[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 21



Capítulo 21


Fátima era na verdade Helena, a mulher que abandonou Júlia anos atrás e que agora tentava corrigir o erro do passado e, assim, amenizar a dor do arrependimento.
— Eu imploro que fique longe desse assunto — a mulher suplicou tendo os olhos lacrimejantes —. Deixe-me apagar tudo o que aconteceu, deixe-me viver tudo aquilo que ainda não vivi ao lado da minha filha.
— Ah! Helena... Ainda tão inocente — o som da risada saiu fanhoso — Acha mesmo que voltaria e daria início ao seu plano de um modo tranquilo? Você me deixou com um estorvo para sustentar, acha mesmo que seria bonzinho e a veria de volta sem interferir em nada? Burra! Teria sido melhor continuar onde estava.
— Ainda tão desprezível! Eu voltei pela minha filha e não vou desistir dos meus objetivos!
— Agora é fácil chamar de sua filha, agora que todo o trabalho pesado já foi feito, agora que você tem uma profissão e o futuro garantido. É mesmo muito fácil, mas eu garanto que torno a sua tarefa impossível! Júlia não é garota de perdoar, faz questão de jogar na cara dos outros quando os despreza, com você não será diferente — Rui tinha uma voz de ameaças —. Quando ela souber de toda a história vai odiar tê-la conhecido.
— Não é isso o que eu acho — a psicóloga enxugou a lágrima que escapara e se posicionou firme perante o ex-marido —. Ela gosta de mim, tem passado por cima da sua ordem para conversar comigo, eu já a conquistei.
O homem aplaudiu como se tudo fosse genial e com o insistente sorriso irônico estampado no rosto afirmou:
— É uma questão de séria conversa para que tudo isso acabe. Ela precisa saber, ou melhor, ela vai saber que a mulher que tanto tem admirado, que se aproximou se fazendo de boa amiga, é a principal causadora da sua dor, do seu sofrimento! Não há psicólogo que a faça entender sua atitude egoísta!
— Imbecil! — Helena não conteve a raiva e a descarregou em um tapa no rosto do homem —. Eu não vou deixar que você estrague a minha vida outra vez nem que para isso eu precise matá-lo! — a declaração fora surpreendente.
— Além de covarde é também assassina — em tom de deboche Rui fez sinal de positivo com as mãos enquanto controlava a fúria que a ardência do tapa provocou em seu ego —. Que mãe maravilhosa, um exemplo, a melhor do mundo!
— Nós bem sabemos quem foi o principal causador disso tudo, sabemos que foi você o motivo de toda essa desgraça.
— Não, não venha colocar a culpa em cima de mim, bem ou mal eu cuidei daquela que você desprezou — os olhos fitos sobre a mulher resplandeciam intimidação —. Eu cuidei, você desprezou!
— Trata aquela que diz ter cuidado tão mal, sem amor de verdade, sem o carinho necessário, como pode querer interferir na minha aproximação?
— Eu te amei — a revelação —. Eu te amei com todas as minhas forças, tanto que nunca mais consegui me envolver com outra mulher. Olhar para Júlia sempre me fez lembrar o quão idiota fui ao me entregar aos seus encantos.
A mulher apenas encarava aquele que falava, as palavras pareciam não se formar mais em sua mente, ela não esperava por aquela declaração repleta de sinceridade, verdade.
— Mas você apenas amava a si própria — os olhos do empresário caíram sobre o chão —, cheguei a me sentir insuficiente — voltou a encarar a ex-esposa —. Eu sofri, eu chorei, eu me senti incapaz... Agora é a sua vez!
— Eu precisava ganhar a vida, fazer as coisas acontecerem, livrar-me de um louco — Helena deu início a sua explicação —. Nós éramos muito jovens e agimos de forma precipitada, por impulso, confundimos tudo aquilo com amor...
— Você confundiu com amor! — a voz do homem sobressaiu a da mulher —. Eu prometi que seríamos muito felizes, era só uma questão de tempo, contudo a sua escolha foi me dar as costas e, o pior, fazer uma inocente pagar pelos seus atos.
— Estou disposta a corrigir tudo, mas preciso que me ajude.
Dando as costas Rui fez sua última declaração:
— Tarde demais.

