suas lágrimas para o choro da alegria — uma mão pousou sobre o seu ombro lhe chamando a atenção, era Jorge Souza, o seu general —. Hitler está morto, a guerra terminou.

Elias desejava que a imensidão do oceano se reduzisse a uma curta distância, ansiava pelo momento que abraçaria aquela que amou tão intensamente, mas dúvidas cercaram sua mente. E se ela tivesse perdido as esperanças? E se ela tivesse tocado a sua vida e agora vivia um novo amor? Talvez ela nem se lembrasse mais do seu nome. Ao menos estaria de volta em casa, onde poderia recomeçar sua vida.
O relógio no pulso marcava o meio-dia, o soldado já conseguia avistar terra firme e uma multidão ansiosa pela chegada dos guerreiros, mas talvez ninguém estivesse no seu aguardo, seria melhor deixar todos desceram do navio e, então, ele desceria.

Casais se beijavam saudosos, pais e filhos se abraçavam sedentos por aquele momento, a alegria em cada olhar e sorriso era observada pelos olhos de Daniela, que ainda procuravam pelo rosto mais bonito, mas que nada encontravam. A praia se esvaziava, ninguém mais descia do navio, a jovem mulher pegou o filho no colo, deu as costas e começou os seus passos lentos tentando encontrar respostas para o futuro, em como seriam as coisas dali por diante, em como conseguiria viver sem o amor da sua vida. Ela se esforçava em segurar as lágrimas.
— Daniela? — uma voz soou. A doce e inconfundível voz de Elias.
Ela se virou aonde a voz veio, abriu um sorriso alegre, sentiu o peito palpitar, seu coração parecia estar a ponto de explodir, as lágrimas rolaram espontaneamente, suas pernas tomaram vida e correram ao encontro do tão amado home. Pai, mãe e filho se abraçavam contentes na orla da praia, finalmente depois de tantas dúvidas agora a certeza: o futuro começava”.

As luzes se acenderam, olhos avermelhados puderam ser vistos, pessoas emotivas aplaudiam o belo filme que acabaram de assistir. Gabriela, também emocionada, experimentava mais uma novidade em sua vida; a garota dos olhos azuis foi ao cinema. Gustavo esteve em todo o momento ao seu lado, sussurrando em seu ouvido o desenrolar da história.
— Gostou? — embora acanhado o garoto tomou coragem e limpou o suave rosto da amiga encharcado pelas lágrimas.
— Eu amei — abriu o sorriso tímido de sempre —. Não poderia ter provado coisa melhor.
— Eu sabia iria gostar.
— E o que é que você não acerta? — a garota questionou. Dando um beijo no rosto do amigo concluiu: — Você é especial.
Agora Gustavo tinha certeza de quem se tratava a Adolescente Apaixonada.

No próximo capítulo:

“Eu quero ser para sempre os seus olhos, o seu guia”. Quando Gabriela imaginou que ouviria algo tão magnífico quanto aquilo? Nunca. Mas ouviu, ouviu do garoto que gostava, que apreciava a companhia, cuja presença passava segurança e a doçura da voz garantia tranquilidade.

De segunda a sexta, às 19h30!

Comentários

  1. Essa história está mais envolvente a cada dia. Bem realista!


    Bj
    Dani, do blog Sabe o que é?
    http://sabeoque.blogspot.com

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