[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 18



Capítulo 18


Poucos dias depois...

Era sexta-feira, o final de semana já exalava o seu cheiro, mas ainda tinha um dia inteiro a ser enfrentado.
Júlia continuava naquela perturbação de espírito, ainda se sentia desamparada em um mundo tão cheio, as coisas perdiam o brilho gradativamente e com isso a vontade de viver. Porém, naquela manhã ensolarada, a garota despertou com uma vontade enorme de mudar as coisas, já decidida sobre qual seria o seu primeiro passo: conquistar o perdão.
Durante todo o primeiro bloco de aula observou com atenção aqueles com os quais se redimiria, eram unidos, ajudavam-se, não pareciam ter problemas e nem dificuldades, exibiam a beleza de uma amizade verdadeira, uma amizade regada pelo amor.
O sinal para o intervalo tocou. Era o momento.
Mas a jovem não tinha coragem suficiente, imaginava que seria ignorada mais uma vez ou até mesmo ridicularizada, ofendida. Pelo comportamento que teve ela sabia que era aquilo o que merecia. Reuniu as forças e antes que o trio saísse da sala ela pediu:
— Podemos conversar?
Um clima estranho caiu sobre cada um.
Relutante, Gustavo respondeu:
— Seja breve.
Frieza. Júlia sentiu isso, mas não podia se abater, o não já era garantido, seu desafio era conquistar o sim.
— Eu sei que fui ridícula em minhas atitudes, não agi da maneira certa, mas eu quero muito o perdão de vocês — seu modo de falar esbanjava o arrependimento pelos erros e a sinceridade do pedido —. Eu preciso do perdão de vocês.
O futuro pediatra e seu melhor amigo se entreolharam, sabiam qual seria o desfecho da conversa caso deixassem a decisão nas mãos da garota que os acompanhava, então o primeiro deu seu ultimato:
— Acha que é tão fácil assim? Apronta todas e depois aparece com discursos de arrependimento pensando que tudo vai ficar bem?
— Claro que não. Eu reconheço que talvez não seja fácil para vocês acreditarem em mim, mas eu imploro que ao menos tentam — o desespero por alcançar aquele desejo era visível na garota.
— Não, não é fácil — Isaque tomou a palavra —. Como podemos confiar em alguém que foi capaz de fazer o mal a um dos nossos?
— Se soubessem o fardo que carrego nas costas por certo entenderiam — o desabafo começou e com ele lágrimas de pura verdade rolaram pelo rosto entristecido —. Não são vocês que não têm com quem conversar, com quem se divertir para se aliviar da opressão... Eu não tenho uma mãe, meu pai já declarou o seu repúdio por mim e a cada dia prova o que disse. Eu sei que nada justifica minhas ações, mas é claro que as influenciaram. Vocês, que são tão felizes, não podem imaginar o tamanho da minha dor, o peso das lágrimas que caem dos meus olhos, a escuridão que cerca o meu mundo... — correu dali, correu para se refugiar em algum canto isolado.
Os jovens amigos ficaram pasmos com o discurso, não podiam acreditar que por trás de alguém tão esnobe e prepotente existia uma alma afligida pela vida, oprimida pelo sofrimento, frágil.
— Eu não sei o que dizer... — Gustavo sentia alguma vergonha pelo modo como vinha agindo.
— Mas eu sim — Gabriela possuía um semblante sério —. Falando por mim, não fazem ideia de como tem sido mais fácil lidar com as limitações estando com vocês, tendo essa amizade tão incrível — embora seus olhos fossem dispersos, suas palavras revelavam uma mente concreta —. Isaque, consegue imaginar o quão sufocante seria passar pelo atual momento sem o apoio de um amigo como o seu? — a reflexão era profunda —. Todos erramos e não conseguimos corrigir os nossos erros se não tivermos apoio, ajuda. Ela merece o nosso perdão, talvez as coisas em sua vida melhorem se abrirmos os nossos corações.
— Você tem razão — Isaque jogou a mochila sobre a mesa —, eu vou falar com ela — saiu em disparada.