<<>> 

A sábado fora simplesmente incrível, aquela era a melhor definição para um dia tão especial o qual Gustavo ansiava por viver muitas vezes ainda. Recostado sobre uma pedra na beira do mar tendo a amiga com a cabeça repousada em seu ombro o garoto admirava o pôr-do-sol enquanto criava em sua mente diversas cenas para o futuro.
— Já agradeci o suficiente? — Gabriela quebrou o silêncio acolhedor tirando o rapaz de seus devaneios.
— Nunca vai precisar me agradecer pelo que faço — instintivamente os dedos do jovem apaixonado tocaram o rosto angelical da garota ao lado, acariciando-o com delicadeza —. Tudo aquilo que fizer por você sai do meu coração.
Levando a mão até os dedos que a acariciava a menina dos olhos azuis suspirou com o toque, por um momento achou que deveria se declarar e, quem saber, dar início ao que já deveria ter acontecido há muito tempo, mas o medo de estragar o presente a privava do futuro.
— Sabe que é a melhor pessoa do mundo, não sabe?
— Eu tento — os olhos castanhos tomavam uma coloração acinzentada diante a luz do sol, o elogio fez nascer nas bochechas do Romântico Anônimo as costumeiras covinhas infantis —. É bom deixarmos resplandecer aqui que sentimos pelas pessoas das quais gostamos, esse é o meu jeito: ajudando-as, protegendo-as.
— Se eu pudesse ficaria ouvindo a sua voz eternamente — Gabriela não se intimidou na afirmação —. As coisas aconteceram tão rapidamente, mas já me ligaram a você.
— Gosta de me ter como seus olhos?
— São os melhores que eu poderia ganhar — riu abertamente —. E por falar nisso você poderia me descrever como é o fim da tarde no mar — sugeriu.
— Está bem, vamos lá — pigarreou antes de começar, passou um dos braços por trás do pescoço da Adolescente Apaixonada, deixando o contato ainda mais hospitaleiro —. As ondas estão um pouco mais agitadas e maiores, batem nas pedras com firmeza e provocam a música natural do mar. O sol aos poucos se esconde por trás da imensidão de águas azuis que parecem infinitas. A noite começa a esconder o dia, as primeiras estrelas já podem ser vistas, estrelas que exibem o seu brilho sem acanhamento. E há o vento que é soprado do mar com mais força, fazendo as árvores dançarem em um ritmo acelerado, assim como os seus cabelos, os mais perfeitos cabelos...
Gabriela imaginou cada detalhe dentro daquilo que conseguia, a escuridão que a cercava possuía um limite: sua imaginação. Afastando-se singelamente de Gustavo a garota se colocou perante o mesmo, ainda sentada sobre a areia da praia o indagou:
— As tais águas azuis são como os meus olhos?
O garoto se prendeu naquele olhar simples, porém terno, tímido, contudo exuberante. Sentiu-se preso mais uma vez, seu coração deu sinal de vida e as mãos tremulavam, a visão dos fios loiros que caíam suavemente sobre o rosto delicado era como a de um anjo.
— Eles são ainda mais perfeitos.
Aquele sorriso acanhado que sempre encantava o Romântico Anônimo foi exibido uma vez mais. Levando as mãos ao tosto do rapaz a jovem adolescente passou a tocá-lo, prestou ainda mais atenção e afirmou:
— A sua beleza é tão intensa quando a do mar que me descreveu — descendo a mão até o peito do garoto concluiu: — E ela também está aqui.
Ainda que insegura Gustavo levou suas mãos ao rosto de Gabriela fitando os olhos que pareciam poder vê-lo, os olhos mais bonitos que já vira. Os rostos estavam se aproximando, os corações aceleravam enquanto as respirações se intensificavam, o ardor da ansiedade consumia as almas entusiasmadas, mil pensamentos vagavam pelas mentes apaixonadas. Um beijo.
Na verdade um selinho.
Um discreto e tímido selinho.
Mas que provocou os sorrisos bobos, a timidez exagerada, os sentimentos confusos.
Foi seguido por um abraço amistoso.
No entanto ninguém mencionou a ideia do “namorar”.

<<>> 

Um domingo ensolarado. Um bom dia para reunir os parentes mais íntimos ou então os amigos mais próximos, desabafar sobre a semana que findou e fazer planos para a nova semana que se inicia; preparar um almoço sem discrição e passar os minutos de folga ao lado de quem se quer bem.
As famílias de Isaque e Gustavo se reuniram na casa do segundo para um almoço agradável que, enquanto não saía, era aguardado pelos velhos amigo na frente do videogame.
— Vocês o quê?! — Isaque ficou pasmo, mas não tirava os olhos do carro adversário.
— A gente se beijou — Gustavo revirou os olhos pressionando o “x”, soltando o turbo do veículo que dirigia sem se importar com as regras da boa civilização —. Não foi um beijo de cinema, foi só um celinho, mas que para mim significou muito.
— O próximo passo é pedir a duquesa em casamento, mi lorde.
— Sem pressa, conselheiro — deu a curva, acelerou, rasgou a linha de chegada e zombou: — Sem pressa...

Gabriela acordou sorridente naquela manhã ouvindo o alegre canto dos pássaros. Tomou seu banho matutino, vestiu algo confortável e foi à procura dos pais pela casa.
— Finalmente a bela adormecida levantou — Eliseu ironizou enquanto ajudava a esposa por a mesa.
— Que cheiro é esse? — a garota farejou —. Lasanha? — mordeu os lábios —. Que horas são? — indagou com espanto.
— Hora de almoçar — Laura arrumou os pratos. Aproveitou que o marido foi lavar as mãos e perguntou o que tanto desejava, cheia de entusiasmo: — Como foi lá?
— Nós nos beijamos — o rosto enrubesceu.
— Não creio! — a mulher parecia uma adolescente animada pela amiga que “desencalha”.
— Só um celinho — o semblante era sonhador —, mas que diz muita coisa!
Mãe e filha se abraçaram. Uma nova e linda história estaria para começar?

No próximo capítulo:

— Júlia... — Isaque uniu as mãos com suavidade enquanto mantinha os olhares fixados —. Eu sempre gostei de você, mas precisava conhecer a sua alma e finalmente alcancei o meu objetivo, ela é tão bela quanto você e precisa ser amada... Pode parecer loucura, mas eu nunca tive medo de loucuras, antes as enfrentei audacioso e conquistei muitas coisas, por isso quero saber se você aceita namorar comigo.

De segunda a sexta, às 19h30!

Comentários

Siga o blog pelo Instagram:

Postagens mais visitadas deste blog

"Amar é mudar a alma de casa"

A Brevidade da Vida

Aflições na Alma

Flores aos mortos

[Conto] Eternizados Pelo Amor