[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 24



Capítulo 24


Pouco antes...

Isaque pegou suas coisas para ir embora, o que conseguiu aproveitando a distração dos funcionários e o portão aberto. “Inútil”. Uma voz gritava em sua consciência enquanto corria pelas ruas. “Não pode participar de um simples campeonato”. A dor na cabeça era intensa. “E ainda por cima atrapalha os sonhos dos outros”. Tontura forte. Desnorteado, foi parar no meio da avenida. Uma moto o atingiu em cheio.
O motoboy, que estava em seu horário de serviço, não esperava pela repentina aparição do garoto, não teve tempo suficiente para desviar, não pôde impedir a trombada que lançou o adolescente poucos metros a frente, caído no chão, desmaiado. Também caído, o motoqueiro se levantou depressa, desesperado ao ver o corpo esticado sobre o chão. Sua reação foi nobre, com dificuldade sustentou Isaque nos braços e correu com as próprias pernas ao hospital, que ficava próximo dali.
Entrou angustiado no estabelecimento médico clamando por socorro, pedindo que salvassem o garoto desacordado. Por sorte o doutor Alair, que fazia plantão naquele dia, estava perto do paciente e, ao vê-lo, de pronto concluiu o que acontecia.
— Vamos cuidar dele! — ajudou os enfermeiros a por o rapaz sobre a maca.
— Eu juto que não foi por querer, eu nem o vi! — o motoboy se justificava visivelmente abalado.
— Continue o seu dia — o médico pediu —, mas volte mais tarde e conversamos melhor.

Aquilo não era culpa da quimioterapia, o bom médico tinha certeza, sua suspeita era de que as células do paciente se enfraqueceram além do esperado, se os exames confirmassem aquilo aí sim os motivos para preocupações surgiriam.
Os resultados saíram, a suspeita fora confirmada.
— Marcos, antes de qualquer coisa preciso que se controle — Alair entrou na sala do diretor do hospital -. O assunto é sério.
— O que houve? — percebendo que a coisa era grave o homem se afligiu —. Algo com o meu filho?
— Lamento que sim.
— Diga logo!— o desespero já nascia.
— Ele sofreu um acidente, já está recebendo os cuidados médicos, mas há um problema maior.
— Meu Deus! — em tom de lamentação o aflito pai passou as mãos sobre a cabeça, temeroso, receoso.
— Ele precisa urgentemente da doação de medula óssea.

— Ele vai morrer! — Ana entrou em desespero ao receber a notícia —. Nós já sabíamos que isso poderia acontecer, procuramos em toda a região por doadores e não encontramos se quer uma pessoa compatível!
— Deve haver uma solução — o médico estava pensativo.
— Ela pode estar longe — o diretor comentou desesperançoso —, talvez não dê tempo — deu um soco na mesa em um momento de ira, sentia-se perdido perante o transtorno —. Nem para doar algo para o meu próprio filho eu sou capaz!
Ana também não possuía compatibilidade, ao escutar aquilo saiu correndo pelos corredores do frios, culpando-se por não poder fazer nada por aquele que tanto amava; chorando amargamente.

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Cabisbaixo, após deixar Gabriela em sua casa, Gustavo seguiu seu trajeto tendo o nariz revestido por curativos feitos na enfermaria do colégio, havia se quebrado com o soco que recebera. Entre seus pensamentos a dúvida se Isaque o perdoaria por ter sido um tanto rude, nada do que havia dito tinha por intenção machucar, ofender, fora a forma que ele encontrara para proteger aquele que não queria perder, mas que agora já poderia ter perdido.
Ao chegar em casa assustou a mãe.
— Envolveu-se em brigas? — Juliana o indagou pasma.
— Isaque... — respondeu abatido.
— Isaque? — assustou-se —. Como, se está internado?
— Internado? — o futuro pediatra não evitou o espanto —. Por que internado?
— Sofreu um acidente e agora corre riscos — a mulher declarou entristecida —. Sua tia ligou contando.
“A culpa é toda sua”. Uma voz soprou em seu ouvido, era o consciência que o convencera daquilo tão brevemente.

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Tudo aconteceu muito rápido. Uma vida precisava ser salva.
Gustavo adentrou o centro cirúrgico vestido naquela roupa que mais parecia um pijama, a característica vestimenta hospitalar. O lugar era depressivo, provocava o aperto no coração, as inúmeras aparelhagens espalhadas pelo espaço causavam aflição, mas tudo ali estava por uma boas causas.
— Deite-se aqui — o anestesista indicou a maca, possuía cordialidade no modo de falar —. Não se preocupe, o procedimento é simples.  Fiquei sabendo que são melhores amigos, pense que a vida dele depende dessa boa ação que terá, imagine que agora ambos terão uma ligação ainda mais forte.
Ajeitando-se na estranha forma da cama cirúrgica o Romântico Anônimo não pôde controlar a lágrima sentida que rolou por seu rosto e com ela a angustiada pergunta:
— Ele vai ficar bem?
— Com a sua ajuda, sim — o médico encontrou a veia do rapaz, injetou ali a agulha, entregou uma máscara de gás que deveria ser colocada sobre o rosto e pediu: — Conte de dez a um.
— Dez... Nove... Oito... Sete... — sentiu como se a mente se libertasse do corpo que a prendia —. Seis... Cinco... — tudo girava —. Quatro... Três... — não pôde concluir. Começava uma importante etapa.