A verdade jamais revelada era que o garoto gostava de Júlia,mas não podia se deixar levar por uma aparência atrativa enquanto a alma era obscura, mas naquele dia tudo se clareou, a obscura alma poderia se transformar em algo cheio de amor, de luz, bastassem um carinho especial e uma compreensão sincera.
Isaque vasculhou cada corredor do Colégio Inova, observou com atenção cada canto do lugar, mas foi entre as árvores da área verde que encontrou a garota aflita, sentada sobre a grama com a cabeça apoiada nos joelhos e fungando o nariz repetidas vezes.
— Podemos conversar? — o rapaz se sentou cautelosamente ao lado da adolescente.
— Sim — Júlia ergueu os olhos inchados e respondeu com a voz embargada.
— Antes de qualquer coisa preciso que desculpe a todos nós, não sabíamos do seu problema...
— Eu entendo – enxugou as lágrimas forçando um discreto sorriso —. Mas e vocês? Podem me perdoar?
O garoto pôde observar melhor os olhos verdes ofuscados por uma tristeza intensa, uma imensidão de dor no espírito, a pior dor quem um homem pode enfrentar já que para ela não existem medicamentos físicos, apenas remédio que não se toma, sente-se.
— É claro — sorriu simpático —. Sua atitude é nobre e merecedora do nosso perdão. Hoje em dia é muito raro alguém se arrepender do que fez e provar isso.
— Vocês são ainda mais nobres por aceitarem o meu pedido.
Reconhecendo o difícil momento que Júlia enfrentava, Isaque tomou a atitude que gostaria receber caso aquela fosse sua história: aproximou-se mais da garota, envolveu-a com um dos braços e permitiu que ela repousasse a cabeça sobre seu peito.
— Agora coloque para fora tudo aquilo que a aflige, divida o faro que está carregando.
Aquele gesto acolhedor foi especial para a jovem abatida, que nunca experimentara algo tão bom. Fechou os olhos, concentrou-se no bem estar que sua alma sentia e abriu seu coração para revelar as suas dores:
— Ninguém sabe, pensam que ela morreu, mas na verdade a minha mãe abandonou nossa família quando eu era ainda muito pequena, desde que me entendo estou cercada por dúvidas, talvez eu não fosse suficiente — uma discreta lágrima escapou sendo colhida pelos suaves dedos do garoto que também possuía os olhos verdes —. Meu relacionamento com meu pai sempre foi conturbado, ele me odeia sem que eu saiba o motivo, nunca demonstrou algum carinho por mim e isso também me  corrói... Fui do jeito que fui porque queria atenção, mas a descoberta foi decepcionante: atenção todos podemos ter, carinho nem sempre vamos receber.
Se ainda estivesse se lamentando pelo problema que enfrentava Isaque ágoras se envergonhava, embora sua situação fosse crítica ele tinha apoio, recebia motivação para prosseguir na caminhada, nos momentos de fraqueza teria de onde tirar forças e além dos pais estarem dispostos a amá-lo incondicionalmente ele possuía uma amizade verdadeira, algo que faltava na vida de Júlia e tornava a caminhada ainda mais cansativa.
— Nem todo mundo tem o privilégio de desfrutar uma amizade regada por sentimentos nobres e sinceros, nem para todo mundo a vida abre essas portas, mas agora se sinta lisonjeada, meus amigos e eu estaremos dispostos em lhe acolher.
— Mesmo depois de tudo?
— Passado é passado — antes de continuar o garoto refletiu —. Aceita escrever uma nova história?
— Com certeza — seu sorriso dessa vez foi maior, pedir perdão foi o seu maior acerto.
Algumas pessoas só precisam de um pouco de atenção, de carinho, de se sentirem realmente amadas, seja nas relações mais íntimas ou nas amizades. A deficiência de tais valores pode causar desafeto, desesperança e uma melancolia infinita.

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Sempre após a aula Júlia se encontrava com Fátima e naquele dia especial não seria diferente, mas o local para o encontro saiu do costumeiro, dessa vez as duas amigas estavam no tranquilo Parque da Cidade da Paz. Enquanto lanchavam a garota agradecia incansavelmente pelo conselho da psicóloga, algo que transformou parte da sua história.
— Quando nos abrimos aos belos valores vivemos melhores — a terapeuta comentou —. Podemos não ter toda a riqueza do mundo, mas se a nossa alma está bem amparada temos toda a riqueza da vida!
— Nem consigo acreditar no que está acontecendo — o semblante antes abatido agora exibia felicidade —. Eu não poderia sonhar que me sentiria tão bem.
— Melhor do que pedir perdão é perdoar — os olhos de Fátima pairavam sobre o céu azulado, observando o passear de muitos pássaros —. É um alívio para nós mesmos, saímos de nossa própria prisão.
— Precisou perdoar alguém?
— Sim, mas na minha opinião o perdão mais importante que já dei foi o que recebi de mim mesma. Precisei me perdoar para continuar com os meus objetivos, precisei alimentar esperanças de que viveria dias melhores apesar de tudo — segurando as mãos daquela que tinha por filha a psicóloga sugeriu: — Pratique o perdão sempre que puder.
— Seguirei todos os seus conselhos — Júlia ainda se agradecia pela nobre atitude que tomara.
— Gosto muito de você, deve imaginar, não sabe como estou me sentindo a vendo tão contente, tão irradiante. Fico ainda mais feliz por saber que a ajudei em uma importante conquista.
Aproximando-se mais da terapeuta a garota lhe deu um abraço.
— Obrigada... Por tudo.

De longe, escondido, Rui a tudo assistiu.

No próximo capítulo:
— Será mesmo que eu deva escrever um romance? — estreitou os olhos —. Eu reparei bem no jeito que saiu correndo atrás de Júlia e como olhou para ela o resto da aula — arqueou as sobrancelhas, vitorioso.

— Oh! Meu Deus! Que golpe baixo! — levou a mão coração fingindo ofensa —. Só caiu um arrependimento pelo modo que a tratamentos, não sabia que as coisas eram tão difíceis em sua vida.

De segunda a sexta, às 19h30!

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