Os olhos castanhos se abriram.
Gustavo não se lembrava do motivo que o levara a estar sobre a cama do quarto de um hospital, mas as lembranças voltaram como em um passe de mágica ao ver o rosto de Ana.
— Você foi um verdadeiro herói — a mulher era agradecida, os olhos inchados de tanto chorar agora davam lugar a um sorriso repleto de esperança —. Serei eternamente grata à sua bondade.
— Foi uma prova de amizade — a mãe do garoto acariciou sua testa —. A maior prova que já vi em toda minha vida.
— Apenas fiz o que deveria fazer — a voz soava fraca e as costas pareciam arder, o que seria extremamente normal por alguns dias —. Afinal de contas a culpa é toda minha — a revelação era um tanto surpreendente —. Ele queria participar do campeonato de futebol, mas eu o impedi, disse que existiam limite que o impossibilitavam... Ele julgou tudo como se eu o tivesse chamado de inútil e, então, saiu descontrolado.
— Não se preocupe com isso, meu bem — Ana segurou a mão daquele que tinha por membro da família —. A culpa não é sua, não é de ninguém, talvez seja apenas da teimosia do seu amigo, que insiste em cegá-lo para a realidade.
— Eu não quero perdê-lo — a afirmação em tom de súplica foi feita com o choro sentido que se manifestava —. É o meu único amigo em um mundo no qual não se pode confiar em qualquer um, construído a base de mentiras, não posso perder uma amizade de tanto tempo...
— Tudo vai ficar bem — Juliana sentiu o coração se quebrantar —. Eu prometo.
Após vinte e quatro horas Gustavo seria liberado da internação, Isaque, por sua vez, ficaria no isolamento já que por um certo período, até que o organismo se acostumasse com as novas células, ele ficaria muito mais vulnerável a infecções ou outros problemas. No entanto o doador da vida ficaria oculto, pelo menos até ele estar pronto para receber a notícia.

Durante os dias que se passavam o futuro pediatra apenas pensava em soluções para conquistar o perdão do melhor amigo, imaginar que aquela amizade tão única em sua fórmula estaria arruinada provocava angústias em seu peito. Ele não poderia aceitar aquilo. Ele não aceitaria aquilo. Nunca desistiu das pessoas que eram realmente importantes em sua vida, não era agora que desistiria.

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Poucos dias mais tarde...

O mesmo domingo que para uns era vivido tranquilamente em um parque florido, para outros era propício a lutar pela vida. A última situação era a que descrevia Isaque, que já no quarto aguardava ansiosamente pela notícia de alta.
— Toda essa ansiedade para reencontrar o amigo? — Ana jogou sua indireta.
— Ele não é meu amigo — revirou os olhos, entendera a referência —. Amigos não nos privam dos nossos sonhos.
— Não se for para o nosso bem — a mulher aconchegou o filho em um abraço —. Os amigos são capazes de qualquer coisa para o nosso próprio bem, você não imagina.
— Amigos de verdade, não o Gustavo...
— Acha mesmo que essa besteira pode ser capaz de destruir uma amizade construída há anos?
— Uma besteira? — sentado na cama o adolescente se afastou da mãe, encarando seus olhos —. “Essa besteira” me fez ter que receber uma doação! Eu quase morri!
— Não seja tão infantil, você sabe que mais cedo ou mais tarde iria precisar disso — a afirmação fora um tanto agressiva ao garoto que nos últimos dias se mostrava sentimental ao extremo. Percebendo isso, Ana se retratou —. Desculpe, eu não quis dizer no sentido que está pensando. Só quero que abra os olhos e veja que se não tiver mais Gustavo como amigo para toda hora será difícil encontrar outra pessoa para confiar...
— Esse doador tão misterioso se mostrou mais amigo que certas pessoas — disse aquilo como se dissesse que encontrar outra pessoa não fosse tarefa difícil.
— Ah! É? — a mãe sorriu —. Então vamos acabar com esse mistério, eu já volto com o seu doador.

Isaque não podia acreditar naquilo, ficou boquiaberto procurando palavras a declarar, mas sem as encontrar. Sentiu algo diferente em seu peito, uma emoção que nunca sentira, jamais poderia imaginar quem fora o seu espontâneo doador. Ele sabia que doar era uma prova de amor ao próximo, mas quando o doador era alguém tão íntimo existiam sentimentos além envolvidos, sentimento de parceria, de companheirismo, de amizade sincera, do amor em mais uma de suas formas: amor de amigos, um amor que quando verdadeiro, nada é capaz de abalar. As lágrimas de alegria, satisfação e felicidade correram pelo rosto que ainda possuía tracejos da infância.
— Eu disse que poderia contar comigo para tudo — Gustavo declarou tento os olhos encharcados, incerto se dava ou não um abraço naquele que quase perdera para as adversidades de uma doença, aquele que amava como seu irmão —. E cumpri a minha promessa.

No próximo capítulo:

O garoto temeu, ali poderiam estar escritas palavras amargas ao paladar, palavras que o afligiriam como uma seta aflige as aves nos céus, palavras de desânimo. Mas precisava saber a verdade, precisava entender como a vida fluiria dali por diante.

De segunda a sexta, às 19h30!

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